A expressão “sempre ao leme num barco desgovernado” capta perfeitamente a situação paradoxal da gestão dos incêndios florestais em Portugal durante o mandato de Luís Montenegro. Apesar das repetidas afirmações do primeiro-ministro de que o Governo esteve “sempre ao leme” durante os devastadores incêndios de agosto de 2025, a realidade no terreno e as críticas da oposição revelam um sistema estruturalmente disfuncional.
A Defesa do “Leme” Perante o Caos
No debate parlamentar de 27 de agosto de 2025, Montenegro insistiu que “o Governo, eu próprio e a ministra da Administração Interna estivemos sempre ao leme e a acompanhar a situação no terreno”. Esta declaração veio na sequência de semanas dramáticas que resultaram em quatro mortos e uma área ardida superior a 250 mil hectares – equivalente a todo o Luxemburgo.
O primeiro-ministro tentou demonstrar presença através de números: um dispositivo de combate descrito como o “maior de sempre”, com mais 238 veículos de combate e 76 meios aéreos. Contudo, estas estatísticas contrastam brutalmente com os resultados obtidos: “mais de 25 dias ininterruptos de severidade extrema” que o próprio Montenegro admitiu como uma situação em que “a força do inimigo foi enorme”.
O Momento Simbólico: A Festa do Pontal
O episódio que melhor simboliza esta gestão “ao leme” de um “barco desgovernado” foi a participação de Montenegro na Festa do Pontal a 14 de agosto, no auge dos incêndios. Esta decisão provocou críticas unânimes da oposição por “alheamento e falta de empatia” quando “boa parte do território ardia”.
Posteriormente, Montenegro admitiu que “devia ter adiado a festa do PSD”, reconhecendo que “pode ter contribuído para que essa perceção possa ter sido criada” de ausência governamental. No entanto, insistiu que esta perceção era “mesmo injusta”, revelando uma desconexão entre a realidade vivida pelas populações e a autoperceção governamental.
As Críticas Estruturais ao Sistema
Problemas de Coordenação e Resposta
O presidente da Liga dos Bombeiros, António Nunes, foi particularmente crítico, afirmando que “o sistema falhou” e criticando o atraso na mobilização de meios. Segundo Nunes, os meios aéreos de ajuda deviam ter sido pedidos “na primeira semana”, e denunciou que se estava a usar “pensamentos de há 20 anos atrás” quando era necessário modernizar as estratégias.
Falhas na Prevenção
Joaquim Leitão, ex-presidente da Proteção Civil, foi categórico: “A nossa prevenção não existe”. Esta crítica estrutural é corroborada por dados preocupantes – a taxa de reacendimentos subiu de 4% nos anos de 2022-2023 para 9% em 2025, indicando falhas na consolidação da extinção.
Questões de Financiamento
A polémica sobre o corte de verbas florestais dominou o debate parlamentar. Montenegro negou que tivessem sido “retiradas verbas a esta área”, argumentando que houve apenas “reprogramação de fundos comunitários”. Contudo, o PS apontou uma redução de 120 milhões de euros nas políticas florestais, questionando o impacto desta decisão na capacidade preventiva.
O Padrão Histórico de Disfunção
Um Problema Secular
Os incêndios florestais não são novos em Portugal. Registos históricos mostram ocorrências já no século XIV, com proibições de fogo em matos desde 1375. O problema agravou-se significativamente desde a década de 1960, com grandes incêndios recorrentes tornando-se uma constante nacional.
Falhas Sistémicas Identificadas
Um relatório de 2018 sobre gestão de incêndios florestais identificou problemas estruturais que persistem: a “elevada percentagem de área florestal não gerida”, o “aumento da quantidade e extensão das cargas combustíveis” e o “elevado número de ignições indesejadas”. Desde 2000, Portugal gastou “quase o triplo” em supressão comparativamente ao investimento em prevenção.
Instabilidade Institucional
A constante reestruturação das entidades responsáveis é outro fator de instabilidade. Têm-se observado “restruturações sucessivas” das autoridades por “opção política”, sendo “agora claro que a atual estrutura das organizações governamentais não abordou corretamente o crescente problema dos fogos”.
As Contradições da Gestão Montenegro
Entre Números e Resultados
Montenegro apresentou uma defesa baseada em estatísticas: taxas de sucesso superiores a 90% na intervenção inicial, tempos de resposta médios de 15 minutos, e 103 pessoas detidas por fogo posto até 24 de agosto. Paradoxalmente, admitiu que “não conseguimos evitar grandes incêndios”.
A Justificação das Ausências
Para justificar a não presença física no terreno, Montenegro invocou recomendações de uma “comissão técnica independente” que concluiu que “muitas vezes o trabalho operacional é influenciado negativamente pela presença de políticos”. Esta explicação, embora tecnicamente correta, contrasta com as expectativas de liderança em momentos de crise nacional.
O Cenário de “Tempestade Perfeita”
Condições Meteorológicas Extremas
Os incêndios de 2025 ocorreram numa conjuntura particularmente adversa, com condições de severidade extrema prolongadas. Montenegro comparou a situação às “tempestades perfeitas” já identificadas em anos anteriores, particularmente 2017, quando uma combinação de seca, calor extremo e fenómenos meteorológicos criou condições ideais para catástrofes.
O Fator Humano: Criminalidade e Negligência
Os dados revelam uma componente criminosa significativa: fogo posto foi identificado como causa principal de muitos grandes incêndios, representando 33,4% das ignições investigadas. Em 2017, ano particularmente devastador, o incendiarismo surge como origem da maioria dos grandes fogos.
A Metáfora do Barco Desgovernado
A expressão “barco desgovernado” reflete precisamente esta condição: Montenegro pode estar “ao leme”, mas o barco – o sistema de proteção civil e gestão florestal português – navega sem rumo efetivo há décadas. As “causas estruturais” identificadas pelos especialistas – abandono rural, despovoamento, falta de gestão florestal – permanecem por resolver.
Problemas de Comando e Controlo
André Inácio, investigador na área da segurança, identificou “falhas de comando e de controlo”, “ausências de coordenação” e “responsabilidades hierárquicas difusas” como os principais problemas. Segundo o especialista, “grande parte dos processos são concretizados de forma primária e ineficaz devido a conflitos na gestão”.
A Dispersão de Estruturas
Os problemas são agravados pela “dispersão das estruturas” que “diminui a autonomia e o poder de ação das unidades”, refletindo-se tanto na resposta aos incidentes como na prevenção.
Perspetivas para o Futuro
A Necessidade de Reforma Estrutural
Montenegro reconheceu a necessidade de uma “reforma do Estado” na floresta, envolvendo a remoção de “obstáculos jurídicos” e problemas de identificação de propriedade. No entanto, admitiu que não é possível tratar destas questões “hoje”, sugerindo que a solução estrutural continua adiada.
O Aviso para os Meses Seguintes
Significativamente, Montenegro terminou o debate com um aviso: “Estamos a trabalhar para que a gravidade não volte em setembro e em outubro”. Esta declaração reconhece implicitamente que o perigo persiste e que a época de incêndios de 2025 pode não ter terminado.
A gestão de Montenegro dos incêndios florestais de 2025 ilustra perfeitamente a metáfora de estar “sempre ao leme num barco desgovernado”: presença nominal de liderança numa embarcação – o sistema português de combate aos fogos – que navega há décadas sem direção estratégica efetiva, sendo constantemente atingida pelas mesmas tempestades que se repetem ciclicamente. O leme pode estar nas mãos do capitão, mas o barco continua à deriva num mar de problemas estruturais não resolvidos.
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