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Envolvendo o Mestrado em Estudos Regionais e Locais do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira, houve, na ilha da Madeira, uma Escola de Verão, ou melhor, uma Summer School, de 27-08-2023 a 05-09-2023, considerando as chegadas e as partidas. Tratou-se de um evento programado no âmbito de uma parceria internacional para o Erasmus Mundus International Joint Master Climate Change and Diversity – Sustainable Territorial Development (CCD-STeDe), ou seja, em português, o Erasmus Mundus (programa da União Europeia que implica universidades não europeias) Mestrado Internacional Conjunto em Alterações Climáticas e Diversidade – Desenvolvimento Territorial Sustentável. Aqueles dias foram dedicados à “Biodiversity, Landscapes and human well-being/ Biodiverisdade, Paisagens e bem-estar humano” (6 ECTS – créditos atribuídos) e a “Emerging issues in tourism and territorial transitions/ Questões emergentes em Turismo e transições territoriais” (4 ECTS). Contou com 12 estudantes internacionais de diversas nacionalidades: italiana, francesa, alemã, brasileira, equatoriana e colombiana e 7 docentes de Itália, Burquina Faso, África do Sul e Equador.
Foram programadas actividades para todos os dias de 28-08-2023 a 04-09-2023, das 09:00 às 18:00, tendo, depois, os mestrandos de sistematizar a informação, por um lado, num trabalho de grupo e, por outro, de elaborar um trabalho individual. Sendo impossível observar tudo, porque o arquipélago é grande, embora pareça pequeno, tivemos de fazer opções. Andámos pela cidade do Funchal para conhecer o centro, a sua história e a sua cultura, além dos monumentos. Fomos a São Vicente visitar a Rota da Cal, um “eco-museu”. Na Boaventura, contactámos com a proposta de agricultura biológica da Quinta Vale Verde, radicada nas convicções de um jovem casal. Foi posta à prova a sustentabilidade da piscina natural de São Vicente. Estivemos em contacto com programas levados a cabo na Universidade da Madeira (UMa), onde descobrimos o banco de sementes, os laboratórios com investigação dedicada a produtos agrícolas e o Centro ISOPLexis com “food tasting”. Participámos em trabalhos da horta do Projecto Mãos na Terra, na Quinta de São Roque. Ficámos a conhecer em pormenor o programa Eco-Escola da UMa e o circuito para a sustentabilidade no Campus da Penteada. Estivemos no Jardim da Serra, mais precisamente no CDISA (Centro de Desenvolvimento e Inovação Sócio-Cultural e Agroflorestal), um projecto Bio-Região da Quinta Leonor. Deslocámo-nos ao Santo da Serra para conhecer o Campo de Educação Ambiental Eva e Américo Durão, onde está a ser preservada uma parcela de floresta Laurissilva, prestando atenção às plantas e árvores que ali existem. Passámos pelo Monte para ter contacto com um ponto turístico do Funchal (comboio do Monte em vídeo, carreiros, Capela das Babosas, teleféricos, Igreja do Monte e o Imperador Carlos de Habsburgo). Percorremos a costa sul da ilha da Madeira para descobrir a sua geologia, saindo do Pico dos Barcelos e indo até à Ponta do Pargo, passando pela Ribeira Brava e pela Ponta do Sol. Subimos até ao Paul da Serra, mas o nevoeiro e a chuva não permitiram nenhuma saída de campo. Seguimos até à zona do farol (que estava fechado) da Ponta do Pargo. Daí, dirigimo-nos para a praia da Calheta e parámos em Câmara de Lobos, antes de regressar ao Funchal. No domingo de manhã, construímos “drones de papel”, “joeiras”, ou seja, papagaios, com materiais reciclados (jornais, canas, cordel, cola de “semilha” cozida, etc.) na praia do Almirante Reis que procurámos deixar como a encontrámos e, portanto, sem lixo adicional. De tarde, estivemos no mar para ter uma explicação relativa ao oceano e à ilha vista dali (paisagem, construções, etc.). No mar, avistámos golfinhos e houve quem desse um mergulho. No último dia, a proposta era “fazer uma levada” começámos no Vale Paraíso para compreender a dinâmica. De autocarro, seguimos até ao Pico do Areeiro, onde havia nevoeiro e frio. Descemos até ao Ribeiro Frio para percorrer a levada dos Balcões. Fora escolhida porque era um bom exemplo de levada. Eu nunca tinha visto tantos turistas a fazer esse percurso: centenas e centenas, sem exagerar. Não nos demorámos e fomos até à Quinta do Furão para daí parar no Porto da Cruz e na Ponta de São Lourenço, pontos com também muitos turistas por todos os lados. A vivência destes dias foi, no geral, apreciada. No fim, os estudantes construíram, juntos, um mapa da ilha da Madeira com impressões, através da partilha das experiências vividas.
Eu, como coordenei a Summer School, ou melhor, a Escola de Verão, estive ao serviço mais de 10 horas em todos os dias, incluindo sábado e domingo. Encontrei-me rodeada de pessoas que não falavam português, salvo uma ou duas. Num ambiente assim, que língua falar? A língua inglesa evidentemente é a língua usada para todos os serviços. Trata-se de um inglês essencial que importa caracterizar porque não é o do “native speaker” (falante nativo). Este aprendeu, durante toda uma vida, com uma escolarização sistematizada, regras e construções, assim como a empregar significações e valores de sequências linguísticas. Pensemos no verbo “to give” (dar). Dizer em inglês “give up” (desiste) não é o mesmo que dizer “give you time” (dá-te tempo) – o que é diferente de “give of one’s time” porque, neste caso, é “dar do seu tempo para ajudar alguém”. O interessante é que “give up” também pode significar “entregar-se a” se tiver “to” logo a seguir (“She gave herself up to pleasure.” – “Ela entregou-se ao prazer.” – talvez algo como “Ela deleitou-se.” se torne mais compreensivo em português). As línguas são assim mesmo: basta pôr ou tirar uma insignificante palavrinha e tudo muda. Logo, se não temos cuidado, dizemos algo diferente daquilo que queríamos dizer e, se não prestamos atenção, estragamos tudo, sendo difícil repor o sentido original, se não nos dermos conta do erro. É isso, o erro linguístico está sempre à espreita e pode ocorrer, quando menos se espera. Para a aprendizagem, incluindo linguística, o erro – de que se dá conta – torna-se basilar e extremamente positivo. Caso contrário, pode trazer muitos prejuízos.
É por demais claro que quem tem a sorte de dominar inglês acaba por ter um trunfo e estar em vantagem relativamente aos outros, mas, num ambiente internacional assim, são em número reduzido essas pessoas. De todos os países de onde vieram intervenientes para a Summer School (Escola de Verão), apenas a África do Sul é anglo-saxónica. Portanto, ouviu-se falar português (Europeu e do Brasil), italiano, espanhol e francês, além de inglês. Este era reservado ao grupo todo; depois, parcelarmente, as outras línguas iam-se fazendo ouvir. É natural: qualquer falante tende a usar a língua que conhece melhor, aquela que aprendeu em criança e que lhe é familiar, ou seja, a chamada “língua materna”.
O “inglês internacional”, vamos designá-lo assim, tem um vocabulário reduzido e recorre aos usos linguísticos fundamentais da língua inglesa. Ninguém se preocupa muito com a gramática e a estrutura da língua porque o essencial é fazer passar a mensagem, na comunicação de grupo. O empenho de cada interveniente é fazer com que quem está à volta compreenda o que tem para dizer. Quando não se sabe um vocábulo ou, simplesmente, não ocorre no momento, a técnica da paráfrase é a solução. Tende-se a dizer por muitas palavras ou até explicar o que se poderia dizer de modo muito mais simples. Também é falante deste “inglês internacional”? Sabe do que estou a falar, não sabe? Onde aprendeu a falá-lo? Além de falar, também tem, como eu, de o escrever?
Eu aprendi-o na escola, a partir, sensivelmente, do 5.º ano de escolaridade, ou seja, por volta dos 11 anos e lembro-me bem das professoras (foram sempre mulheres). Insistiam na pronúncia com, e para falar apenas de um pormenor, um “h” aspirado a dar que fazer. Um autêntico bico de obra! Reforçavam a morfologia com, por exemplo, as preposições “in”, “on” e “at” e os seus usos particulares. Um autêntico quebra-cabeça! Dedicavam tempo à sintaxe e à construção de textos, entre outras áreas. Havia exercícios regulares para preenchimento de espaços vazios em textos pré-formatados. Fui aprendendo progressivamente numa ou duas horas por semana até ao 9.º ano de escolaridade. Portanto, nesses anos, ganhei umas noções de inglês, mas não me tornei fluente na língua de William Shakespeare. Depois, por enveredar pelas línguas românicas, no 10.º ano e no 11.º tive latim. No 12.º ano, contrariamente ao expectável, a escola secundária onde estudei não tinha latim e fui obrigada a voltar para o inglês. Tive de trabalhar a dobrar para suprir as aprendizagens em falta. Com 18 anos, li sozinha na versão original The Pearl (A Pérola) de John Steinbeck, obra de que gostei muito. Ainda hoje me recordo com alguma precisão do enredo. Trata da história de um casal pobre que, inesperadamente, fica rico. Li, igualmente em inglês, The Catcher in the Rye (tradução literal: O Apanhador no/ de Centeio) de Jerome David Salinger. Este livro singular foi perturbador para mim, embora interessante pela busca constante da jovem personagem principal, pela noite, numa grande cidade. O “centeio” não tem nada a ver com o campo. A partir daí, a minha aprendizagem foi por conta própria, até que um familiar casou com uma pessoa anglo-saxónica e se tornou indispensável aperfeiçoar a aprendizagem do inglês para poder comunicar com a “nova” família. Inscrevi-me no British Council, em horário pós-laboral, na década de 90. Após um teste e uma entrevista, colocaram-me num nível de proficiência adequado. Passado um ano, conciliar isso com diversas actividades laborais tornou-se complexo e parei. Diariamente, as minhas necessidades de inglês não eram nenhumas, além das relações familiares. Ainda frequentei um curso intensivo de Verão na Cambridge e dei por concluído o ensino formal de língua inglesa. Como foi consigo? Quantos anos de inglês teve, na escola e fora dela? Domina a língua? Talvez seja como habitualmente fazemos para tudo: “desenrasca-se”, não é? Pode acontecer que seja excelente. Que bom! Dominar línguas é, quanto a mim, uma mais-valia, especialmente no mundo globalizado em que vivemos.
Sendo falante de língua portuguesa, sempre considerei que o melhor seria falar, e defender, o uso quotidiano do português. Vou-me dando conta de que andei, em parte, equivocada. No entanto, a defesa da própria língua é essencial. Foi emocionante assistir, pelos noticiários, ao uso de línguas ditas “regionais” (catão, basco e galego) no Parlamento em Espanha, pela primeira vez. Existem documentos internacionais para a defesa das línguas e não compreendo o receio de ouvir falar outras línguas, além das oficiais. A defesa da língua única, do monolinguismo, tem causas políticas e certos efeitos políticos também. Aceitar que cada pessoa fale a sua língua é criar divisão, no entendimento de algumas pessoas, mas não é assim. Um estado quer apenas uma língua, assim como um exército, porque é muito mais fácil de gerir, de controlar. Aliás, e já escrevi sobre isso, na maior parte dos casos, e é um assunto político, a designação da língua corresponde ao gentílico (ex.: Portugal, português para o habitante e a língua; França, francês para a indicação da nacionalidade e da língua). Cada falante tem o direito de se expressar na própria língua, sendo, no entanto, indispensável criar condições para que as outras pessoas entendam quem fala. É o princípio básico da comunicação: os códigos do emissor e do receptor têm de ser o mesmo, ou seja, têm de ser falantes da mesma língua. No entanto, também podem partilhar parte de um mesmo código, sendo o que acontece com as línguas estrangeiras que falamos. É aquilo que sucede quando falo inglês com um colega de uma universidade estrangeira que não sabe português. Deveríamos valorizar a tradução e, incompreensivelmente, em Portugal, não lhe é dada grande relevância. Parece que somos todos poliglotas ou, pelo menos, falantes de inglês. A tradução merecia maior atenção.
No mundo académico, nomeadamente na Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), o inglês internacional está a impor-se, saiba-se ou não a língua e os seus meandros. Vamos todos falando e escrevendo com a ajuda de várias ferramentas. A mim, causa-me algum incómodo porque estou consciente das minhas limitações. Vou aprendendo com muitos erros pelo meio e, infelizmente, não dou conta de todos. Não há volta a dar: quando se inicia um processo de internacionalização institucional é indispensável aceitar que se vai ser falante (implica alguém que fale e escreva) de inglês internacional. Curioso é observar também que há toda uma linguagem que é ouvida no mundo inteiro, como no caso das “alterações climáticas”, da “crise climática”, dos “efeitos de estufa”, da “inflação”, da “crise económica”, etc. Por conseguinte, o mundo é a nossa casa. As problemáticas são comuns e o inglês internacional está a tornar-se a nossa língua. Eu usarei o português a nível local, regional e nacional, mas terei de empregar o inglês internacional a nível global. É a língua franca dominante, haja ou não falantes de inglês envolvidos. Como não tenho tempo para o estudo formal, terei de o fazer através da aprendizagem informal. Nas minhas leituras domingueiras, vou passar a ler em inglês. Por sorte, tenho na minha biblioteca umas quantas obras. Contar-lhe-ei um dia destes o que escolhi para progredir na aprendizagem da língua inglesa, no que se refere à leitura. Agora, tenho de me preparar para uma outra intervenção em inglês, para reuniões Zoom em inglês, para responder a “e-mails” em inglês, para… Tudo em inglês! Onde acabará esta opção? Que lugar damos/ daremos ao português na investigação científica?
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