Sé: túmulos, marcos de descanso, locais de fé e arqueologia

Rui Marote
Não existe registo único e absoluto  sobre quem foi a primeira pessoa a ser sepultada no interior da Sé do Funchal após o início da sua construção, por volta de 1493. Nos séculos XV/XVI a “Igreja Grande” começou a ser erguida sob as ordens de D. Manuel I, e o espaço passou a servir de necrópole para membros do clero
e  nobreza local. Escavações realizadas em 2004 confirmaram a  a existência de inúmeros enterramentos antigos sob o pavimento da catedral.
1517 foi o ano da dedicação oficial da Sé. Nesta época, os sepultamentos dentro de templos eram a norma para figuras de prestígio.
Bispos Sepultados: Ao longo dos seus 500 anos de história, a Sé tornou-se o local de descanso final para vários bispos da diocese. Até recentemente, sete bispos estavam oficialmente sepultados na catedral.
O costume de enterrar pessoas dentro ou ao redor das igrejas tem raízes históricas e espirituais profundas, embora tenha sido proibido na maioria dos países por questões de saúde pública no século XIX.
Os principais motivos  para esses sepultamentos são os seguintes:
– Veneração aos Mártires: Nos primeiros séculos, os cristãos construíam igrejas sobre os túmulos de mártires e santos (como a Basílica de São Pedro, no Vaticano) para honrar o seu sacrifício e estarem perto das suas relíquias.
Solo Sagrado e Protecção: Acreditava-se que ser enterrado em solo sagrado (conhecido como ad sanctos, ou “junto aos santos”) garantia uma “vantagem” espiritual para o dia da ressurreição e protecção contra o mal.
Proximidade com o Altar: Quanto mais rica ou importante fosse a pessoa, mais perto do altar era enterrada. Era visto como um privilégio espiritual e uma forma de status social.
Cuidado Comunitário: Antes dos cemitérios públicos modernos, a Igreja era o centro da vida comunitária. Enterrar os fiéis naqueles locais facilitava que a família e a comunidade recordassem e rezassem pelos mortos durante as missas.

Nos dias de hoje, os que frequentam este monumento nacional, na afluência diária  de turistas não se apercebem da existência desses túmulos que são calcados, literalmente “espezinhados” ao passarem nessas tampas tumulares, contribuindo para a sua degradação, por desconhecimento, uma vez que não existe qualquer protecção ou placa chamando a atenção.

Para escrevermos sobre este património recorremos ao único e precioso exemplar do Padre Manuel Juvenal Pita Ferreira ” A Sé do Funchal” datado de 1963.

 

Sobre as sepulturas, na página 335 escreve o autor: “A Sé do Funchal não é somente Casa de Deus. Foi também Campo Santo até 1893 estando sepultados muitos madeirenses ilustres que nos precederam. Infelizmente com o assoalhamento  do pavimento muitas pedras que cobriam as sepulturas foram removidas para o adro e até para a torre e muitas foram cobertas pelo soalho. Na capela – mor dormem o ultimo sono alguns bispos da diocese e muitos cónegos. Na capela de  Santo António em sepultura jaz D. Aires de Ornelas de Vasconcelos. Na Capela do Santíssimo está sepultado o Governador e Capitão General Luís Beltrão Gouveia. Na nave lateral sul encontra-se a sepultura de Marcos Lopes Escudeiro da Casa Real de El-Rei Nosso Senhor e Mamposteiro-mor dos Cativos desta ilha. À entrada da porta lateral-norte  está a sepultura de Manuel Tavares e sua mulher mas possuidora de duas figuras gravadas em bronze que assentam sobre lousa,  possivelmente pedra azul da Bélgica, de que há vários exemplares com incrustações de metal lá fora, visto um dos centros produtores de tais obras ser a Flandres”.

À entrada da Sé está a maior pedra sepulcral importada da Flandres (2.73×1.55) que infelizmente já perdeu as lâminas e inscrição. Esta lápide sepulcral levou escritores a atribuirem-na a João Esmeraldo e sua mulher Águeda de de Abreu e ao fidalgo Pedro de Brito Oliveira Pestana. A pedra que cobria a sepultura deste Fidalgo  encontra-se à entrada da Sé .

Muitas outras sepulturas de relevo poderiam aqui ser descritas o que a lista de nomes seria extensiva.

O Funchal Noticias lamenta não existir  um folheto ou uma pequena brochura  em diversas línguas para elucidação dos visitantes sobre este património valiosíssímo. Não há volta a dar à degradação de muitas pedras tumulares que as nossas fotos ilustram. Não queremos encerrar este texto sem deixar o nosso testemunho ao visitar Cochim, na Índia: A igreja de São Francisco, fundada pelos portugueses com o nome de Santo António, contém várias pedras tumulares com inscrições, O epitáfio mais antigo está datado de 1562. Vasco da Gama foi aqui sepultado em 1524, antes de ser trasladado para Portugal. Aqui ficam duas fotos do túmulo do Vasco da Gama em Cochim, “vedado” com a pedra tumular devidamente conservada com uma placa elucidando os visitantes. Os seus restos mortais foram depois trasladados para Lisboa, mas a sepultura permanece a lembrar o navegador.

Recorde-se que a Índia, um país de religião maioritariamente Hindu, conserva a sua história, ao contrário deste povo estóico e valente que tende a esconder, destruir e deixar pouco para ver…


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