O descontentamento

Para todos nós, os contemporâneos desta época de voracidades em que as ambições ou ganâncias atingem o paroxismo, o que se passa no planeta remete-nos para a revelação escatológica do Apocalipse. A evolução civilizacional atinge neste momento um ponto de ruptura como se um enorme abismo de impensáveis dimensões esteja prestes a engolir-nos. Cada vez mais se confirma o paradigma da «Árvore da Ciência do Bem e do Mal» que, desde os primórdios da história humana contida na Bíblia, nos abre um extenso campo de reflexões. Segundo a crença judaico-cristã esta árvore situava-se algures no citado jardim do Éden, junto doutra árvore, a «Arvore da Vida», dois elementos icónicos, que definem o projecto de Deus.

Quem é Deus ? Inquirir sobre Deus  equivale a perguntar «quem somos nós, de onde viemos para onde vamos», quem nos colocou neste planeta, sujeitos a leis irrevogáveis como é a da morte, da extinção por desequilíbrios e catástrofes naturais  e pela maldição das guerras.

Os elementos icónicos do Apocalipse são bem palpáveis à nossa volta e o Éden, esta terra que nos foi emprestada para vivermos, padece de abalos terríveis, indomáveis e faz-nos pensar em poderes maiores do que aqueles que, comezinhamente, os homens querem dominar e pôr ao seu serviço. Os homens sábios não são os estrategas e os senhores da guerra. São os que  alargam o pensamento aos grandes fenómenos que movem o Universo, os que pensam para além do visível, os que entendem que o fenómeno da inteligência é um dom especial que diferencia a espécie humana de toda a cadeia animal, aquela que detém mais poderes sobre o planeta, a que possui o privilégio do livre arbítrio, o dom de mudar a face da terra, a uma escala imprevisível; que é capaz de superar o instinto e atingir altos patamares de sabedoria e criatividade, aquela a quem coube o dom apaziguador da fala pela qual deverá administrar o bem e a concórdia e, finalmente, prover ao equilíbrio da Natureza. o que equivale a cuidar da preservação do Éden, da sua bondade e beleza. Esta seria, sim, a verdadeira espécie humana, infelizmente cada vez mais decadente e perdida de si própria. Resquícios há de algumas plêiades de homens sábios, quase ignorados, esquecidos e tantas vezes preteridos por uma rede de comunicações falazes, exploradoras das desgraças e males do mundo, sem critério, e sem resgate crítico.

Na verdade esta crónica carregada de invetivas e melancolias não conduz a nada, senão a uma espécie de expiação de desânimos pessoais perante o estado do mundo, sujeita talvez a alguns risos e ironias. Será breve este meu discorrer sobre causas inóspitas,  mas, apesar de tudo, reconhecíveis.

Não pretendo singrar por falsos moralismos, nem me arrogo a possuidora de qualquer  mezinha barata para cura de grandes males. Simplesmente afirmo as impressões que me causam os horrores do comportamento humano a vários níveis, ao sentir-me naturalmente atingida pelo panorama dos aflitos, vítimas de terríveis distúrbios, martirizados pelas guerras, cujas imagens a todas as horas nos invadem e não podem ser negadas, venham de onde vierem. Não é possível encenar multidões desfiguradas, olhares paralisados, crianças atónitas, cidades destruídas, holocaustos, genocídios, nem desculpabilizar os autores da tragédia, nem tolerar os negacionistas. Não é possível, sem que tudo isto seja uma verdade, uma verdade pavorosa e execrável. Completamente renegada a «Árvore da Vida» assiste-se ao desmantelar da «Árvore da Ciência do Bem, para que vigore implacavelmente a «Ciência do Mal» e se adultere o «projecto» de Deus, esse paradigma de Sabedoria  que nos concedeu o livre arbítrio para discernir e não para falsear ou confundir.

Perguntamos de novo: Quem é Deus. ? Seja Ele Jeová, Alá, Adonai ou Shiva, seja a própria Natureza ou uma Super Consciência, uma Energia criadora do Universo, Deus é, acima de tudo, uma Sabedoria Eminente mal compreendida. O seu valioso legado é agora um planeta malbaratado onde a esperança, o optimismo, a perspectiva do futuro  sofrem, cada vez mais, o risco de se perder.

 

Agosto,2025


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