Milagre na Sé ou observação desatenta?

Nos últimos anos, têm-se verificado algumas mexidas nos altares da Sé do Funchal. Foram introduzidas novas devoções: Nossa Senhora de Coromoto, a padroeira da Venezuela, São João Paulo II e os beatos Carlos I da Áustria e o médico venezuelano José Gregório Hernández Cisneros. A Catedral adquiriu também relíquias para exposição: de São Tiago Menor, padroeiro do Funchal e dos beatos Carlo Acutis, Carlos da Áustria e José Gregório Hernández.

 

NOSSA SENHORA DE COROMOTO, PADROEIRA DA VENEZUELA. SÉ DO FUNCHAL. FOTO: © NELSON VERÍSSIMO, 7 SET. 2024.

A nova escultura de São Tiago Menor foi colocada no lugar onde se encontrava Nossa Senhora de Lourdes, e esta passou para a nave lateral do lado do Evangelho, junto do altar do Senhor do Milagre. Nossa Senhora das Dores, que somente saía na Quaresma, encontra-se agora exposta na nave lateral do lado da Epístola, junto do altar de São Miguel Arcanjo. Com o novo órgão, as esculturas do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, que estavam no altar do Senhor Jesus, vieram ladear a capela-mor.

Por outro lado, foram introduzidos mecanismos electrónicos para velas, iluminação e informação. Nalgumas festividades, a Sé ostenta decorações nunca vistas neste Monumento Nacional.

Já habituado a observar alguma mudança sempre que entro na Catedral, deparei-me recentemente com a alteração do segundo altar da nave lateral do lado do Evangelho. No nicho central, encontravam-se, desde há muitos anos, as esculturas de São Joaquim, Santa Ana e Nossa Senhora da Conceição, todas do século XVII. Era, na verdade, uma composição infeliz, pelo reduzido espaço do nicho e as dimensões das imagens. Além disso, a escultura da Virgem da Conceição não pertence ao grupo escultórico de São Joaquim e Santa Ana, e dele destoava.

ALTAR DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO. SÉ DO FUNCHAL. 2021.

 

A Imaculada Conceição foi apeada e posta no altar, ficando São Joaquim e Santa Ana nos seus lugares. Entre estas duas esculturas está agora um Menino Jesus com fato carmesim, debruado com galão dourado e cruzes gregas da cor do ouro, que apresentam braços com bordas em flores-de-lis ou lírios estilizados, símbolo da Trindade, da Pureza, da Realeza e Humanidade de Cristo.

Estava eu a observar de perto esta nova composição, quando uma idosa, por certo ansiosa por dois dedos de conversa, me diz: «Tenho muita fé na Sagrada Família. São José, a Virgem Maria e o Menino são tão lindos. Gosto muito deles. Venho todos os dias aqui rezar e ver eles.» Fiquei a pensar se lhe dizia alguma coisa, mas não resisti: «Olhe, aqueles ali não são os pais do Menino.» Ela que sim e eu que não. Acabei por explicar, lembrando como era o nicho antigamente, mas ela, mais velha do que eu, já não se lembrava.

ALTAR DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO. FOTO: © NELSON VERÍSSIMO, 7 SET. 2024.

A mulher não se convencia. Então se estava lá o Menino, seriam, de verdade, os seus pais. Eu repetia que eram os avós e que a Sagrada Família era constituída por José, Maria e Jesus. «Não, não pode ser!», disse mais de uma vez. Faltava-me já a paciência, quando ela replicou: «Olhe, são todos da mesma família!»

«Tem toda a razão! Os pais são os filhos dos avós.», concluí. Finalmente, estávamos de acordo e conversámos baixinho mais um pouco. Eu, que já imaginava ter-se operado um milagre na Sé, que transformara Ana e Joaquim em Maria e José, fiquei sossegado. Afinal, tudo resultava da falta de informação.

Lembrei-me então que naquele altar, mas não no nicho central, já esteve um Menino Jesus, do século XVIII, de muita devoção, que actualmente se encontra no Museu de Arte Sacra do Funchal. Não foi no meu tempo. Era apenas uma memória de leituras.

A observação desatenta ou a falta de conhecimentos, nesta matéria, originou um equívoco devocional. Mas não um problema. Afinal, são todos da mesma família, como concluiu a minha interlocutora. Contudo, em termos históricos, sobre a infância de Jesus e os seus avós reina a incerteza, apesar da genealogia, ou melhor, da lista dos antepassados de José, apresentada nos Evangelhos de Mateus e Lucas.

Não há nenhuma referência na Bíblia sobre Joaquim e Ana, os pais de Maria. O que se sabe provém dos Evangelhos Apócrifos, como os de Tiago, Pseudo-Mateus e Natividade de Maria, bem como da tradição. São fontes posteriores ao tempo de Jesus. Desconhece-se a autoria. É incerta a data da sua composição. O Proto-Evangelho de Tiago é provavelmente dos finais do século II, e deste resulta o de Pseudo-Mateus, redigido por volta do século VII.

Para evitar futuros mal-entendidos com estas esculturas, sugiro a sua identificação num cartão, fixado no altar, e a atualização do código QR. Dispensam-se caixas de esmolas ou de velas, com os nomes das figuras representadas.


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