Rui Marote
A azulejaria publicitária e o património do século XX são infelizmente dos elementos mais vulneráveis nas cidades moderna. Por serem associados ao comércio e à publicidade antiga, muitas vezes não receberam a mesma protecção legal ou o valor cultural atribuído a igrejas ou palácios, resultando em perdas visíveis.
Aconteceu isso mesmo com os emblemáticos e infelizmente já desaparecidos azulejos da Avenida do Mar. E muitos painéis comerciais foram destruídos ou cobertos durante remodelações de lojas ao longo das últimas décadas.
A exposição à humidade, obras descuidadas nas redondezas e falta de restauro especializado fazem com que muitos letreiros cerâmicos sobreviventes se vão desfazendo e perdendo pedaço a pedaço.
Na Rua do Bispo nº 27, o painel da Companhia das Fábricas de Cerâmica Lusitânia é um desses raros sobreviventes. Situado onde hoje funciona a loja ABC, hoje exige atenção redobrada, pela sua importância. É restaurar enquanto é tempo e enquanto os rigores do Inverno” não o prejudicarem.
Na antiga Casa Tavares, localizada na histórica esquina da Rua da Sé com a Rua dos Capelistas, a transformação desse espaço emblemático do comércio tradicional madeirense numa loja de recordações genéricas ilustra, por outro lado, precisamente a descaracterização urbana provocada pela massificação turística.
A perda da Casa Tavares é uma caso paradigmático recente do Funchal. O encerramento definitivo deu lugar à abertura de bazares de souvenirs. O FN já reportou como as lojas de grande tradição madeirense estão a ser “engolidas” pelos tempos modernos. Faz lembrar um comércio do Bangladesh, com os azulejos da Art Déco a servir de fundo para expor peças de vestuário… É precisamente este contraste entre a beleza histórica e a descaracterização comercial que choca quem valoriza a identidade do Funchal.
A azulejaria de influência Art Déco ( e sua transição com o modernismo e o estilo nacionalista) apareceu de forma marcante nas fachadas e edifícios do Funchal principalmente entre o final da década de 1930 e o início da década de 1940.
O plano de modernização da cidade levado a cabo na década de 1930 e 1940 (durante o mandato do presidente ca Câmara Fernão de Ornelas que ganhou o cognome “Marquês de Pombal” trouxe a estética monumental do Estado Novo, que fundia o Art Déco com o modernismo.
Não esqueçamos os icónicos painéis cerâmicos (azulejos) do edifício do The Ritz na Avenida Arriaga, no Funchal, datam de 1932 (produzidos pela Fábrica Constança de Lisboa) e retratam cenas tradicionais da ilha, como agricultores, navegadores e vivências locais. A fachada deste emblemático espaço é um marco histórico da cidade ,considerados elementos fundamentais do património e do charme da Avenida Arriaga. O seu estado conservação infelizmente é preocupante. Este “retrato de figuras e épocas clássicas da história e do quotidiano da Madeira” diariamente são fotografados pelos visitantes.
Embora o cenário seja preocupante existem iniciativas que tentam remar contra a maré. A nível nacional .a aprovação da lei nº 79 /2017 passou a proibir expressamente a demolição de fachadas azulejadas e a remoção de azulejos em Portugal sem autorização expressa.
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