Os recasados excluídos dos sacramentos

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Penso que ninguém terá dados fidedignos para que possamos aferir um número concreto para a situação dos separados e divorciados recasados. Serão muitos, calculo. A tendência para aumentar está imparável.

Este grupo deve estar perfeitamente integrado na Igreja. E ponto final. Porém, nada obsta que se deva ter em vista cada situação concreta, as circunstâncias em que se viram forçados à separação ou ao divórcio e não existindo razões que não sejam sobremaneira graves contra a vida, a dignidade e o respeito por Deus e pelos outros, devem, ser chamados à comunhão e à participação na vida da Igreja. Hoje, cada vez mais cresce o número de pessoas que não aceitam nem muito menos compreendem que uma pessoa pelo facto de ter falhado uma vez ou mais numa relação amorosa, seja eternamente banida da vida litúrgica da Igreja ou seja considerado um anátema.

É preciso dar a possibilidade a todos de comungarem na Eucaristia, ainda mais se considerarmos o que Jesus diz: «Eu quero misericórdia, e não sacrifício. Porque eu não vim chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento» (Mt 9, 9-13). Mais ainda: «o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido» (Lc 1, 10).

Neste sentido, a Bula do Papa Francisco para o Ano jubilar sobre a Misericórdia, confirma esta nossa convicção. Diz o seguinte: «A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo. E, deste amor que vai até ao perdão e ao dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia» (Nº 12). Para vermos a aplicação destas palavras, deve a pastoral da Igreja começar por aí mesmo, a vida matrimonial com todos os seus contornos.

Não faz sentido nenhum, que cada pessoa independentemente da sua condição e da sua situação humana esteja privada da comunhão eucarística e até que lhe seja vedada a possibilidade de se abeirar dos sacramentos e de participar neles de alguma forma se a consciência o assistir com a dignidade e o respeito. O restante fica reservado ao amor e à misericórdia de Deus. Não nos compete julgar ninguém e nenhuma autoridade na Igreja por mais iluminação que tenha deve exercer o seu múnus como um juiz, mas antes como um agente instrumental da ação misericordiosa de Deus.

A Igreja Católica terá que mudar muito neste âmbito, porque a prática já vai provando que a sua doutrina e pregação contra estes domínios da vida pessoal privada de cada pessoa vai sendo remetida a uma profunda e grave indiferença.

Uma grande parte dos baptizados pouco ou nada se importa com a sua irregularidade. Alguns não estarão nada conscientes, são indiferentes. Porém, o maior problema coloca-se aos casais que sempre foram crentes e participaram na vida da Igreja. Quando estão na situação de separados, divorciados e recasados assumem um sofrimento muito grande e sentem-se diferentes dos outros fiéis. É preciso repensar tudo e não ter qualquer prurido em mudar o que for necessário mudar para que todos tenham lugar e vez na mesa da comunhão.

Um dia destes fui ao encontro de uma senhora com mais de trinta anos a viver uma união de facto, participou sempre na Eucaristia sem comungar. Lamentava-se e chorava compulsivamente, porque sentia uma mágoa interior enorme por não poder comungar. Diante da sua vontade entregamo-nos ao amor de Deus e realizamos o sacramento da penitência e obviamente que lhe concedi a possibilidade de receber a Sagrada Comunhão. Ao receber o Santíssimo Sacramento louvando a Deus, as lágrimas de tristeza converteram-se em lágrimas grossas de alegria. Um momento grande de reconciliação, de libertação. A presença de Deus foi muito forte para esta senhora e para mim.

A misericórdia de Deus pode ser anunciada aos casais separados e divorciados recasados pelo acolhimento e pela compreensão sem que se lhes apresente logo à partida o moralismo e as leis que excomungam ou colocam cruelmente à margem. Este deve ser o principal papel do ser Igreja, acolher sem desprezar e fazer todo o possível para integrar sempre. A preocupação deve ser não permitir que as pessoas se afastem ainda mais da Igreja ou então vão para as suas casas ainda com mais revolta e animosidade contra os sacerdotes e contra os que participam assiduamente na vida da Igreja. A este nível considero que meio trabalho ficará realizado se o acolhimento sem rotular for a principal preocupação em relação a quem é recebido.

Pois é isso que importa mesmo, porque, ensina-nos o Papa Francisco para o Não Jubilar da Misericórdia: «Deus não se cansa de estender a mão (Nº 19). Não nos cansemos de ser essa mão de Deus que se estende a todos os que venham ao nosso encontro.


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