
*Abel Torres
Integrado no programa especial comemorativo dos 75 anos do Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha, o espetáculo teatral “Magenta, a saia listada”, produção do Grupo Folclórico e Teatro Experimental da Camacha, levado à cena no passado sábado, teve como objetivo evocar a primeira apresentação pública do Grupo em maio de 1949.
Interpretadas com mestria pelos músicos da tocata do grupo, todas as cenas da peça foram acompanhadas com perfeita sincronização, por música ao vivo, o que emprestou ao espetáculo um ritmo e vivacidade apreciáveis.

Com texto e dramaturgia de Zé Ferreira, a peça sustenta o seu fio narrativo em excertos de Lágrimas correndo mundo (1959), Torna viagem, de Horácio Bento de Gouveia, e na crónica romanceada, Minha Gente, de António Marques da Silva.
Conforme se pode ler na sinopse do folheto distribuído aos espetadores, que ocuparam todos os lugares disponíveis, “Uma aldeia perdida nas cordilheiras da ilha torna-se conhecida pela natureza das suas estações, pela riqueza das suas criações e pelo regozijo da alma das suas gentes. Neste retrato da história, podemos acompanhar a vida de Maria Clara, da infância à mulher adulta, com uma Saia Listada que marca o seu caminho.
Magenta é o prelúdio da formação de uma coletividade que brilha há setenta e cinco anos, levando a tradição madeirense aos quatro cantos do mundo, o Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha”.

Lançando mão de um elenco intergeracional constituído por 31 intérpretes amadores, que integrou harmoniosamente crianças, adolescentes, jovens e adultos, o espetáculo prendeu e cativou o público, também ele intergeracional, suscitando o interesse geral pelo enredo feito de histórias sequenciadas e interligadas, bem como pelas breves mas rigorosas introduções informativas e formativas de natureza histórica que antecediam cada novo momento de ação dramática (desde a incontornável referência ao fundador do grupo folclórico, Dr. Alfredo Nóbrega, às tradições, usos, costumes, crenças religiosas, festividades, até ao duro “ganha-pão” dos homens e mulheres do povo camachense sustentado no esgotante trabalho do vime, no amanhar da terra, no duro “puxar pelo bordado”, convivendo com a presença inglesa, as suas quintas, o seu modo distinto de ser e estar, mais senhorial ou mais desportivo (com o legado do futebol) ou, não menos relevante, o recurso à emigração para a ilha caribenha do Curaçau ou para a Venezuela.

Sem amenizar a consciência das vidas duras, pobres e sofridas das gentes da terra, sobretudo das bordadeiras carregadas de “freimas” e “magotes de buzicos” , não raras vezes exploradas por caixeiros menos escrupulosos, é de aplaudir o registo humorístico que atravessa todo o espetáculo, assente no cómico de situação e de linguagem, a evocar o tom epocal e local, a par com os deliciosos regionalismos e expressões idiomáticas que seria “mal injusto” não registar e aplaudir quer pelo trabalho do texto, quer pela muito bem conseguida interpretação.
Dramaturgia, encenação, design de cenários, guarda-roupa, desenho de luz, som, luz e imagem, assistentes de palco e produção estiveram em muito bom nível, sem esquecer o desempenho dos músicos da tocata do Grupo Folclórico que “puxaram”, desde o primeiro momento, pela colaboração entusiástica do público.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





