“A Herança”, a notável obra do Dr. Carlos Pereira, político recentemente eleito presidente do PS-Madeira, veio ditar, indubitavelmente, que esta é a figura mais bem preparada para assegurar o futuro da Região. Olho para aquele livro como o roteiro da dívida que nos esmaga. Trata-se de um manancial de sabedoria económica, factual, sem margem para questionamentos naquilo que é essencial e, da sua leitura, resulta um assinalável carácter pedagógico. “A Herança” constitui o primeiro contraponto ao caminho que nunca deveria ter sido seguido. É um livro que desperta e ensina, ao mesmo tempo que constitui uma ponta do lado oculto do jardinismo. Eu diria que esta é a obra mais importante pós-Autonomia, porque convida a reflectir em nome do futuro. É uma falácia sustentar a defesa da dívida no pressuposto que teríamos de aproveitar os fundos europeus disponíveis. Uma meia verdade, pior que a mentira. Porque essa meia verdade redundou em desemprego, pobreza, falência dos sistemas e insatisfação generalizada. Temos o dobro de instituições de solidariedade social relativamente ao número de freguesias. Isso diz tudo.
À medida que fui devorando páginas cheias de interesse, uma pergunta, traduzida em três simples palavras, acompanhou-me a todo o momento: como foi possível? Como foi possível passar, sem qualquer crítica, sem qualquer reparo das instituições reguladoras e fiscalizadoras, inclusive, políticas, tamanhos atropelos relativamente ao equilíbrio das contas públicas? Como foi possível, tantos, durante três dezenas de anos, manterem um silêncio cúmplice? Como foi possível esconder facturação e só quando a região ficou com a corda no pescoço, as diversas instituições terem acordado para finanças claramente insustentáveis? Como foi possível?
Em função deste roteiro da dívida, Carlos Pereira tem, doravante, a enorme responsabilidade de provar que a tal pseudo “renovação” não passa disso mesmo; provar que a Madeira não precisa de continuidade, mas de uma alternativa política. E, neste pressuposto, folgo assistir à promessa de juntar muitos cidadãos independentes e de vários sectores, com reconhecida formação académica, em torno de um “gabinete estratégico”, ao mesmo tempo que, no plano político, manifesta interesse em congregar em um Conselho Consultivo homens e mulheres que marcaram a história do PS. Constata-se, por um lado, a preocupação de ter presente a memória e a experiência, por outro, uma efectiva e não a falada mas pouco praticada abertura do partido à sociedade. Carlos Pereira sabe que ganhar o partido é relativamente fácil, ganhar a sociedade constitui tarefa bem mais complicada. É nessa conjugação de esforços, entre órgãos estatutários, gabinete estratégico e conselho consultivo que poderá estar a chave do sucesso nas próximas eleições legislativas regionais. Porque quem, directa ou indirectamente, construiu a desgraça não tem condições políticas objectivas, sequer, para qualquer benefício da dúvida.
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