O ex. -CENTRO DO EMIGRANTE poderia facilmente ter sido designado como o CENTRO DA CONFIANÇA DO EMIGRANTE. Era essa a sensação que nos era transmitida quando entrávamos na porta estreita da R.5 de Outubro.
Rapazes, homens e mulheres, maioritariamente das zonas rurais da Madeira, deixavam ali as suas esperanças, as suas angústias e confidências. Deixavam-nas a cargo das “meninas” – das funcionárias da instituição – que as guardavam no segredo dos papeis enquanto procediam aos requisitos necessários para completar o processo migratório. Elas, “as meninas” eram o selo de garantia de que tudo iria correr bem na vida e no trabalho daquelas pessoas em outras terras. Eram o tal BRAÇO AMIGO que não me canso de referir, num tempo sem computadores, num tempo reservado apenas à CONFIANÇA.
Os telefones eram pretos e grandes e nem todos os tinham nas suas localidades. Os” recrutados” para trabalho temporário, sobretudo no caso das Ilhas do Canal, não falavam línguas estrangeiras. Muitos nunca teriam viajado, raros imaginariam como seria a vida naquelas terras “dos ingleses”; uns iam para [jerce], outros para [ganza], como eles chamavam. Se bem que em “Jérriais”, ou em “Guérnesei “, segundas línguas nativas daquelas ilhas a diferença de pronúncia não fosse assim tão acentuada.
O frio, o vento, a comida, os alojamentos naquelas “novas pátrias “pouco interessariam, iam à cata das Libras e de uma relação mais cordata entre trabalho e o salário.
És tão novo, porque queres sair. Não estudas ainda, não gostarias de ir para a faculdade? Sabe! não diga aos meus pais: ela {a namorada} chateia-me todos os dias para casarmos e então, perguntei-lhe? – Muitas mulheres sentem-se mais seguras nas relações que conduzem aos casamentos. É assim mesmo … disse-lhe…! Senhor eu só caso quando tiver o meu dinheirinho, por isso quero ir……
Na realidade, a EMIGRAÇÃO TEMPORÁRIA para as Ilhas Anglo Normandas do Canal da Mancha; para os Bailiwicks de Jersey (ilha única habitada, com os ilhéus Écrehours ) e de Guernsey ( com as ilhas habitadas de Alderney; Herm; Jethou e Sark) representavam um COMPLEMENTO ECONÓMICO para as gentes da Madeira ; para lançarem uma laje na casa ainda em cimento bruto, para adquirirem mais um “poio” mesmo ao lado dos seus , para a escola dos “pequenos”, para a pintura da casa. Enfim, iam buscar aquele “dinheirinho” enquanto cresciam nesta sua terra as plantações que as viriam colher; as vindimas, a cana-de-açúcar, etc. Para uns, o ano dividia-se em dois: o tempo de lá e o tempo daqui.
Mas, se a Constituição da República reserva ao nacional português o Direito de Sair e o Direito de Regressar; se as Migrações são tão antigas como a Humanidade; se a Família Sagrada emigrou; se Abrão saiu da sua terra por ordem do Senhor, se aos emigrantes Jesus mandou acolher quem seríamos nós para dificultar o processo migratório daqueles que voluntariamente o desejassem fazer?
Que humanidade seria a nossa se nos cingíssemos à folha do papel, ao legislador de uma forma quiçá absoluta, se não brotasse algo de diferente e DIFERENCIADOR em nós?
Não se sabendo ao certo (ainda hoje) porque se emigrava sabia-se, todavia, que o processo migratório estava associado a uma grande mudança na vida dos seus intervenientes. Tratava-se de um processo “de luto” embora parcial. A perda da terra; do status social; a forte barreira linguística; os trâmites burocráticos às vezes insuportáveis; os novos códigos culturais; a falta de contacto com a origem; a situação de se estar indefeso; a certeza e a incerteza que nem sempre combinavam, enfim… (o Síndroma de Ulisses) como se designa nas MIGRAÇÕES estava minimizado graças à generosidade daquelas “meninas” do Centro do Emigrante.
Obviamente, que o ex.- CENTRO DO EMIGRANTE tinha outras tarefas que não apenas as da RECRUTAMENTO de mão-de-obra para o estrangeiro. A legalização de processos para o respetivo desalfandegamento e importação de bens, nomeadamente de veículos, a entrega de donativos recebidos do estrangeiro, o acompanhamento dos diplomatas estrangeiros para a concessão de vistos, os cursos de língua estrangeira e um número considerável de outras funções, mas aqui, em sede deste trabalho, o que mais nos interessa é focar este aspeto determinante para a HISTÓRIA DA EMIGRAÇÃO MADEIRENSE que é a PRIMEIRA EMIGRAÇÃO TEMPORÁRIA (LEGAL)
- SUÍÇA
- ZURICH
Sabíamos da existência de cursos de formação profissional, ao nível da construção civil, no território nacional comparticipados pela Suíça e interessava-nos transportar essas ações para a RAM. Com efeito e basicamente esses cursos consistiam no seguinte: – Os trabalhadores migrantes portugueses de “Permis A”, ou seja, aqueles que não eram autorizados a residir na Suíça por um período máximo de 9 meses teriam de regressar ao país para cumprir os restantes três meses do ano. Nesses meses em vez de gozarem férias iam para uma escola de formação profissional em Portugal onde eram treinados para trabalhos mais específicos na área da construção civil. Findo o curso, a mesma entidade patronal que os autorizara a frequentar o curso voltava a empregá-los com categorias mais elevadas e outro” Permit “de Trabalho.
A ideia seria esta: a RAM possuía uma estrutura fundamental que era a sua Escola Hoteleira. Os monitores seriam selecionados e frequentariam um curso pago pela Suíça. Os alunos, cujos vencimentos (igual ao salário mínimo nacional) seriam pagos pela Suíça com a condição de emprego assegurado pela “Societé Suisse des Hoteliers” aperfeiçoariam os seus conhecimentos de língua alemã e aprofundariam técnicas hoteleiras beneficiando de melhores vencimentos, ganhando outras habilitações profissionais que seriam muito interessantes no regresso à Madeira. TRÊS EM UM: Curso de Alemão: Curso de Hotelaria, Bom Salário/ boa poupança, numa altura que a RAM industrializava o seu TURISMO e poucas pessoas falavam alemão.
Falamos, na altura com os senhores Tanner;Gruntz;Fucks e Walter Rohner, respetivamente representantes da “Scweizer Wirteverband” e da “Societé Suisse des Hoteliers”
Foram tratadas das questões dos transportes (fizemos uma proposta de viagem charter em vez de comboio) e das acomodações
- BERNA
Embaixada de Portugal – Reuniões com o inseparável amigo da Madeira, Dr. Victor Gil. As questões do “DESTACAMENTO” no capítulo da Segurança Social Suíça. A elaboração de uma brochura contendo toda a informação útil sobre VIVER E TRABALHAR NA SUÍÇA e os demais assuntos relativos à proteção do nosso povo naquelas montanhas entre o Jura e os Alpes.
Era Embaixador de Portugal na Suiça o Dr. Octávio Neto Valério, o diplomata português que negociou a entrega de Macau à China.
- GENEVE
Assistimos à chegada de um grupo de emigrantes. Fomos inteirados dos procedimentos médicos a que estes eram sujeitos à chegada e mantivemos contactos com os intervenientes no processo de recrutamento. De lembrar, que estes nossos emigrantes faziam exames médicos antes da partida e, como explicado, tinham formação básica de língua alemã.
Em conversa com a OIM, tentamos abordar outras soluções para a nossa emigração caso houvessem alterações significativas na política dos países de acolhimento tradicionais das nossas comunidades, nomeadamente com a ajuda dessa organização intergovernamental. Matéria de natureza confidencial que não cabe neste estudo.
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