Memórias: “Pátria” à deriva com Cavaco Silva

Quando o primeiro-ministro Cavaco Silva colocou os pés no navio «Pátria», que o havia de trazer ao Funchal, para prosseguir a sua visita oficial à Região Autónoma da Madeira e deu os parabéns ao presidente do Governo Regional pela classe do navio, estava longe de imaginar que a viagem teria uma história…
Cavaco Silva, acompanhado do presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim e de Fernando Nogueira, ministro da Defesa, aparentava logo de manhã boa disposição. Os dois políticos disfarçaram bem o cansaço do dia anterior. Haviam feito uma volta à ilha do Porto Santo (que mesmo pequena chega a maçar pelo pára-arranca constante) e o jantar à noite, embora relaxante, não fora suficiente para atenuar a lufa-lufa do dia.
O primeiro-ministro terminou a sua primeira visita à «Ilha Dourada» experimentando o novo navio que ligava o Porto Santo à Madeira. O «catamaran», apesar de ter uma singular importância nas ligações entre as duas ilhas, tinha sido alvo de alguma polémica.
É que o barco, com capacidade para quatrocentos passageiros não se andava a comportar tão bem tanto quanto desejaria o Executivo madeirense. Já tinha sido reforçada a sua estrutura e reparados alguns pormenores apontados como «naturais» num navio novo, em fase experimental, e ainda em tempo de garantia. Mas o azar andava a bater à porta do Governo.
Depois da «partida» que o «Peugeot» tinha pregado ao presidente do Governo Regional no Porto Santo (uma avaria na caixa de velocidades), o navio «Independência» também haveria de ficar atracado no Funchal com uma avaria no sistema eléctrico.
Maldita avaria. Eram coincidências a mais. O «Pátria», bandeira da modernização nas ligações marítimas Madeira-Porto Santo, também fez alterar os ânimos da comitiva ministerial, com uma maldita avaria na válvula do leme, que se prendeu. Por volta das 10h10, o «Pátria», navegando a toda a velocidade, cerca de 54 quilómetros/hora, começou a desviar a rota e a reduzir grandemente a velocidade.
Na classe normal viajavam os jornalistas, que de vez em quando tinham a presença do presidente do Governo e de secretários regionais do seu gabinete.
Na primeira classe, Cavaco Silva, na companhia de sua mulher, Maria Cavaco Silva, do ministro da Defesa e do seu grupo inseparável de guarda-costas, viajavam comodamente. O desvio da rota foi interpretado pelos jornalistas como uma hipotética passagem junto às ilhas Desertas. Puro engano, próprio de leigos em matéria de navegação.
O «Pátria» navegava muito devagar e pareceu de repente andar à deriva. Antes do comandante Chaves anunciar «uma avaria no leme», já os jornalistas disso estava informados. A voz do comandante foi a confirmação. Com a Ponta de S. Lourenço já bem perto, mas ainda no traiçoeiro mar da «Travessa», o «Pátria» ficou quase imobilizado.
Vinte minutos durou o «rame-rame», num baloiço ao sabor das ondas. Cavaco pergunta: «Sabotagem?» «Não vejo razões para isso», desabafou Alberto João Jardim irritado e como que disposto a rever, de uma vez por todas, o que é que tinha o «Pátria».
O “Pátria” tinha desacostado do porto de Porto Santo e o primeiro-ministro, mal entrara no navio disse ao líder madeirense: “Com um barco destes, o senhor não precisa de um aeroporto inter-continental no Funchal». Resposta de Alberto João Jardim: «Faça isso e arrisca-se a ter nas eleições só o voto do ministro da República».
Este clima de bom humor só foi quebrado quando aconteceu a avaria. O presidente do Governo Regional, muito naturalmente, não gostou que aquilo tivesse acontecido com o primeiro- ministro a bordo.
Mas Alberto João Jardim, provando que sabe sair-se airosamente das coisas difíceis, procurou aliviar a situação dizendo que o comandante Chaves esclarecia tratar-se de uma avaria nos comandos.
Quase em cima da avaria, o chefe do Executivo madeirense tinha tomado o «comando» do «Pátria».
Quando aconteceu a avaria e o barco começou a guinar para a direita, Fernando Nogueira não jogou nada à defesa: «Você foi para ali, o comando virou isto logo para a direita». Não houve comentários, como é lógico.
Quem esteve à defesa, pelo sim pelo não, foi Cavaco Silva. O responsável pelo grupo de guarda-costas, quando viu que a avaria demorava a reparar apressou-se a explicar ao primeiro-ministro a situação em que estava o barco e mandou o primeiro-ministro e a sua comitiva vestir coletes salva-vidas. Mais ninguém os vestiu, e a imprensa foi proibida de fotografar.
Hoje temos o Lobo Marinho. O Independência está no Douro fazendo companhia ao Pirata Azul e o “Pátria” está na Coreia do Sul, como casino flutuante.

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