Memórias: do Ilhéu de Cª de Lobos para o bairro das “Malvinas”

Alberto João Jardim a 16 de Março de 1978 assumiu a presidência do Governo Regional. Recordo que fiz a cobertura jornalística  de uma das primeiras visitas oficiais de Jardim ao Ilhéu de Câmara de Lobos. O grau de pobreza que ali se vivia causou ao governante com 33 anos de idade uma sensação de tristeza e ao mesmo tempo a necessidade acabar já com a situação daquele povo empobrecido.
O objectivo tinha de ser o de tirar estas famílias que viviam no cimo daquele maciço de pedra, em condições terríveis: partilhavam o mesmo quarto oito pessoas, vivendo sem luz  e dependendo da água do fontenário mais próximo.
Ainda tenho gravados na retina  o exterior dos cubículos onde pernoitavam; a rua era a cozinha, sendo a comida feita a lenha num fogão improvisado, com uma panela de ferro. A colher de pau mexia a cozedura do milho, alimento de pobre. Nos dias de hoje é “chique” saborear este prato que até está nos menus dos restaurantes com os dizeres “hoje milho quente”. Mas na altura não era “chique”. Quanto às crianças, com cinco anos de idade, andavam descalças e algumas semi-nuas.
O presidente saiu arrasado. Era preciso tirar estas pessoas daquele modo de vida no mais curto espaço tempo.
A madeira não tinha empresas de construção civil para responder de imediato:-Cardoso, Serra d´Água, Gaspar e filhos, Avelino Pinto e outros. Jaime Ramos, que era adjunto da presidência, seguiu de imediato para Lisboa e estabeleceu contactos com Soares da Costa, que se encontrava a construir um bairro social.
Jaime regressa ao Funchal com o projecto desse bairro e o governo decide construir nos mesmos moldes. A Soares da Costa foi a primeira construtora  a chegar à Região.
O bairro teria de sair do centro de Câmara de Lobos. Mas os pescadores não aceitavam, uma vez que as embarcações estavam naquela baía. Escolheu-se o sítio da Torre-Palmeira, então uma zona de bananal. O bairro ficou conhecido pelo nome de “Malvinas”, aludindo ao facto de que a Argentina e Inglaterra se confrontavam pela disputa das ilhas do Atlântico Sul.
Era preciso mão forte para acabar com os problemas de pobreza e violência primária. Centenas de famílias foram transferidas para o primeiro bairro social.
A 25 de Julho de 1982 foi inaugurado o Bairro das Malvinas. O governo, para amenizar esse “êxodo”, ofereceu transporte gratuito aos pescadores.
Mas os problemas não ficaram por aqui: os moradores não estavam preparados para as suas novas habitações, desconheciam o que era uma casa de banho e como utilizar um bidé ou uma banheira.
Nas primeiras semanas fizeram destas louças sanitárias recipientes para salgar carne de porco ou para plantar flores ou criar galinhas.
Os elevadores foram o “Luna Parque” das crianças com constantes “sobe e desce”. As avarias eram constantes.
As reclamações surgiram e o governo enviou assistentes sociais para ensinar, aconselhar como viver numa casa e fazer boa vizinhança. Foram tempos difíceis, com alcoolismo e droga à mistura a marcar a vivência naquele lugar.
Decorridos 42 anos, o bairro já passou por diversas manutenções, e nasceu ali uma creche, escola e comércio local. Anos mais tarde nascei o Bairro do Espírito Santo, à entrada da ponte dos Socorridos, construído pelo Instituto de Habitação.

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