Sic vos non vobis – «assim vós, mas não para vós». Esta expressão latina, breve e aparentemente enigmática, encerra uma ideia que permanece tão atual quanto incómoda: a possibilidade de alguém criar, trabalhar e contribuir, para que outro venha, no fim, a reclamar para si o mérito daquilo que não fez.
Não sou latinista, nem tenho pretensões a sê-lo, mas nutro pela Cultura Clássica uma profunda admiração e um particular gosto pelas expressões latinas que, em poucas palavras, conseguem condensar ideias, valores e ensinamentos que atravessam os séculos. E poucas – como a que dá título a este artigo – traduzem com tanta precisão a realidade de quem vê o seu trabalho apropriado por outrem, ficando o verdadeiro autor ou responsável sem o reconhecimento que lhe é devido.
Esta expressão acha-se associada a um episódio engraçado, mas inverosímil, da vida de Vergílio (70–19 a.C.), difundido pela Donatus auctus, uma versão ampliada da Vita Vergilii, elaborada, no século XV, por eruditos humanistas a partir da biografia original escrita por Élio Donato (século IV d.C.) com base em Suetónio (69 d. C. – após 122).
Por ocasião de uns jogos, depois de um dia festivo sucedeu uma noite de tempestade. Vergílio compôs então um dístico louvando César e afixou-o sem menção do nome do autor. Os versos diziam o seguinte: «Chove a noite toda; os espectáculos retornarão com a manhã / César compartilha o poder de Júpiter.»
César apreciou o dístico e tentou descobrir quem o havia escrito, mas não conseguiu identificar o autor. Batilo, um poeta medíocre, afirmou que era o autor daqueles versos e, não sendo contestado, recebeu honrarias e presentes de César.
Vergílio não aceitou a fraude e ao dístico acrescentou quatro vezes o hemistíquio (= metade de um verso): «Sic vos, non vobis». Perante aquele enigma, César pediu que os versos fossem completados. Alguns tentaram, em vão, cumprir a tarefa. Vergílio, porém, conseguiu, juntando ao dístico o seu protesto e terminando os hemistíquios:
«Fiz estes versos, outro colheu a glória: / Assim vós, ó aves, fazeis os ninhos, mas não para vós. / Assim vós, ó ovelhas, produzis a lã, mas não para vós. / Assim vós, ó abelhas, fabricais o mel, mas não para vós. / Assim vós, ó bois, suportais o arado, mas não para vós.»
Desde a Idade Média, o hemistíquio «Sic vos, non vobis» passou a ter valor proverbial para condenar a usurpação do trabalho alheio.
A apropriação indevida do trabalho e da criação de outrem é uma realidade que não pode ser relativizada ou silenciada. Não se trata apenas de utilizar aquilo que alguém produziu sem lhe reconhecer a autoria. É igualmente grave atribuir a si próprio um trabalho que não se realizou, um contributo que não se prestou ou um resultado para o qual não se concorreu.
Por detrás de cada realização existem conhecimento, dedicação, tempo, responsabilidade e esforço, valores que não podem ser apagados pela pretensão de alguém reclamar para si aquilo que não fez. Quando isso acontece, não é apenas o reconhecimento devido ao verdadeiro autor ou responsável que fica comprometido. São também postos em causa os princípios de mérito, integridade e justiça que devem orientar qualquer comunidade.
O trabalho de outrem não pode transformar-se, por conveniência, em mérito próprio. Respeitar a autoria, reconhecer o contributo efetivo de cada pessoa e atribuir o mérito a quem verdadeiramente o conquistou não são meras questões de cortesia. São exigências elementares de honestidade e respeito pelo trabalho alheio.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




