Platonas Stylianou, presidente do ECCE, em encontro internacional na Madeira

Os engenheiros civis europeus escolheram a Madeira para debater os desafios e as oportunidades que se colocam à profissão no actual contexto geoestratégico, refere a Ordem dos Engenheiros na RAM. No âmbito da 80.ª Assembleia, que decorreu em 21 de Março no Funchal, o presidente do European Council of Civil Engineers (ECCE) exortou os líderes políticos europeus a apoiar fortemente a engenharia, como pilar da coesão, segurança e sustentabilidade do continente.
Maior investimento público e privado, numa era marcada pela digitalização, inteligência artificial e inovação em materiais e processos, foi a proposta deixada no encontro que reuniu técnicos de 24 países. Na reunião internacional, que contou com a parceria da Ordem dos Engenheiros, debateu-se também a falta de jovens profissionais.
O cipriota Platonas Stylianou enalteceu o exemplo da Região na aposta por uma engenharia de qualidade que ajudou a marcar o seu desenvolvimento. A OE divulga uma troca de impressões com esta personalidade.
 
Qual é o principal significado desta reunião na Madeira?
É um encontro de grande relevância, pois acolhemos a 80.ª Assembleia Geral da ECCE, o Conselho Europeu de Engenheiros Civis. Além disso, celebramos os 40 anos da fundação desta entidade, precisamente aqui na Madeira, uma ilha engenhosamente bela, com uma longa tradição em obras de engenharia que marcam a sua paisagem e desenvolvimento.
É, por isso, uma ocasião simbólica e estratégica para reunir profissionais de toda a Europa e refletir sobre o papel da engenharia civil no presente e no futuro.
Durante esta assembleia, vamos lançar o nosso novo livro “40 Anos de ECCE”, apresentar a nossa nova imagem institucional, a nova página web e várias iniciativas ligadas à modernização do setor. Há vários anúncios importantes a fazer ao longo da assembleia.
Quais são, atualmente, os principais desafios para os engenheiros civis na Europa?
Enfrentamos inúmeros desafios na profissão. Por um lado, temos de nos adaptar rapidamente às exigências dos novos eurocódigos. Por outro, estamos a entrar numa nova era de transformação digital na construção, com o uso crescente da inteligência artificial nos processos de projeto e execução.
Além disso, temos metas ambiciosas no contexto do Pacto Ecológico Europeu e dos objetivos de descarbonização até 2030. Tudo isto exige não só competências técnicas atualizadas, mas também sistemas de apoio político e institucional que incentivem a inovação e o investimento em engenharia.
Como ECCE, estamos comprometidos em liderar essa transição e oferecer uma plataforma europeia de cooperação técnica e estratégica.
Os engenheiros civis europeus estão preocupados com o atual contexto de instabilidade política na Europa? Que impacto isso tem no setor?
Sim, sem dúvida. A instabilidade política afeta diretamente o planeamento de infraestruturas e o investimento público. Temos um novo manifesto sobre a resiliência do ambiente construído, onde reforçamos que, para garantir infraestruturas seguras, sustentáveis e resilientes, é essencial que existam políticas sólidas e coerentes à escala da União Europeia.
A engenharia civil não pode ser vista como uma área técnica isolada. Depende fortemente de decisões políticas estratégicas, nomeadamente no que respeita à regulamentação, financiamento e planeamento territorial. Acreditamos que os decisores políticos europeus devem continuar a apoiar fortemente a engenharia, como pilar da coesão, segurança e sustentabilidade do continente.
A Europa está preparada para uma nova fase tecnológica e até militar no domínio da construção? Temos engenheiros suficientes para dar resposta?
A verdade é que enfrentamos um défice preocupante de engenheiros, especialmente em áreas tecnológicas emergentes. A nossa Assembleia Geral dedica grande parte da sua agenda precisamente a estes temas – como preparar a engenharia europeia para uma nova fase tecnológica, digital e, se necessário, de apoio à defesa e resiliência europeia.
Estamos a trabalhar para que os engenheiros civis estejam na linha da frente dessa transformação. Mas, para isso, é urgente que os sistemas políticos europeus invistam em formação, em requalificação e em incentivos concretos à engenharia. A digitalização, a inteligência artificial, a inovação em materiais e processos. Tudo isso exige investimento público e privado.
E quanto aos recursos humanos? Temos jovens suficientes a seguir esta profissão?
Infelizmente, muitos jovens estão a optar por carreiras menos exigentes e mais imediatas, deixando de lado profissões como a engenharia, que exigem dedicação e estudo contínuo. Precisamos de tornar a engenharia novamente atrativa, mostrar que é uma profissão nobre, que constrói o futuro das nossas sociedades e deixa uma marca visível no território.
Por isso, apelamos também aos decisores políticos: é necessário apoiar programas de educação técnica, promover a engenharia nas escolas e garantir que os jovens compreendem o impacto que podem ter como engenheiros. Sem recursos humanos qualificados, a Europa não estará preparada para os desafios que se aproximam – sejam eles climáticos, digitais ou infraestruturais.

Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.