Primavera

Carlos Fino

Perante o inverno da oposição, de novo sem remissão a muito longo prazo, e enquanto os jacarandás não nos distraem com a sua habitual explosão de azul, deixem-me saborear os evidentes sinais de primavera política que andam no ar. Bem sei que primavera a sério pouco tem a ver com o calendário. E que os sinais de primavera não são a primavera. É que é sempre possível em política, e fastidiosamente habitual, prometer-se muito e, depois, não acontecer tanto como se anunciou. Às vezes, nem acontecendo mesmo nada. Mas andam por aí sinais de primavera, e isso é indesmentível.

Quando este texto for publicado, ainda não estarão instalados os novos órgãos de governo próprio da região, que emergirão da renovada maioria absoluta do PSD/Madeira, após quase quarenta anos de poder absoluto do líder anterior do PSD/Madeira. No entanto, só um cego não enxergará como o ar ficou, de repente, mais límpido: nenhum jornalista foi expulso da sede do PSD/Madeira na conferência de imprensa após conhecidos os resultados eleitorais; os jornalistas não voltaram a ser insultados pelo líder do PSD/Madeira; os líderes das oposições, apesar da inabilidade quase dolosa de alguns deles, não foram tratados abaixo de cão; desapareceu a imbecilidade boçal e cobarde dos bonecos da boca pequena. E, pasme-se, foi anunciada a disposição do grupo parlamentar do PSD/Madeira para celebrar o 25 de Abril no parlamento regional, em sessão solene em que todas as forças políticas nele representadas usarão da palavra.

Primavera, mesmo. Comparada com esta, com as devidas proporções, só a primavera de 1974, que demorou quarenta e um anos a chegar à Madeira, e tardou tanto que foi deixando cair pelo caminho o esplendor inicial, chegando já grisalha e sem nada de revolucionário para oferecer. Mas, mesmo assim, primavera, que isto de primavera mais vale tarde que nunca, e tanta mesmice já azedava.

Evolução na continuidade, dirão alguns, por a solução ter brotado do interior do velho problema. Mas evolução. E, como as caras serão (quase) todas outras, existe uma pequena margem para alguma expectativa de que o discurso passe a ser menos previsível e menos repetitivo. E que a prática também. O pior que poderia acontecer a uma primavera tão tardia era começar a ouvir-se que antes é que era bom. Em Portugal, como sabemos, ainda há quem tenha saudades de Salazar…

Podem, portanto, abrir os jacarandás em flor. Lá mais para o verão, que também há de chegar, colheremos, para análise, os primeiros sinais da qualidade da mudança.


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