Está na ordem do dia um polémico cartaz do partido “Chega” onde se diz que “Isto não é o Bangladesh”, não se percebe bem a propósito de quê. Como se fala mas não se sabe do que está a falar, resolvemos voltar a publicar um resumo das nossas crónicas de viagem de Março de 2015 e mostrar o verdadeiro Bangladesh e a sua capital, Dhaka, como a vimos há dez anos atrás.
Fazemos um ligeiro preâmbulo só para recordar que estas tricas por causa de imigração não são nada de novo. Há uns anos, a Rua da Carreira era mais parecida
com uma qualquer artéria do Bangladesh, tantos eram os espaços que, porta sim, porta não, nos encaminhavam para um universo que nada tinha a ver com a Madeira, mas que na altura proliferava como cogumelos, e com procura que durante algum tempo manteve negócios. Aliás, ali na Rua da Carreira, entre a Rua do Surdo e a rua da Mouraria, o povo baptizou aquele local como “Bangladesh”.
Alguns desses comerciantes estavam estabelecidos no Reino Unido e estenderam este ramo de comércio ao Funchal, comprando espaços onde outrora eram lojas comerciais de electricidade, de cabedais, de acessórios para automóveis e até de bar.
Recordamos ainda que em 2005 Alberto João Jardim, então presidente do governo regional, alertava que estavam aí os imigrantes chineses, indianos e de países de leste e o Bloco de Esquerda acusava Jardim de cometer um “ilícito criminal” de
apelo à violência racial. Na altura o presidente Jorge Sampaio recusou-se a comentar. Foi na festa do Chão da Lagoa em 2005, Marques Mendes era então presidente do PSD e considerou então infelizes as palavras de Jardim. O Conselho Regional da Madeira do PSD respondeu com uma moção de censura ao “comportamento de falta de respeito” do líder nacional, considerando inconveniente a sua presença no Chão da Lagoa. Alguns conselheiros regionais consideraram que Marques Mendes estava transformado num “adorno” do regime” e era um factor constante de sucessivas divisões, no seio do PSD o que era “impróprio de um líder”.
Anos mais tarde Alberto João Jardim convidou comerciantes orientais a montar barracas na Festa do Chão da Lagoa…
Enfim. Conheci a India de lés a lés em sucessivas viagens e como todos os dias circulava na Rua da Carreira várias vezes ao dia, falava frequentemente com um comerciante da loja que hoje é uma padaria-pastelaria, que arrastava algumas palavras em Português.
Sendo entusiasta dos países asiáticos, resolvi visitar Dhaka, capital do Bangladesh, e aprendi algumas palavras em “bengali”. Ali dinheiro diz-se”taka” sendo duas palavras de pronúncia semelhante: “Dhaka e Taka”.
Vou resumir as minhas impressões desta cidade e um pouco da história deste país, mas sobretudo relembrar as minhas impressões através das fotografias.
Na sequência da partilha política que deu origem a Bangladesh, os grandes monumentos ficaram todos do lado da India, à excepção de um punhado espalhado pelo Paquistão. Também o grande porto de Calcutá que facilitaria a exportação, ficou do outro lado indiano, juntamente com outro símbolo cultural: o Prémio Nobel da Literatura, Rabindranath Tagore, grande poeta e contador da vida em Bengala.
A língua e sobretudo a politica, além da muralha religião, foram os factores principais da divisão, com hindus de um lado e muçulmanos do outro. Estas coisas acabaram por dividir muito mais do que os factores geográficos. A constituição do Bangladesh proclama que o país é laico, embora reconheça a religião muçulmana como sendo a maioritária.
O analfabetismo atinge cerca de 70% da população e 80% dos bengalis vivem abaixo dos níveis da pobreza. No Bangladesh fala-se “Bengali”, come-se arroz e peixe e vive-se “com os pés na água”. Têm uma coisa: são dos melhores do mundo em cricket, desporto praticado com uma espécie de pau, ou melhor um “canelo” como se chama na minha terra, mas que congrega verdadeiras paixões em certas partes do mundo. Esta parte da herança britânica ficou-lhes.
Lamentavelmente, a poluição atinge níveis tais que não há aparelhos que possam medir e se houvesse gripavam todos… O rios estão poluídos, há esgotos a céu aberto, e há lixo…lixo… enfim, não há central no mundo suficiente para tratar tanto lixo.
Este é o país do mundo com mais riquexós. Não há carro nem autocarro sem uma amolgadela. Mas a simpatia das gentes é uma realidade. Fui bombardeado com perguntas por um jovem que queria saber mais da língua de Camões. A aula só era interrompida enquanto captava imagens.
O jovem aprendeu a contar até dez e até queria saber os nomes dos frutos todos que estavam nas bancas do mercado. Eu pronunciava e ele repetia bem alto para espanto dos restantes populares. Aqui ficam algumas ligeiras impressões, e sobretudo imagens, de um povo sofrido…
Hoje na Rua da Carreira hoje sobrevive uma loja do Bangladesh. Todos os outros estabelecimentos foram reconvertidos em restaurantes e pastelaria/padaria. Enfim, “Isto é o Bangladesh”…
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