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A loucura colectiva que ataca o verão tem um nome institucionalizado e funciona como um vírus que por um tempo corrói as cidades e mancha a sua fisionomia. Chama-se Turismo. Viajar é um direito, como o direito à liberdade, à saúde, à habitação, esses requisitos inerentes à sobrevivência da espécie humana, garantes da sua dignidade e amor-próprio, ou autoestima, como agora se diz. Porque viajar representa uma vertente do prazer de quem se desloca, muda de ambiente, de rotina, para alivio das pressões diárias e procura o remanso das paisagens, a luz das praias, a história dos locais, e a sua diversidade de costumes e estilos de vida, o Turismo adquire então um nome adequado que a riqueza da língua portuguesa engendrou para designá-lo: Ludambulismo. Significa exactamente a experiência lúdica de quem pratica ambulatório por diversão.
O Ludambulismo apresenta duas facetas opostas e controversas que o tornam num dilema de difícil solução. Por um lado converge na economia das populações e dos países, o que é desejável; por outro lado, alastra numa onda verdadeiramente assustadora, contaminando o sossego e a pureza dos lugares, deformando a visão da beleza que a própria publicidade apregoa. abalando a tranquilidade dos seus habitantes.
Esta é uma realidade que ninguém pode contestar por ser tão evidente e cada vez mais preocupante. Deseja-se a viagem, mas lamenta-se em muitos casos a contrariedade provocada pelas multidões infestantes que nos atropelam, obstruem as ruas, anulam a sua perspectiva e impedem o acesso fácil aos locais.
Como sendo um lugar privilegiado pela natureza de tudo quanto a salienta ao longo dos tempos, Veneza é um desses locais. A Veneza que tanto me atrai desde há muitos anos, que me tem ocupado a alma e os sentidos, que me estimula a verve e o sentimento, a Veneza lugar comum dos sonhadores e dos sugadores de mitos, a Veneza dos «palazzos» sobre a água, do ouro antigo, das pontes miniaturais, da elegância bizantina, da explosão barroca e do arabesco, esse monumento arquipelágico que tanto me fascina, deixou-me há poucos dias o sinal duma pequena amargura. Se ainda existem os que lá vão pelos muitos sortilégios que a distinguem de outras cidades, há aqueles que as invadem com a euforia dos desgarrados, os colecionadores de «seifies», na corrida tumultuosa às gôndolas, aos cafés, bares e esplanadas, os que passam indiferentes pela casas de Goldoni, Tintoretto, D´ Annunzio e Vivaldi, as duas últimas transformadas em hotéis de charme e ignoram o potencial desses enormes criativos que, entre tantos outros e em diferentes áreas, constituem o manancial anímico de Veneza.
Chusmas de jovens eufóricos, consumidores de Spritz e Bellini, festejam o lado laico e cosmopolita da cidade, com todo o direito da sua alegre condição, mas confrange-nos o alheamento com que monopolizam os lugares, o ruído com que desestabilizam a nossa preferência pelo silêncio e concentração.
Não retiro a ninguém o seu modo particular de vivenciar os seus próprios prazeres, mas não escondo a verdade dos excessos que a condição do Turismo sem freio cria nos lugares, que não se restringe apenas à Veneza dos meus desejos, mas a todos os territórios que sofrem essas enchentes desestabilizadoras da vida normal das populações. O meu país, a minha terra de origem, a ilha do meu sangue, são também pacientes destes constrangimentos.
Os dilemas existem e há que repensar nas suas causas. Em questão está sempre o ponto de equilíbrio dos contraditórios. O povo costuma dizer, na sua sábia filosofia muitas vezes menosprezada «nem tanto ao mar, nem tanto à terra». O que peca por excesso tem como remédio o bom senso da contenção.
Veneza, sim. Mas no próximo ano em vez de ir a San Marco, vou ao norte de Cannaregio ou ao sul de Dorsoduro.
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