Emanuel Rodrigues: as perguntas de Abril indiscretas a um homem discreto

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FOTOS: Rui Marote

Rosário Martins (texto) 

Emanuel Rodrigues aceitou o desafio do Funchal Notícias. Nada de entrevistas cinzentas mas, em tempo de comemorar Abril, responder ao… impensável e insólito. Currículo e humor não lhe faltam. Às questões picantes, responde com a comicidade e mordacidade adequadas ao momento. Natural de Machico, onde nasceu a 25 de dezembro de 1943, licenciou-se em Direito e é advogado desta praça desde 1972. É o militante número 88 do PSD, desde 74, e presidiu à I e II legislaturas da Assembleia Regional, entre 1976 e 1984. Foi deputado Constituinte, entre 75 e 76. Recentemente foi ainda mandatário da candidatura de Miguel Albuquerque, o novo príncipe da Quinta Vigia.

25-ABRIL

Funchal Notícias – Quem bania do 25 de Abril?

Emanuel Rodrigues – Bania todos aqueles que, de forma apressada, afivelaram uma máscara de democrata e que, com essa conduta (muito frequente à época), conspurcaram os objetivos mais caros da Revolução de Abril.

FN – O que o tira do sério nas comemorações dos aniversários de abril?

ER –As palavras moles e de circunstância com que muitos se referem à Liberdade, à Democracia e, no caso da Madeira, à Autonomia.

FN – Convidava a ex-deputada do PCP Odete Santos para participar numa manifestação de rua?

ER – Convidava, se ela permanecesse de boca calada e perfumada com odores capitalistas.

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FN – Quem foi a sua grande paixão em abril de 74?

ER – Apaixonei-me por aquele grandioso momento de Poesia, pela concretização dum sonho tornado realidade, que foi a conquista da Liberdade dum povo.

FN – Já alguma vez sonhou com Salazar?

ER – Credo, Cruzes! Não costumo ter pesadelos.

FN – Entre Jardim e a maçonaria, quem “levava para casa”?

ER – Nem um nem outro. Deixava-os à porta, de castigo. E descalços.

FN – Prefere uma bela mulher ou a estátua da autonomia?

ER – Apesar de ser uma estátua que muito respeito, preferia uma bela mulher, com ideias na cabeça.

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FN –Identifica-se com o cravo ou prefere a rosa com espinhos?

ER – Identifico-me com o cravo, que se transformou num símbolo suprapartidário.

FN – O que mais o enervava quando era presidente da primeira Assembleia Regional da Madeira?

ER – Não me costumava enervar, apesar da minha juventude. Mas reconheço que eram muito maçadoras algumas intervenções no período de “antes da ordem do dia”, muito longas, fastidiosas e despidas de conteúdo.

FN – Qual a figura que mais admirava no Parlamento de então, por si presidido?

ER – Tivemos deputados muito bons. Era o caso, por exemplo, do Dr Alberto João Jardim, do Dr Luciano Castanheira e do Dr Baltazar Gonçalves. Para além do bom deputado que foi o saudoso Paulo Martins, o mais jovem dos deputados da I Legislatura.

FN – Qual foi a maior gaffe a que assistiu na era pós-25 de Abril?

ER – Foi um convite da Presidência da República, redigido nestes termos: “Convido o Presidente da Assembleia Regional da Madeira e Senhora Jardim Fernandes para a recepção… (recorde-se que o Dr Jardim Fernandes era o líder da bancada parlamentar do PS e também se chama Emanuel)

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FN – Sonha ainda com o poder?

ER – Nunca sonhei com o poder. Nem nunca me deixei inebriar por ele. Tanto assim que me vim embora quando achei oportuno. E saí pelo meu pé, de “motu próprio”.

FN – Entre os “patos bravos” da Madeira Nova e os guerrilheiros da África colonial, quem escolheria?
ER –Escolheria os guerrilheiros para praticarem tiro ao alvo com os “patos bravos”.

FN – Acha que a comunicação social é o quarto poder ou o quarto do poder?
ER – É, sem dúvida, um poder com muita força. Mas por vezes, sobretudo no Continente, foi o quarto acolchoado onde o poder tentava, e às vezes conseguia, instalar-se.

FN – Para onde mandava os homens da descolonização, Mário Soares e Almeida Santos?

ER – Mandava-os para o Havai, disfarçados de bailarinas, praticar a dança da chuva, em pontas e com o saiote típico das havaianas.

FN – Viu em Miguel Albuquerque o príncipe da era pós-jardinista?

ER – Vi no Dr Miguel Albuquerque um social-democrata com ideias próprias e aliciantes, um homem com um forte carisma, e com uma grande capacidade e enorme vontade para tentar resolver os problemas que ainda persistem na nossa Região, sobretudo os que tocam às franjas mais carenciados e desfavorecidos da nossa sociedade.

FN – Quando viu os elementos do governo escolhidos por Albuquerque sentiu calafrios?

ER – Senti satisfação pelas escolhas feitas. Acredito nas pessoas que compõem o Executivo e espero que o tempo venha a dar força à minha crença.

FN – Se pudesse, colocava a estátua da justiça de olhos abertos?

ER – Não. Continuava de olhos fechados como tem estado desde tempos imemoriais.
FN – Quem está a mais na justiça do Estado de Direito?

ER – Estão aqueles funcionários e magistrados que são manifestamente incapazes.
FN – Quem despachava já para o exílio?

ER –Despachava todos aqueles que ao longo do tempo andaram a sugar os dinheiros públicos.

FN – Candidatava-se à compra da casa do Governo, no Porto Santo?

ER – Candidatava-me mas com um subsídio da Comunidade Europeia.

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