O Verso e o Reverso

No turbilhão das imagens que povoam o mundo da IA, (uso. de propósito, a sigla pois não me eximo à tendência rotineira de citar a contração a que se sujeitam certas nomenclaturas, ainda que as prefira por extenso), a IA, como digo, de tanto repetida, gela-me o sangue, atrofia-me a liberdade de criar com a minha própria inteligência os universos possíveis, de acordo com a minha própria dimensão. Não me considero nem conservadora nem mentecapta, nem céptica em relação a qualquer que seja o âmbito dos assuntos em causa. Apenas a minha necessidade de clarificar e compreender conduz-me sempre à observação do verso e do reverso, um conceito que a própria Natureza nos apresenta como prova duma dualidade reconhecida. Nem tudo é bom; nem tudo é mau; há a tempestade, mas também há a bonança; há um Verão oposto ao inverno; um Outono oposto à Primavera; a folha da árvore e o seu reverso; a preia-mar e a mare baixa. E outras constantes binárias.

A evolução das técnicas de acção através dos tempos que levaram à generalização das tecnologias, isto é, das técnicas aplicadas, é uma prova de que a História é um processo dinâmico, natural, e está de acordo com as extraordinárias capacidades humanas da invenção, da superação de obstáculos, através de descobertas espantosas em todas as áreas do conhecimento. Nem será preciso falar das travessias dos mares em verdadeiras «cidades volantes» que são os grandes transatlânticos, no cruzamento dos espaços aéreos pelos grandes «pássaros mecânicos» que são as aeronaves e os veículos interplanetárias que pousaram na lua e em Marte. Também a conquista de grande velocidade em terra, através do ICE, do AVE, do EUROSTAR e do TGV. O avanço da Medicina e da Química, da Física e da Matemática, trouxeram impensáveis revelações que tornam o mundo um lugar privilegiado para a espécie humana. E não ignoramos que os restantes animais tiveram a sua parte de benefícios com esta evolução.

Detenho-me por agora no reverso da questão em relação à IA. O planeta e todo o seu magnetismo, o processo das reversões magnéticas que alteram as condições climáticas, e os ritmos da vida, interferem na saúde e na actividade humanas, sofrem danos irreversíveis que, pelo que até ao momento se sabe, nenhuma Inteligência artificial poderá debelar. Porque ela própria, a endeusada IA, atingida por esses poderes ainda inexpugnados, poderá desestabilizar-se e comprometer a segurança, a eficiência e a confiabilidade das tecnologias com reflexos na sociedade, na economia e na defesa pessoal e dos países.

É vulgar assistir hoje a imagens divulgadas em vários suportes incluindo as «redes», manipuladas por férteis imaginações dadas ao lazer e ao chamado +passatempo», onde é possível adulterar qualquer imagem real tornando-a numa falsa realidade,. São caricaturas divertidas que fazem o gáudio de muita gente. Até aqui nenhum perigo se teme. No entanto, qualquer de nós poderá algum dia ver-se num corpo diferente e escutar da sua própria boca qualquer propósito indesejado, se alguém, mal intencionado se propuser criar digitalmente, uma brincadeira de mau gosto.

Mas o verdadeiro perigo reside no aproveitamento dessas facilidades no desempenho de falsificações e inventivas que prejudiquem a vida das sociedades e dos países. Este é o reverso da IA que pretendo assinalar, ainda que não constitua novidade.

Perturba-me a frase desafiante, maldosa, sinistra, de cariz mortífero que ouvi há dias de um senhor da guerra, que a pratica violentamente contra a desaprovação e a repulsa de todo o mundo. É com essa frase que termino esta crónica melancólica: «Agora até temos a inteligência artificial, o que é bom para as batalhas».

Isto foi dito assim, textualmente, e com visível desenvoltura e entusiasmo.

Perturba-me, mas não me tira a convicção de que é no «verso» (Uni-verso) que se reflecte a verdadeira face da beleza e da harmonia. Espero que a IA, contra os sequazes do «reverso», nos possa confirmar um dia essa descoberta.


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