Rigo 23 inaugura sexta-feira na Quinta do Revoredo exposição “31 de Fevereiro com a Ribeira Seca II”

De 16 de outubro a 9 de janeiro de 2027, a Casa da Cultura de Santa Cruz | Quinta do Revoredo acolhe a exposição “31 de Fevereiro com a Ribeira Seca II”, do artista madeirense Rigo 23. A mostra retoma e reelabora alguns dos trabalhos apresentados em 2025 na Galeria Quadro Azul, no Porto.
Dando continuidade à sua colaboração de longa data com a comunidade da Ribeira Seca, no alto do vale de Machico, Rigo concebe uma exposição que se transforma também numa homenagem ao recentemente falecido padre José Martins Júnior (1938–2025), figura incontornável da vida pública madeirense no período posterior ao 25 de Abril e pároco daquela comunidade durante mais de meio século. Para além da sua missão pastoral, Martins Júnior destacou-se pela intervenção cívica e social, pela proximidade às populações e pela participação ativa no debate público madeirense, afirmando-se como uma voz singular na defesa da dignidade humana, da justiça social e do direito das comunidades a participarem na construção do seu próprio futuro. A sua ação ultrapassou, assim, os limites da esfera religiosa, cruzando fé, consciência social e cidadania, num percurso que deixou marcas na memória coletiva da Ribeira Seca e da Madeira. A homenagem que esta exposição lhe presta evoca não apenas o sacerdote, mas também o cidadão e a figura pública cuja presença e intervenção acompanharam transformações profundas da sociedade madeirense.
Como é habitual na sua prática artística, Rigo intervém diretamente no espaço arquitetónico das salas da Casa da Cultura, criando uma relação entre o lugar, a memória e os trabalhos apresentados. O espaço expositivo torna-se, deste modo, um território de encontro entre a criação artística, a história local e as experiências individuais e coletivas que dão forma à identidade de uma comunidade.
A exposição reúne desenhos e bordados onde os universos da escrita, da fala e do olhar se cruzam e confundem. Profundamente marcado pelo pensamento do seu conterrâneo António Aragão (1921–2008), com quem conviveu intensamente durante a adolescência e de quem recebeu importantes ensinamentos sobre a prática da intervenção artística, Rigo recupera também uma ideia central da obra do autor: “Ver é igual a ler e ler igual a ver. Nem mais imagem para ser melhor visto, nem mais literatura para ser mais lido.”*
Num momento de profunda turbulência na história da humanidade e do planeta — marcado pela guerra na Europa, pelo conflito no Irão, pelo genocídio na Palestina e pelo agravamento dos desequilíbrios climáticos —, o artista opta por dirigir o olhar para um universo mais íntimo e próximo, regressando às origens como gesto de resistência perante as narrativas homogeneizadoras de um império em putrefação, que deposita nas novas tecnologias a promessa de perpetuar e intensificar o seu domínio através da violência e da capacidade destrutiva. Este regresso ao território, às pessoas e às memórias que o constituem afirma também a importância da escala local como espaço de resistência, de pertença e de construção de alternativas às forças que procuram uniformizar a experiência humana.
Em continuidade com um diálogo que se prolonga há várias décadas com a comunidade da Ribeira Seca, Rigo contou, nesta exposição, com a colaboração de Maria Franco, bordadeira reformada, octogenária, e da sua filha, Paula Góis, professora, responsáveis pela execução de todos os trabalhos em bordado Madeira. Maria Franco participou nas duras lutas laborais que contribuíram para a conquista e afirmação dos direitos das bordadeiras madeirenses — mulheres que, durante gerações, exerceram o seu trabalho em condições de extrema precariedade e pobreza. A sua participação confere à exposição uma dimensão particularmente significativa, ao trazer para o espaço artístico a memória de uma luta coletiva pela valorização do trabalho feminino, pelo reconhecimento profissional e por condições de vida mais dignas. Os bordados tornam-se, assim, não apenas objetos de criação, mas também testemunhos de resistência, de transmissão de saberes e de afirmação da memória social.
A valorização destas experiências individuais e coletivas estabelece uma ligação com o legado cívico e comunitário do padre Martins Júnior, cuja intervenção pública se associou à proximidade às populações e à atenção às realidades sociais concretas. Tanto na memória das lutas laborais das bordadeiras como na história da Ribeira Seca, emerge a importância das pessoas comuns enquanto protagonistas da transformação social e da construção da identidade coletiva.
Para a realização dos murais no interior da Quinta do Revoredo, Rigo convidou os artistas Cristina Sousa, Carlos Costa e Rafaela Rodrigues, bem como o arquiteto Samuel Jarimba, cujas práticas artísticas e profissionais têm explorado este tipo de suporte. A intervenção recupera, assim, a memória dos murais tão característicos do período revolucionário, convocando para o presente uma linguagem profundamente ligada à participação, à intervenção pública e à transformação social. Mais do que uma evocação formal de um período histórico, os murais reativam o espaço como lugar de expressão coletiva, de afirmação de ideias e de participação cidadã — dimensões que ajudam igualmente a compreender a relevância pública de figuras como Martins Júnior.
Entre a arte, a memória e a intervenção pública, “31 de Fevereiro com a Ribeira Seca II” propõe, assim, uma reflexão sobre a relação entre os lugares e as pessoas que lhes dão significado. Ao homenagear o padre José Martins Júnior, reconhecer a memória das lutas das bordadeiras e convocar a tradição dos murais de intervenção, Rigo 23 articula diferentes formas de participação na vida coletiva, sublinhando a importância da memória como instrumento de consciência crítica e de construção do futuro.
“A Escrita do Olhar”, António Aragão, 1985.


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