A sala de visitas de João Gonçalves Zarco

Li, no livro ‘Nini Andrade Silva’ (Lisboa, 2020), que a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, do Ilhéu, «foi em tempos a casa de Gonçalves Zarco, antigo navegador português e colonizador do Arquipélago da Madeira» (p. 26). Na mesma página, pode ler-se que, nessa casa, Zarco tinha uma sala de visitas, e que, precisamente, nessa zona, está agora uma exposição de fotografias antigas sobre vivências do porto do Funchal. Tudo isto num capítulo encimado com a frase: «Não é o que se vê, é o que se sente».

Enternecido com a epígrafe, abstraí-me do espaço circundante, concentrei-me, deixei que o tempo me levasse para imaginar e sentir a presença do descobridor.

Na sala, havia bancos, mochos ou tamboretes, arcas, almofadas e um aparador com rica baixela. Sobre a mesa rectangular, sobressaía um prato de latão, de Nuremberga, e uma pequena caixa de ébano, que guardava o relato da viagem e a crónica dos primeiros anos do povoamento. Tapeçarias flamengas cobriam a parede do fundo.

Ali o capitão Zarco recebia os povoadores, distribuía terras de sesmaria e transmitia as ordens do donatário, que um homem da sua confiança lhe havia lido, por ser de poucas letras. Recebeu também, nesta sala, os quatro fidalgos enviados pelo rei, a seu pedido, para que as suas filhas pudessem casar, de acordo com o seu estatuto social.

Visitavam-no, com regularidade, nobres senhoras e moças de baixa condição, principalmente quando a capitoa ia ouvir missa em Santa Catarina. Com elas conversava pouco. Determinado, conduzia-as da sala de visitas ao leito de altos espaldares, onde se deleitava, avistando o denso arvoredo que ia desbravando com garra e engenho.

Acolhia também uns frades mendicantes a quem dava esmolas e pedia que rezassem pela salvação da sua alma.

Em dias de invernia e de ribeiras caudalosas, o capitão bebia bastante vinho numa taça de prata. Tinha dificuldades em enfrentar uma tempestade em terra. No mar, nunca se deixou amedrontar. Angustiava-o ver tanta água a escorrer das montanhas e a levar a terra arável para as profundezas do oceano.

Bêbedo, deitado sobre peles puídas no chão da sala, maldizia o destino, desde que partira de Lisboa para povoar a ilha do «espesso negrume». Atribuía culpas ao infante e ao rei, por terem incentivado e patrocinado a viagem para as ilhas. Em 1420, obrigara a sua mulher e três filhos de pouca idade a virem com ele, pensando na fortuna e fama e não nas muitas agruras do quotidiano, naquela rocha no meio do mar. Reservara para si as melhores terras, mas grande riqueza ainda não possuía. Do senhor do arquipélago recebera reconhecimento e privilégios. Até uma carta de armas o rei lhe concedera. Agora tinha o seu brasão, a atestar a condição de nobre. O lugar do Funchal era já vila, prova irrefutável do sucesso do povoamento da capitania, que lhe tinha sido doada. Contudo, temporais na ilha acompanhados com muito vinho toldavam-lhe o juízo. Injustificado sentimento de revolta tomava conta da sua mente. «Lisboa era a grande culpada, por querer povoar a Madeira» – vociferava o capitão, depois de arrotar ruidosamente.

Atordoado, interroguei-me se já teria ouvido semelhante acusação. De repente, deixei de «sentir» e efabular. Não tinha mais interesse em vaguear na fantasia absurda de ‘Nini’.

Sem planear, dei-me a corrigir mentalmente a disparatada história da casa de Zarco no Ilhéu, enquanto pensava ser, porventura, minha sina emendar asneiras de quem escreve sobre História, sem saber nem estudar.

Primeiro, a construção da fortaleza de Nossa Senhora da Conceição foi ordenada em 1652 e as obras decorreram no terceiro quartel do século XVII.

Nunca Zarco residiu no Ilhéu, muito menos numa fortaleza concluída quase dois séculos depois da sua morte.

Sobre a presença de Zarco no Ilhéu, Jerónimo Dias Leite escreveu que Zarco e os seus homens, na primeira noite na baía do Funchal, «fizeram de cear num dos Ilhéus, de muitas aves que tomaram» e depois «foram dormir aos barcos». Isto é, fizeram uma fogueira num dos Ilhéus para assar as aves que tinham matado, comeram e voltaram às embarcações, onde pernoitaram.

No dia seguinte, conforme narrou o primeiro cronista madeirense, o capitão dedicou-se ao reconhecimento da costa sul até ao Cabo do Girão. Depois regressaram ao Funchal, tornaram ao «Ilhéu da noite passada» e «dormiram nos batéis a ele abrigados».

Os ilhéus serviam de abrigo aos navios. Assim aconteceu durante séculos.

A primeira casa de Zarco e da sua família foi construída, em madeira, num alto, à beira-mar, «no cabo do vale do funcho ao longo da primeira ribeira deste prado», onde a capitoa Constança Rodrigues fundou uma capela dedicada a Santa Catarina.

Finalmente, João Gonçalves Zarco não foi colonizador, mas povoador, pois ninguém habitava o arquipélago da Madeira, quando aqui se fixou.

Tanta asneira numa só página, e em português e inglês! «Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?» – é ditado que se aplica ao escrevinhador destas lérias. Mas também poderia dizer que «a ignorância é atrevida» (e perigosa!).


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.