Helena Mota
O presidente da República foi cúmplice, até agora, de todas as políticas do Governo de Costa. A crítica é de Alberto João Jardim, para quem o atual clima de tensão entre Marcelo Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro é apenas uma forma de “entreter” a opinião pública. O ex-governante chegou mesmo a descrever os últimos eventos de “palhaçada”.
João Jardim, que falava, esta terça-feira, no final de uma conferência sobre a Europa, na Escola Básica com Pré-escolar e Creche dos Louros, entende que ambos os órgãos de soberania têm responsabilidades na atual situação política por adiarem as reformas necessárias em sectores estruturantes.
“É uma gente que está há mais de 50 anos para decidir um aeroporto. Agora, puseram o povo unido a dar sugestões. Isto representa o que é a política de Lisboa.”
O ex-líder do PSD-M atribuiu o clima de instabilidade à falta de visão e de vontade das forças políticas nacionais para uma alteração de fundo da Constituição, porque a atual situação “serve aos senhores que estão no poder e aos aparelhos partidários, todos sem exceção, a começar pelo meu”, acusou.
Para João Jardim, o processo de revisão constitucional em curso é insuficiente, seguindo a lógica anti-reformista do primeiro-ministro. “Ele foi claro, é contra reformas estruturais. Acha que o país está bem assim”, criticou.
Os fundos
O ex-presidente do Governo Regional falava no final de uma conferência sobre os impactos da integração de Portugal na União Europeia, nomeadamente para o desenvolvimento da Madeira.
Explicou aos alunos e professores da Escola Básica com Pré-escolar e Creche dos Louros como foi liderar o processo europeu numa região insular e ultraperiférica, marcada por atrasos estruturais económicos e sociais. A mudança de mentalidades, o pilar da estratégia autonómica, exigia fundos, pelo que a entrada na União Europeia, recordou, foi fundamental para garantir financiamento à realização de obras que retiraram a região de séculos de atraso e garantiram o rumo ao desenvolvimento. Destacou o caso da Universidade da Madeira, como pólo de suporte científico às empresas e à investigação, bem como de fator promotor de equidade social, referindo as centenas de jovens que todos os anos têm acesso ao ensino superior e a uma formação académica diferenciada.
A dívida
Numa alusão às críticas frequentemente atribuídas aos seus governos, de excessivo betão e da dívida , na sequência da qual a Madeira teve de respeitar um programa de assistência financeira com pesadas medidas fiscais para madeirenses e porto-santenses, João Jardim justificou-se com a necessidade de garantir as comparticipações financeiras necessárias à obtenção dos fundos comunitários. “Ter dinheiro à disposição e não aproveitar era um crime”. E ironizou “Queriam estradas de terra e escolas feitas de folhas de bananeira?”
Com o recorde de longevidade à frente de funções governativas, 35 anos, Jardim aproveitou a ocasião para exortar o atual Governo Regional a fazer uso de prerrogativas conquistadas para as regiões ultraperiféricas, durante os seus mandatos, como é o caso do princípio da excecionalidade, o qual, no seu entender, deveria ser acionado para resolver o impasse em relação à Zona Franca da Madeira.
A estagnação
O político e jornalista, agora aposentado e afastado das lides partidárias, fez ainda uma leitura da atual situação europeia, considerando que o espírito europeu sonhado por Jacques Delors está a estagnar, fruto de uma lógica individualista que tem exacerbado fenómenos nacionalistas e extremistas.
“Deixou de haver causas. Desde 2008, com a crise financeira, os países passaram a atuar de forma egoísta”, explicou, avançando que a Europa precisa de valores democráticos para continuar a ser um projeto comum de paz e de união.
Jardim enalteceu o papel da escola na promoção da dimensão europeia, através dos vários programas Erasmus+ em que participa, salientando a importância das relações humanas e de proximidade na construção de projetos comuns, mesmo de cariz internacional.
A conferência, organizada pela comissão de Honra das Comemorações dos 35 anos da escola, contou com a colaboração do Clube Europeu com o objetivo de assinalar o Dia da Europa, comemorado a 9 de maio.
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