Memórias: “Guerra” em bloco operatório

Os protagonistas desta memória já não fazem parte do mundo dos vivos. Dois excelentes médicos, Dr. Faria Nunes e  Dr. Orlando Magro.
A história decorreu no Hospital da Cruz de Carvalho.
Fui convidado para fotografar o nascimento de três gémeos. À hora combinada estava no 3ºandar, no gabinete do Dr. Faria Nunes, eu e a minha colega Marina Caldas. Assistimos à “convocatória” do médico assistente e da enfermeira.
Em voz de comando e bom som gritava:- “Quem é o médico de serviço?” Responderam: É “J” :- “Não quero burros  no bloco!!! Telefona e chama o médico “M”. Quem é enfermeira no bloco? Como a resposta também não agradasse: “Chama outra, não quero essa mulher…” O tratamento era assim.
Nunca tinha entrado em nenhum bloco operatório, nem tinha visto uma cesariana. Interpelei o Dr. Faria Nunes: “Quanto tempo demora essa intervenção?” Resposta imediata: “Não lhe digo!!!” Fez-se silêncio.
Com sinceridade, não era a paciente mas estava nervoso. Ao percorrer os corredores em direcção ao bloco, o Dr. Faria Nunes lá amansou: “Vou dizer-lhe mas não escreva nada… Fazemos a cesariana no mínimo tempo possível, e as pessoas vão dizer que ganho muito em tão pouco tempo. Pois logo que a paciente recebe a anestesia a intervenção é imediata, para que a anestesia não passe para o recém nascido”, esclareceu.
Cheguei ao bloco e equipei-me dentro das normas obrigatórias e dei entrada na sala onde estava a paciente. Comecei imediatamente a fotografar todos os preparativos. As máquinas eram analógicas há 35 anos e o filme de 36 fotogramas esgotou-se rapidamente. No momento crucial do bebé a ser retirado, não tinha filme na máquina!
Faria Nunes perguntava-me: “Porque não fotografa agora?” Envergonhado, respondi: “não tenho “rolo”…
Ou seja, tinha tudo menos o nascimento. O que valeu é que eram três bebés. Este acontecimento tornou-se viral: sempre que encontrava o Dr. Faria Nunes ele “gozava”: Marote, tem rolo ???
Da comunicação social só a televisão foi convidada. Acontece que a jornalista assistiu a tudo mas o operador de câmara também só chegou depois dos bebés terem nascido e já estarem entregues ao pediatra.
E eis então que surge na sala o operador de imagem. Dr. Faria Nunes queria protagonismo e pediu que um dos bebés voltasse à sala do bloco, para encenar o  nascimento. Aqui começou a “guerra”: o pediatra dizia que não e o ginecologista que sim.
“Quem é o chefe do bloco? Sou eu!” A discussão ficou feia. A sala operatória estava separada por um vidro da sala dos recém nascidos. Orlando Magro retirou a bata e jogou contra o vidro e em voz alta declarou: “Se acontecer algo ao bebé és o responsável!” O bebé voltou para trás e o Dr. Faria Nunes simulou o acontecimento colocando o bebé, agarrado pelos pés, por cima da barriga da parturiente. O que interessava era o telejornal à noite noticiar.
A segunda vez que voltei ao bloco foi no final de ano.
O meu amigo Faria Nunes queria fazer um brilharete e provocou uma cesariana de dois gémeos. Um nascia no ano que finalizava e o outro no novo ano.
E assim aconteceu. Cheguei ao bloco e um rádio ligado à RDP iria transmitir a passagem de ano em alto e bom som a poucos metros do Dr. Faria Nunes, para que nada falhasse.
O locutor dizia: Faltam 40 segundos!! Com o bisturi na sua mão de gigante, trouxe ao mundo o primeiro bebé fez uns segundos de pausa  e quando ouvimos o barulho do fogo de artificio o segundo bebé foi retirado. Tudo deu certo e o Rui Marote passou essa passagem de ano no Bloco operatório da Cruz de Carvalho. Ainda pedi uma boleia para baixo ao Dr. Faria Nunes, mas recusou dizendo que tinha de ir a uma festa… E lá tive de vir para baixo a pé.
Recordo que a manchete do Diário do dia dois era o nascimento, com uma montagem de fogo de artifício no interior do bloco…

Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.