Como descrever o desemprego?

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OPINIÃO

Luís Rocha

A reportagem de hoje foi difícil de fazer. Uma reportagem sobre desempregados, feita por desempregados. Sim, porque o jornalista que agora escreve também conhece intimamente o fantasma do desemprego. Por isso a sua identificação com os testemunhos que ouviu é absoluta. E alguns são pungentes.

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No âmbito do jornalismo sem filtros que o Funchal Notícias tem desenvolvido, na medida das suas possibilidades limitadas, quisemos abordar a questão do Dia do Trabalhador sob uma perspectiva diferente.

Esta data, conquistada a duras penas, e que traduz o justo regozijo pela obtenção de direitos para quem trabalha para ganhar a vida, é hoje, no nosso país e noutros países europeus igualmente desgraçados, praticamente despida de sentido.

Comemorar o quê, se esse direito constitucional, o direito ao trabalho, não existe para tantos? Comemorar o quê, se aqueles que ainda têm trabalho temem perdê-lo a todo o instante? Comemorar o quê, se não há políticas que incentivem, de facto, a criação de emprego, se a economia está arruinada, primeiro por incompetência administrativa de quem governou, depois pela ânsia subalterna de quem agora governa de corresponder às exigências de quem nos espolia e continuará a espoliar, cobrando juros altíssimos para nos ‘salvar’ da bancarrota?

Todas estas considerações são meramente académicas para quem enfrenta dificuldades para sobreviver. Auscultámos pessoas como nós, que passam por dificuldades imensas. Que temem perder a casa, que não sabem como corresponder às necessidades dos filhos. E que se encontram em situação incomparavelmente pior à de quem os entrevistou. Doeu ouvi-los. Porque… querem ouvir a verdade? Ninguém quer saber deles.

Pois é. Salvaguardando alguns amigos fiéis e familiares, o ‘resto do mundo’ deixa de se importar. Passa a olhar o desempregado com ar condoído, mas distante. Ele carrega, afinal, uma ‘lepra’ que as pessoas temem que se lhes possa estender, mais cedo ou mais tarde. E assim afastam-se dele, como se carregasse uma doença contagiosa. É como se os desempregados fossem pessoas desesperadas que se estivessem a afundar num pântano, e os outros temessem ir ajudá-los, por medo de ser arrastados para o fundo.

Face ao desimportado comportamento de quem antes nos conhecia e agora quase finge não nos conhecer, segue-se toda uma espiral de malefícios, o primeiro dos quais é a autocomiseração. É tentador deixar-se cair na depressão. Há quem não consiga escapar-lhe. E esta doença é terrível, mina o raciocínio e a vontade de quem dela sofre.

Depois há todos os habituais amortecedores da dor e do sofrimento, que vêm por acréscimo a quem de repente passou a sentir-se imprestável. Do álcool aos antidepressivos, toda essa panóplia vai ‘ajudando’ o desempregado a arrastar-se, desmotivado, de dia para dia. Mas não resolvem a situação, porque o sol nasce sempre no dia seguinte sobre o panorama desolador de não vislumbrar um futuro.

A capacidade de reagir e continuar, que todos os não-desempregados entendem que devia ser o desejável comportamento-padrão, não é tão fácil assim. Vem e vai em ondas. Uns dias são melhores, outros piores. Aprende-se a viver o instante. Agarramo-nos aos rituais que nos afastam do quotidiano desmotivador.

Mesmo os mais assertivos e positivos de entre nós são capazes de não conseguir ultrapassar a situação. Há muitas variáveis em jogo: idade, saúde, o factor sorte. As competências anteriormente demonstradas muitas vezes tornam-se secundárias. Já delas ninguém quer saber. Nem os que antes nos dirigiam elogios encomiásticos, nem os que nos deploravam, nem os que se aproveitaram das referidas competências em proveito próprio, e à conta delas e das de outros aumentaram o seu próprio currículo.

Para o desempregado, conseguir colocar a cabeça fora das águas turvas que o envolvem já é uma vitória. Sair definitivamente do pântano pode parecer uma miragem.

Entretanto, vai contemplando as comemorações de um 1º de Maio despido de significado, sonhando acordado com aquele dia que lhe permita esquecer, definitivamente, que o anterior patrão alguma vez existiu. O dia em que já tiver outro emprego.