Estepilha: memórias de música e alegria no trabalho

Rui Marote
É mais do que normal nos dias de hoje ver pessoas a ouvir música de auscultadores. O Bluetooth, tecnologia sem fios, veio torná-los ainda mais convenientes de usar enquanto se desempenham várias tarefas. Mas hoje, ao vermos uma funcionária de uma firma de limpeza, equipada com auscultadores procedendo à limpeza dos vidros de um quiosque, recordámo-nos do conceito do Estado Novo: alegria no trabalho!
Foi a antepassada do INATEL, fundada em junho de 1935, com o nome Fundação Nacional para Alegria no Trabalho (FNAT). Esta “organização fascista” em 1975 dey lugar à Fundação INATEL. A ideia “alegria” desapareceu e teve então génese o conceito de Turismo Social.  Até às primeiras décadas de 1900,o turismo era sobretudo uma actividade de luxo reservada aos mais favorecidos. A ocupação dos tempos livres dos trabalhadores centrava-se em associações e sociedades populares de educação e recreio e em actividades de excursionismo, música e leitura. O desenvolvimento de um verdadeiro “turismo social só em meados dos anos 30 conheceu um efectivo impulso.
Ao vermos esta funcionária atarefada no trabalho e simultaneamente a ouvir música recordámos-nos ainda de quem mais trabalhava e ouvia música no tempo do Estado Novo na Madeira: eram então as bordadeiras do campo, sentadas ao redor dos quintais escutando nos seus rádios a música pedida do Posto Emissor do trabalho ou, como era conhecida, a emissora do “cambado” em que se repetiam constantemente as canções do Teixeirinha:- “Dói aqui, dói ali, Dói por todo o lugar…”
Não havia então telemóveis, muito menos Bluetooth nem auscultadores. Contava-se há anos que na Igreja do Socorro o padre Lira contratou uns caiadores (pintores) para pintar a igreja no interior. Acontece que um dos pintores enquanto manejava a brocha cantava a marcha do Marítimo. Foi chamado à atenção pelo padre para cantar canções da Igreja, uma vez que estava a profanar o templo.
O caiador mudou a música para o Avé Maria mas o trabalho de pintura já não seguia a um ritmo acelerado e o vigário acabou autorizando que voltasse a cantar a marcha do Marítimo para aumentar o rendimento… Enfim, a música certa é sempre um bom incentivo para o trabalhador.

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