Netanyahu nega genocídio em Gaza, enquanto ONU alerta para milhares de mortos soterrados

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, rejeitou, num discurso perante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, as acusações de genocídio na Faixa de Gaza, classificando-as como “a maior mentira do século”.

“Israel não cometeu genocídio”, afirmou o líder israelita, que defendeu as operações militares conduzidas pelo país e acusou os seus críticos de ignorarem os ataques do Hamas e o direito de Israel à autodefesa. Durante a intervenção, dezenas de delegações abandonaram a sala em protesto.

As declarações de Netanyahu surgem num momento em que organismos das Nações Unidas continuam a denunciar a dimensão da destruição em Gaza e a exigir acesso ao território para investigadores internacionais. Uma comissão independente criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU concluiu que Israel cometeu genocídio, conclusão rejeitada pelo Governo israelita.

A ONU alerta ainda que milhares de pessoas poderão continuar soterradas sob os escombros. Autoridades palestinianas estimam que mais de 8.000 desaparecidos possam estar presos sob edifícios destruídos, enquanto equipas de defesa civil continuam a recuperar restos mortais em bairros arrasados pelos bombardeamentos.

A recuperação das vítimas poderá prolongar-se durante pelo menos uma década. A estimativa está relacionada com a dimensão dos escombros, a falta de maquinaria pesada, combustível e pessoal especializado, bem como com a presença de munições por explodir e materiais perigosos, como amianto. A ONU estima que a remoção dos escombros possa envolver cerca de 61 milhões de toneladas de detritos.

A organização advertiu também que a remoção dos escombros deve ser realizada de forma controlada, para evitar a destruição de provas que possam ser relevantes em investigações sobre eventuais crimes de guerra e para permitir a identificação das vítimas.

A referência ao prazo de dez anos não significa, contudo, que todos os cadáveres só possam ser retirados nesse período. Trata-se de uma estimativa baseada no ritmo atual das operações e nas condições no terreno. Muitas vítimas permanecem soterradas no interior de edifícios colapsados, o que torna a recuperação uma operação simultaneamente humanitária, forense e de segurança.

A comparação com os campos de concentração nazis exige cautela. Após a libertação desses campos, os exércitos aliados tinham acesso a maquinaria, estruturas militares organizadas e redes logísticas capazes de realizar operações de grande escala. Em Gaza, pelo contrário, foram destruídas infraestruturas essenciais, incluindo hospitais, estradas, instalações da defesa civil e sistemas de registo.

O tempo necessário para localizar os mortos não determina, por si só, se houve ou não genocídio. Essa classificação depende da demonstração de uma intenção específica de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. A discussão jurídica permanece em curso, mas a dimensão dos mortos ainda soterrados constitui uma das consequências mais graves da devastação provocada pela guerra em Gaza.


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