(3)Movimento ILHA – (1975-2025, quinquagésimo aniversário)

(Terceira crónica)

Na sequência das crónicas anteriormente aqui publicadas, e a encerrar esta trilogia, é tempo de acrescentar mais algumas referências a este Projecto literário que comemora este ano o quinquagésimo aniversário e consta da publicação de cinco coletâneas de poesia com o título genérico de ILHA, sucessivamente acrescentado dos respectivos números 1,2,3,4 e 5. Estas publicações decorrem maioritariamente entre os anos setenta e noventa, do séc. XX, sendo o número 5 o ultimo volume a ser compilado em 2008 por Marco Gonçalves. em evocação da memória de seu pai, o poeta José António Gonçalves, o editor e dinamizador do Movimento.

Vários são os autores que, apresentados em cadernos individuais de dez poemas, fazem parte destes volumes e cabe agora citar aqui os seus nomes. Nem todos estão presentes desde o primeiro número, porque foram surgindo ao longo do tempo à medida que era conhecida a sua produção. De início surgiram os mais novos e a partir do número 2 foram reunidos os que desde algum tempo já tinham obra publicada, porém desconhecida da maior parte do público. Por ordem alfabética, A, J. Vieira de Freitas, organizador da obra «Da Ilha que Somos», Ângela Varela, Ana Margarida Falcão, António Brito Figueiroa, Carlos Alberto Fernandes, Carlos Nogueira Fino, Eurico de Sousa, Fátima Pita Dionísio, Irene Lucília Andrade, Isabel Barcelos, José António Gonçalves, José Laurido Goes, José de Sainz-Trueva, José Tolentino Mendonça, José Viale Moutinho, José Vito Barreto, Luís Viveiros, São Moniz Gouveia (Laura Moniz).

Não foi isento de polémica  o aparecimento inesperado desta plêiade de autores que, de repente, veio abalar certo tipo de intelectualidade instalada que reagiu com um manifesto encontrado na mesa de um café local. Este manifesto, de autoria anónima, em termos desdenhosos, de forte linguagem viperina, era uma evidente provocação que não ficou sem resposta dos visados. Essa resposta que utilizou o mesmo título do primeiro, (O Caruncho), foi dada através doutro manifesto não menos contundente e mordaz do que o primeiro. Uma troca de agravos que circulou por algumas livrarias e mereceu da parte dos primeiros provocadores, segundo algumas testemunhas, um elogio à cerca da qualidade dos textos publicados.

Assim, a Madeira, por ordem natural dos acontecimentos, à semelhança do período histórico dos manifestos surrealistas de André Breton, Apollinaire e Almada Negreiros, registou também uma história de contestação literária, que não teve repercussões em âmbito da comunicação social, pela indiferença que tais assuntos suscitavam num jornalismo nem sempre atento, afeito ao remanso quotidiano da ilha. Este material faz parte do arquivo de José de Sainz-Trueva, agora de posse do Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira. De salientar que o cariz destes manifestos é puramente sarcástico e caricatural.

É importante citar de novo a opinião de Manuel Frias Martins e Ernesto Rodrigues já referidos na crónica anterior sobre esta produção. Diz Frias Martins na sua obra 10 anos de poesia em Portugal: «É de toda a justiça afirmar que a especificidade geocultural da Ilha da Madeira tem contribuído para um decisivo enriquecimento da poesia portuguesa (….) do seu mar emerge a tranquila e límpida sensibilidade de um conjunto de poetas cujo trabalho se encontra reunido em ( cita as colectâneas «Da ilha que Somos» e ILHA 1 e ILHA 2). Assinale-se ainda a qualidade individual de alguns poetas que aguardam, quase desesperadamente um tempo de reconhecimento colectivo do acto cultural, como um acto ainda mais vital do que a construção de bojudos casinos».

Por sua vez Ernesto Rodrigues na obra Prosa e Verso de Novecentos declara: «Não há singularidade insular ou transmontana quando meio e circunstância limitam a maranha lírica. Alguns bons textos da colecção ILHA 4, assentes ou não nesse localismo provam a clara inserção do estro madeirense no conjunto nacional. ILHA 1 e ILHA 4 reunia gente que nunca mais perdi de vista»…Referindo características de vários poetas cita «rigor, luminosidade, imagética, absurdo e fúria, quotidianidade».

Thierry Proença dos Santos, professor da Universidade da Madeira, realizou um trabalho de investigação, sob o título de «Os poetas do Movimento ILHA, a partir da obra de Giampaolo Tonini, professor das universidades de Pádua e Trieste, «Poetti Contemporanei dell´Isola di Madera», publicada pelo Centro Internationazionale della Grafica di Venezia em 2001. Este documento de Thierry Proença dos Santos pode ser consultado no Arquivo  Histórico da Madeira – Nova Série, nº1, 2019, pp. 781- 805. Do mesmo autor sublinha-se «A lírica Madeirense Contemporânea, folheando os Cadernos de Poesia que a têm registado,1952 -2016». O artigo refere a obra mais recente que se apresenta como uma extensão alargada do Movimento ILHA, composta por dois volumes: Cadernos de Santiago I (2016) e Cadernos de Santiago II (2019). Cada um destes volumes reúne vinte e quatro poetas, entre residentes e não residentes, cujos poemas são acompanhados duma leitura, que salienta a substância dos respectivos conteúdos, circunstância que tem por objectivo apelar à reflexão dos leitores.

Uma dissertação de Mestrado em Gestão Cultural,da autoria de Filipe Ribeiro de Abreu apresenta como título «O Movimento ILHA pela mão dos seus poetas – construção de um roteiro literário».

A quem no futuro tenha curiosidade de auscultar o eco destas vozes, o caminho está aberto…

A terminar esta série ( trilogia ) de crónicas, relembro a exortação lírica de Natália Correia inscrita na coletânea  ILHA 2. Nascida em S. Miguel, Açores, o perímetro da Ilha tornou-se curto para a sua exuberância criativa. embora nunca tivesse renegado a sua origem.  Referindo-se aos mitos que salientam as ilhas como territórios mágicos, Natália Correia evoca a hipnose das musas marinhas de «íris de vidro atlântico»: «(…) E onde quer que vos conduzam seus dedos de flor de jacarandá, o mar purificador, permanente ablução da alma insular, vos lavará os olhos. E então vereis jorrar, invicta, a fonte do poema.»

Junho,2025


Notas:

Ilha, quem és tu ?. José Laurino Goes

ISLHENHA.31, Julho a Dez,2002

Aerópago

ULTIMATO FUTURISTA e Manifesto Anti-Dantas, Almada Negreiros.

André Breton

Leonor Martins Coelho -Lusofonia tempo de Reciprocidades ,1º Volume


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