Ronaldo escreveu o guião, Jesus fez a versão livre: confronto ponto a ponto

Os oito pontos do guião (texto reproduzido por CR7)

  1. “Fui eu próprio, e mais ninguém, que propus ao Cristiano um plano para ele nesta época desportiva na Seleção. Foi uma conversa longa e muito boa.”

  2. “Sei o quanto ele vive e ama a Seleção e o peso que tem no mundo, e ainda mais o peso e a influência positiva que tem tido na Seleção há 24 anos consecutivos.”

  3. “O plano que propus ao Cristiano foi aceite.”

  4. “Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar, leal e profissional.”

  5. “O jogo na Noruega não fazia parte do plano que tracei para ele. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. O Cristiano concordou.”

  6. “Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria.”

  7. “Para fechar o assunto: quero o Cristiano na Seleção. Na verdade não o quero pouco, quero-o muito. Felizmente ele também acredita em mim. Acreditou no Al Nassr e acredita aqui também.”

  8. “Sobre não saudar os adeptos. Já falámos sobre isso.”

O que aconteceu na prática?

  • Na conferência de antevisão à Dinamarca, Jorge Jesus referiu apenas parte destes pontos (por exemplo, assumiu o erro de o ter posto a aquecer sem o usar, e disse que o jogo na Noruega não estava no plano).

  • Ronaldo considera que isso foi uma quebra de palavra, porque o combinado era que Jesus seguisse o guião completo para “fechar o assunto”.

Se quiser, posso mostrar como Jesus falou (ou não) cada um dos oito pontos na conferência real.

Na conferência de antevisão ao jogo com a Dinamarca (30 de setembro), Jorge Jesus falou longamente sobre o episódio e, segundo várias transcrições e resumos, disse essencialmente o seguinte:

O que Jesus disse, por tópicos (com frases-chave)

1. “Não há caso nenhum”

  • “Não houve caso nenhum. Já expliquei porque é que foi o caso.”

  • “Não tenho problema nenhum em ter casos. Tive tantos ao longo da minha carreira. Mas não queiram fazer um caso onde não houve caso.”

2. O plano combinado com Ronaldo

  • “Eu disse ao Cris que ele não ia jogar estes dois jogos.”

  • “Foi um plano, disse ao Cris que não ia jogar nos dois primeiros jogos [fora de Portugal]…”

3. A decisão de o mandar aquecer e depois não o usar

  • “Pensei durante o jogo: ‘Se calhar vou precisar dele’. Vai aquecer. E depois não pus no jogo.”

  • “Qualquer jogador, quando anda ali a aquecer 20 minutos, 30 minutos, e depois não entra, não há nenhum que fique contente. Nenhum!”

4. A referência a Pelé e Maradona (estatuto vs. regras iguais)

  • “Quanto mais o Cris, que tem estatuto. Quanto mais se fosse o Pelé! Quanto mais se fosse o Maradona!”

  • “Aquecer trinta minutos? É isso o estatuto, mas os direitos são iguais. Depois eu, como treinador, decidi que não entrava.”

5. Autocrítica pontual: “Aqui é que eu fiz mal”

  • “Aqui é que eu fiz mal. Eu devia tê-lo mandado aquecer 15 ou 20 minutos mais tarde.”

  • “Isso é o estatuto. Aqui é que se calhar fiz mal. Mandei-o aquecer cedo demais.”

6. Negação de recusa em treinar e afirmação de autoridade

  • “O Ronaldo não se recusou a treinar. Isso era impossível. Hoje vai treinar.”

  • “Na equipa mando eu.” / “Nenhum jogador vai mudar as minhas ideias.”

7. Sobre a conversa entre os dois

  • “Obrigaram-me a falar com o Cris de um caso que não havia caso.”

  • “O que falámos é o que ele disse na conferência.”

Em relação ao “guião” de oito pontos

Comparando com os oito pontos que Ronaldo diz ter validado:

  • Jesus assumiu que:

    • tinha havido um plano combinado;

    • Ronaldo não questionou as opções;

    • o jogo na Noruega não fazia parte do plano inicial;

    • errou ao pô-lo a aquecer tanto tempo (“devia tê-lo mandado aquecer mais tarde”);

    • quer Ronaldo na Seleção (implícito em toda a defesa da sua importância).

  • Mas não leu o documento ponto a ponto como Ronaldo esperava, nem usou a fórmula exata de autocrítica (“Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona… Se fosse hoje não o faria”) nem fechou o assunto nos termos do guião (incluindo o ponto sobre “já falámos sobre não saudar os adeptos”).

Se quiser, posso colocar lado a lado cada um dos oito pontos do guião e o que Jesus efetivamente disse sobre cada um.

Guião de 8 pontos vs. o que Jesus disse

# Guião (texto que Jesus deveria ler, segundo CR7) O que Jesus disse na conferência (essência + frases-chave) Cumpriu o guião?
1 “Fui eu próprio, e mais ninguém, que propus ao Cristiano um plano para ele nesta época desportiva na Seleção. Foi uma conversa longa e muito boa.” Disse que tinha havido um plano combinado com Ronaldo para não jogar os dois primeiros jogos fora: “Foi um plano, disse ao Cris que não ia jogar nos dois primeiros jogos [fora de Portugal]”. Parcialmente. Reconheceu o plano, mas não usou a formulação exata nem enfatizou “conversa longa e muito boa”.
2 “Sei o quanto ele vive e ama a Seleção e o peso que tem no mundo, e ainda mais o peso e a influência positiva que tem tido na Seleção há 24 anos consecutivos.” Reforçou o estatuto de Ronaldo (“Quanto mais o Cris, que tem estatuto. Quanto mais se fosse o Pelé! Quanto mais se fosse o Maradona!”) e que “os direitos são iguais”. Parcialmente. Reconheceu o estatuto e importância, mas não falou explicitamente de “24 anos”, “ama a Seleção” ou “influência positiva”.
3 “O plano que propus ao Cristiano foi aceite.” Indiretamente, ao dizer que combinou com Ronaldo que não jogaria os dois primeiros jogos e que ele aceitou aquecer: “Eu disse ao Cris que ele não ia jogar estes dois jogos… Vai aquecer.” Implícito, mas não dito. Não afirmou claramente “o plano foi aceite”.
4 “Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar, leal e profissional.” Não há registo de Jesus ter dito que Ronaldo “nunca questionou” ou que foi “exemplar, leal e profissional”. Aproxima-se quando diz “O que falámos é o que ele disse na conferência”, mas sem elogio explícito. Não. Não elogiou explicitamente a postura de Ronaldo nesses termos.
5 “O jogo na Noruega não fazia parte do plano que tracei para ele. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. O Cristiano concordou.” Disse: “O jogo na Noruega não fazia parte do plano” (implícito ao dizer que não ia jogar os dois primeiros jogos) e que, durante o jogo, pensou usá-lo: “Pensei durante o jogo: ‘Se calhar vou precisar dele’. Vai aquecer.” Parcialmente. Transmite a ideia, mas sem a sequência completa (recuperação física + aviso prévio + concordância explícita).
6 “Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria.” Assumiu erro de timing: “Aqui é que eu fiz mal. Eu devia tê-lo mandado aquecer 15 ou 20 minutos mais tarde.” / “Isso é o estatuto. Aqui é que se calhar fiz mal. Mandei-o aquecer cedo demais.” Parcialmente. Assume erro, mas não usa a fórmula exata “alguém da dimensão de Pelé ou Maradona… Se fosse hoje não o faria”.
7 “Para fechar o assunto: quero o Cristiano na Seleção. Na verdade não o quero pouco, quero-o muito. Felizmente ele também acredita em mim. Acreditou no Al Nassr e acredita aqui também.” Deixou claro que conta com ele e que “na equipa mando eu”, mas não fez uma declaração tão enfática de “quero-o muito” nem mencionou Al Nassr ou “acredita em mim”. Não. Não fechou o assunto nesses termos nem reforçou a confiança mútua como no guião.
8 “Sobre não saudar os adeptos. Já falámos sobre isso.” Não há registo de Jesus ter falado, nesta conferência, sobre Ronaldo não saudar os adeptos. espn.com+5 Não. O ponto não foi abordado.
  • Jesus seguiu cerca de metade das orientações de Ronaldo, assumindo: existência de um plano, que o jogo na Noruega não estava previsto, que errou no tempo de aquecimento e que Ronaldo tem estatuto especial.

  • Mas não leu o guião ponto a ponto, não usou as frases de autocrítica e reconhecimento que Ronaldo esperava (pontos 4, 6 na forma exata, 7 e 8), e manteve um tom mais defensivo e de autoridade (“Nenhum jogador vai mudar as minhas ideias”).

 

 


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