Obra de Rigo no ilhéu de Câmara de Lobos em deterioração

Rui Marote

A 6 de Julho de de 2021 foi inaugurada, no Ilhéu de Câmara de Lobos, a obra “Coroa do Ilhéu uma réplica ampliada (150%) de um barco “xavelha” que ali visa homenagear os pescadores da localidade.

Esta obra “Coroa do Ilhéu”, elaborada pelo artista plástico Rigo 23 foi inaugurada oficialmente pelo presidente Miguel Albuquerque e pelo secretário regional do Turismo e Cultura, e contou ainda depois com a presença do padre Martins Júnior entre outras personalidades.

Houve muitos agradecimentos e elogios. O então edil Pedro Coelho disse que a pessoa que teve a ideia desta obra ” foi Miguel Albuquerque, no âmbito das comemorações dos 600 anos”.

Visitámos o Ilhéu, um dos locais onde obtivemos alguns dos nossos primeiros “bonecos” como repórter fotográfico ao serviço do Jornal da Madeira em 1975.

Hoje o Ilhéu tem a “cara lavada”. Fica para a história o aglomerado de famílias que viviam no cimo desta rocha. Se nessa época as imagens eram chocantes, hoje, embora o ilhéu esteja todo arranjado, “chocam” por outra razão: depois de apenas 4 anos e seis meses a obra de Rigo encaminha-se para ficarmos a saber com “quantos paus se faz uma canoa”.

O “Coroa do Ilhéu” foi construído em mogno, mas apresenta já um estado de deterioração acentuada.

Antigamente os barcos eram construídos em pinho da terra. Este foi em mogno. Mas recordamos que ainda hoje há embarcações com cerca de cem anos a navegar substituindo apenas aqui e ali uma tábua (ver barco “O Dragão”, que esteve abandonado vários anos, foi recuperado e está ao serviço do turismo).

Recordamos quando tínhamos apenas cinco anos idade, e lembramo-nos bem do nosso avô Luís de Abreu, o primeiro arrais da lancha Mosquito, hoje “encarcerada” numa vitrina  junto ao teleférico e a seguir o mesmo destino. O velho lobo do mar levava-nos ao calhau do Almirante Reis  junto ao velho arsenal, para ver as canoas.

Era Inverno e as embarcações ficavam varadas no calhau de “barriga para baixo”. O motivo era não reterem as águas das chuvas e não apodrecer o cavername. No final da Primavera as canoas eram lançadas ao mar e ficavam submersas com água do mar, uns dias a “conservar” para inchar a madeira. De regresso a terra, não havia dinheiro para calafetar devidamente, e os proprietários  utilizavam cal e sebo para fechar alguns rasgos.

Acontece que o “Coroa do Ilhéu” durante estes quatro anos foi um reservatório das águas da chuva. A obra escultórica deveria estar aberta na base para as águas não ficaren retidas.

Nas canoas  existe um buraco conhecido por “jája”, em linguagem  madeirense, que tem um batoque de cortiça, vedando quando o barco está na água. Em terra é retirado para escoar as águas. Tecnicamente é chamado “boeira” e o tampão “buchão”.

Se queremos ter obras de arte  ou outro património não basta inaugurar: é preciso conservar. Arriscamo-nos a dizer que o património bateu no fundo do poço, com tantos exemplos tristes. Perguntámos há dias o porquê da Capela de São Paulo continuar encerrada: alguém ligado ao património da Diocese respondeu:  “Quem quer património que o pague”. Enfim, conservar deverá ser a palavra de ordem.

Imagem captada por altura da inauguração da obra.

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