A única forma de professores e famílias não terem as férias destruídas é parar este processo, não é melhorar ou adiar. Não foi só a plataforma de exames AD-Chega que caiu, é confrangedor ver a reposta do PS, e, em grande medida, dos outros partidos de esquerda. Não há como não vermos neste caos a nossa própria crise política.
Perante o colapso da digitalização podia aproveitar-se para dizer o óbvio – a avaliação é um processo sério, continuo, formativo, que implica o desenvolvimento de funções psíquicas como a abstração, memória desenvolvida, atenção dirigida, juízo estético, ou seja, conhecimento. E é um processo – a base desse processo, longo, é a confiança. Não na plataforma a ou b, mas entre professor-aluno. Avaliar não é medir competências. É compreender o que falta aquele aluno saber, por isso avaliar um aluno é sempre avaliar um professor, avaliação não é selecionar ou penalizar, é saber o que falta aprender-ensinar.
Digo-o, sem ironia, uma operária conserveira no século XIX tinha direito a usar mais o cérebro do que os alunos que fazem estes “exames” ou os professores que os “corrigem” horas a fio a olhar num computador, com grave degradação, pelas luzes LED, pela postura, da sua subjectividade (dita hoje saúde mental), visão, cervical, felicidade, tudo é degradado. É aliás para isso que estão os alunos a ser treinados com estes exames, para ser e aceitar ser autómatos, sem cérebro desenvolvido.
Ainda bem que nada funcionou, porque se tivesse funcionado o problema seria ainda pior. Colocar um professor numa plataforma por melhor que seja a plataforma não é educar nem examinar, é destruir a educação.
Os exames medem um momento, curto, e medem apenas competências (conceito importado das fábricas de Taylor nos anos 1930) – trata-se de uma resposta rápida a um comando simples. Os exames medem se um operário de sapatos consegue colocar solas rápidas em segundos, não medem se um sapateiro sabe conceber, desenhar, cortar, medir um sapato, que nem vê, apenas imagina. É a prévia ideação, possibilitada pelo desenvolvimento do conhecimento adquirido em anos nesse aparato tecnológico mais desenvolvido do mundo, palavra, voz, relação coletiva, enfim, escola. Os exames medem a capacidade de no mercado de trabalho executar tarefas simples na divisão do trabalho, e agora medem também a quantidade de dados entregues na forma de respostas a empresas privadas.
E como o mercado de trabalho procura a automação, para despedir trabalhadores, os exames, que agora colapsaram, medem a capacidade de carregar em botões, num foco unidirecional, repetitivo. Nada distingue estes “exames” de bolas e cruzes, de carregar nos botões certos da linha de montagem de uma fábrica automóvel ou um telefonema para a Saúde 24, uma sentença feita em poucas horas na IA.
Que isto tenha colapsado é a única boa notícia. Era isso que os sindicatos e esquerda tinham de ter dito em primeiro e segundo lugar. Sim, o Ministro deu cabo dos serviços, precisamos que o Governo todo se demita e se reverta o processo de privatização do ME numa Agência. Mas que a digitalização seja um flop, é a única boa notícia disto tudo. Já que não temos luta de classes, temos o colapso da plataforma. Graças a Deus!
Todas as escolas em Portugal – públicas e privadas (só escapam as do currículo internacional, que nem respondem ao Ministro) – estão ao serviço de um processo de privatização de uma conquista histórica, a escola, agora transformada em fábrica de dados e treino para trabalho automatizado. Por isso se chama competências e aprendizagens essenciais e não conhecimento e currículo.
As declarações da maioria dos sindicatos e dos partidos de esquerda não são sobre educação, pedagogia, e sentido da escola, são sobre o Ministro que deu cabo do Ministério, não preparou os exames, não testou, não acautelou. É tudo verdade. Mas é como perante uma tempestade no mar dizer que ficámos em terra. Ora, é o contrário, ainda bem, ainda bem que tudo correu mal, ainda bem que a digitalização foi o caos.
Há duas perguntas na mixórdia, na bagunça dos exames. A primeira é óbvia: quem ganha? Quem lucra com isto? Não só a empresa de digitalização, mas a quem são entregues estes milhões de dados/respostas padrão que são a matéria prima gratuita dos prompts da IA generativa. Se eu bem percebo a estrutura de acumulação/lucro diria que a pista é uma grande bigtec, paga com os nossos impostos e PRR (que são impostos na forma de dívida pagos por todos nós), seguida de algumas micro empresas locais – quem são, de que partido, que amigos têm? – , tudo isto com a mão de obra gratuita de docentes e alunos que ao preencher bolas e “respostas” a que se chama “avaliação” cedem assim a sua autonomia pedagógica. Doam trabalho, desprovido de qualquer sentido, rigor, utilidade. Quanto dinheiro circulou nesta pirâmide? Insisto – estes dados, milhões de respostas, vão ficar na mão de quem? De que nuvem? Quem são os proprietários destes dados?
A segunda pergunta é a mais importante. Como chegámos a ter uma esquerda paralisada na sua acção ao ponto de ver a direita de rastos e ser incapaz de propor sair da tempestade, refazer a vida, voltar a fazer da sala de aula um espaço feliz de diálogo, de estudo, de conhecimento e crítica? Como passamos de um diálogo vivo, com professores que dominam os curricula, que nos abrem os braços em sala de aula a explicar o mundo, para passar power Points aborrecidos e finalmente um prompt? Como fomos do paraíso ao precipício?
Estamos a construir há alguns anos – um grupo de docentes de todas os graus de ensino, da educação de infância à Universidade – um grupo de reflexão pedagógica, e de acção contra a IA generativa, a digitalização, queremos reconstruir a escola pública como um espaço humanizado, de conhecimento, de debate científico crítico e livre, de rigor, de centralidade do currículo, e por isso também de afecto e democracia.
Todos os professores e educadores que se queiram empenhar na defesa da escola pública como lugar de educação estão convidados.
Todas as informações podem ser dadas em observatoriocondicoesdevida@gmail.com
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