O pré-colapso da(s) democracia(s)

Após 2500 anos de presença na Europa, a democracia contemporânea vive um dos seus períodos mais paradoxais: nunca houve tanta informação disponível, nunca foi tão fácil aceder ao debate público, nunca os cidadãos tiveram tantos (e diferentes) meios para se expressar e, no entanto, em tempo algum o espaço democrático pareceu tão vulnerável, tão teatral, sem substância e manipulado. O que deveria ser o exercício livre (e racional) da cidadania transformou-se num palco onde o poder político se sustenta através de “episódios” diários (casos, sucessão de escândalos, demissões… numerosas polémicas éticas ou judiciais de maior ou menor dimensão), muitos deles cuidadosamente encenados, que substituem o Governo pela narrativa, a ação pela imagem, o conteúdo pelo espetáculo.

Vivemos num período em que o líder político é, antes de tudo, uma “personagem”. Não se trata apenas de comunicar bem, trata-se de existir mediaticamente, de ocupar o ecrã televiso (agora com maior incidência nas redes sociais), de dominar o ciclo noticioso com uma presença constante, dramática, emocional. O(s) Governo(s) – qualquer governo – deixou de ser avaliado pela sua capacidade de resolver problemas complexos, de implementar reformas, de preparar (e antecipar) o futuro de um povo/nação… e passou a ser julgado pela sua habilidade em produzir momentos cinematográficos que mantenham o eleitorado convencido de que “as coisas estão a mexer”. A política, infelizmente, transformou-se numa série televisiva de episódios diários, consumidos por multidões de espectadores que, muitas vezes sem o saberem, são manobrados por estratégias de marketing político e por uma imprensa que, voluntária ou involuntariamente, serve de amplificador ao guião.

Este fenómeno não é novo, muito pelo contrário. A história está repleta de momentos em que o espetáculo substituiu a substância, em que a impressão (sentimento, emoção, sonho…) venceu a razão, em que a imagem derrotou o racíciocinio/argumento. Mas o que distingue o presente do passado recente é a velocidade, a escala e a profundidade da transformação. A cultura da “pós-verdade” – onde os factos, as evidências e escrutínio são frequentemente substituídos por perceções, rumores e narrativas – tornou-se dominante. O que tem valor não é que algo seja verdadeiro, mas que pareça verdadeiro; não é que uma qualquer proposta seja exequível, mas que seja viral; não é que o líder seja competente e que fale a verdade, mas que seja carismático.

O povo, neste novo momento despojado de bagagem ideológica e saturado de estímulos, tornou-se consumidor de política como quem consome “entretenimento”. E, como em qualquer mercado saturado, vence quem grita mais alto, quem provoca mais indignação, quem oferece mais drama, quem faz de (quase) tudo para aparecer nos ecrãs. Os moderados – o que resta da esquerda, centro ou de direita – enfrentam, neste instante, um desafio existencial: ou se reinventam ou desaparecerem. A moderação, que exige tempo, reflexão, compromisso e paciência, reagiu de uma forma quase incompatível com o ritmo frenético das ‘democracias em direto’ e do espetáculo. E, no entanto, é precisamente esta moderação que poderia oferecer respostas sólidas a uma sociedade que rejeita (grande) parte dos valores do passado, mas que simultaneamente ainda não encontrou novos valores que lhe deem continuidade e estabilidade.

Portugal não está imune a esta transformação, bem longe disso. A arena da política nacional vive hoje num estado de permanente desassossego, onde os casos se sucedem sem que o anterior tenha sido compreendido, devidamente investigado ou digerido. A opinião pública, pouco e muitas vezes mal informada/esclarecida, é convocada diariamente para novas indignações, novas revelações, novas polémicas. Para alguns, esta agitação é sinal da nossa vitalidade democrática (que já leva mais de 50 anos); para outros, é a prova de que o escrutínio sério e demorado dos poderes públicos está a ser substituído por uma sucessão de episódios que obscurecem mais do que esclarecem. O que à partida parecia ser apenas um movimento de protesto contra o regime está, na verdade, a transformá-lo a partir de dentro. A ascensão de forças populistas e estremistas – sobretudo de direita radical – não é apenas um sintoma de descontentamento, é um agente ativo de mudança, de negatividade. O sistema partidário, outrora dominado por dois grandes partidos que se alternavam no poder, está a ser permanentemente desestabilizado. O que era impensável há poucos anos tornou-se realidade: o mapa político fragmentou-se, as elites tradicionais estão paralisadas/desconcertadas e sem saber como responder aos problemas/desafios do presente… e o (nosso) futuro parece-nos hoje (ainda mais) imprevisível. Ora, esta transição terá elevados e profundos custos. A política exige respostas complexas, bem estudadas, avaliadas e demoradas. Obriga capacidade de análise, planeamento, compromissos. Mas o atual ambiente mediático e digital recompensa o imediatismo, o “ouvi dizer que”, o “conheço um caso”, o comentário instantâneo que gera likes, mesmo que seja um disparate, uma incerteza ou mentira (fake news). A proposta política deixou de ser avaliada pela sua viabilidade e passou a ser medida pela sua capacidade de gerar impacto emocional e mediático. O que foi um êxito poderá tonar-se brevemente num fracasso.

Ora, é neste cenário que as atuais democracias veem o seu ‘pré-colapso’. Não apenas pelos ataques da extrema-direita (que são reais, bem arquitetados e persistentes), mas também pela impotência de quem deveria defender a força das instituições democráticas. A complacência, a hesitação e a falta de estratégia das vigentes elites políticas e económicas tornam-se cúmplices involuntários de uma erosão que já está em marcha e a uma velocidade acelerada.

A história, dizem alguns, repete-se. Talvez. Mas, neste caso, a repetição não é inevitável; é (apenas) muito provável se nada for, entretanto, feito. O futuro será sombrio se continuarmos a confundir política com espetáculo, governação com narrativa, democracia com entretenimento. A resposta de que necessitamos exige coragem, lucidez, reclama por (bons e novos) líderes, dirigentes que não tenham medo de perder likes para ganhar credibilidade, que não tenham receio de perder tempo para ganhar a verdade, que não tenham temor de perder eleições para encontrarmos o rumo apropriado.

Uma grande mudança está já em curso. Agora a questão é de saber se teremos a capacidade – e vontade – de a orientar na direção certa ou se continuaremos a ser apenas espectadores passivos de uma transição que nos ultrapassa e que, se não for contida, poderá comprometer a própria essência da democracia.

 

Miguel Alexandre Palma Costa
Professor de Filosofia do Ensino Secundário


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