Declaração de interesses

Carlos FinoTenho 64 anos e continuo no ativo. E tenho feito várias coisas ao longo da vida. Atravessei o Atlântico para viver na Madeira, em 1959. Aqui terminei a escola primária e concluí o liceu. Joguei hóquei em patins. Como professor, já experimentei trabalhar com alunos de todas as idades, desde a pré-escola à universidade. Além das publicações académicas, que tenho de escrever por dever de ofício, escrevi artigos de opinião durante anos a fio para jornais regionais. Publiquei poesia e crónica. Já fiz política como independente e como militante partidário. Fui deputado socialista à Assembleia Regional. Voltei a ser independente quando, há alguns anos, o grupo parlamentar do PS se autonomizou do partido a quem deixou de prestar contas. Nessa altura, integrava o secretariado e a comissão política regional e parecia-me ultrajante a amotinação de um grupo de deputados contra o próprio partido. Percebi que não era capaz de conviver com esse ultraje e entreguei o cartão de militante. Mas tenho continuado a votar no PS.

Tinha 23 anos e estava na Marinha quando aconteceu o 25 de Abril. Desde essa data e até ao meu regresso à Madeira, em setembro de 1976, após ter cumprido o serviço militar e retomado o meu lugar de professor, vivi aquela espécie de democracia eruptiva que se esforçava por substituir as décadas de ditadura paternalista do Estado Novo. Na Madeira, vivi as quase quatro décadas do regime autonómico na oposição, sempre com a sensação de continuar sob um regime de partido único, tal a hegemonia e a prática política do PSD liderado por Jardim. Envelheci. Poderia ter arranjado um eufemismo para essa palavra, mas a realidade é que tenho a sensação de ter passado todos os anos da minha vida à espera de uma primavera definitiva que não sei se virá.

Entretanto, o ciclo do jardinismo também envelheceu. E a crise, a dupla crise que se abateu sobre os madeirenses por causa da austeridade de lá, agravada pela austeridade de cá, foi a sua doença terminal, salvo seja. No meu acomodamento (a gente habitua-se e vai sobrevivendo), acreditei no que seria óbvio, que chegara a hora da oposição, caso nestas latitudes o óbvio fosse mesmo óbvio. De facto, quem acreditaria que o velho PSD parecesse, de repente, uma espécie de fénix e que fosse a oposição, no seu conjunto, a ostentar as evidências da senilidade? Quem poderia prever que, no momento mais decisivo, o PS, que em tempos foi o líder da oposição, em vez de promover a formação de uma verdadeira alternativa, em que os cidadãos se fossem capazes de rever, preferiria patrocinar uma coligação com movimentos sem programa, que nunca se deixarão liderar? Uma coligação com o coelhismo, esse filho dileto do jardinismo mais manhoso, por quem foi engendrado para escarnecer ainda mais das instituições autonómicas, nomeadamente do parlamento. O coelhismo, que apenas luta pela própria sobrevivência, não respeita pactos nem instituições. Alimenta-se da comédia e da chalaça. Nivela tudo ainda mais por baixo. O que fará um partido institucional, como o PS pensa que é (ou já não pensa?), atrelado a gente assim?

Estes são os meus interesses e, também, o meu drama: descobrir que, todos estes anos depois, o futuro está à mão de ser conquistado por quem já tinha ganho, e malbaratado, o passado.