Café Relógio abandonado e degradado espera por um verdadeiro mecenas

O Café Relógio à espera de um mecenas… Fotos DR.

Há dois anos que o característico Café Relógio, na Camacha, fechou portas ao público. Cobriu-se de um manto ensurdecedor de silêncio e, ao longo deste tempo, vai somando a degradação diária e sucumbindo ao abandono e degradação de um imóvel emblemático da memória coletiva da Camacha e até da Região. A questão que se coloca é: quem olha pelo Café Relógio, ou seja, quem verdadeiramente vestirá a camisola da defesa da cultura de um povo que está a morrer pela incúria?

Há dois anos, a assembleia de credores ditou a sentença final do Café Relógio: 40 funcionários com ordenados em atraso e credores a reclamarem dívidas de mais de 2.5 milhões de euros. Pedido de insolvência para o Tribunal da Relação e outras narrativas de triste memória, certamente ainda por litigar e dirimir. Histórias de vida encerradas, de forma compulsiva, sem apelo nem agravo. Quem as escuta? Uma história nada edificante a fechar, injustamente, um longo percurso de homenagem à cultura madeirense, nomeadamente à obra de vimes que tão bem foi divulgada no emblemático Café Relógio.

Num momento em que na Madeira se pasma com a circulação etérea de subsídios a pacote – bazucas digitais e outras – pergunta-se: será que é importante preservar uma referência do património local que era o ponto de encontro de turistas e madeirenses, durante décadas, no coração da Camacha? Basta só falar com muitas guias de turismo e perguntar-lhes a opinião dos turistas sobre este ponto de paragem obrigatório, num hino à cultura local. E a tantos outros madeirenses anónimos que ali passavam para o cafezinho da tarde ou para a ceia  ao som do folclore…

Por vezes, ressalta nos discursos a necessidade de recuperar a não menos importante Pastelaria Felisberta, esta já no coração do Funchal. Nada a opor, mas que dizer do Café Relógio, de 1896 até aos dias de hoje, com uma missão valiosa de divulgação das tradições locais, nomeadamente a obra de vimes? Que legado se deixará às gerações futuras para além da efémera sedução das tecnologias e do mediatismo das obras para consumo imediato?

O Café Relógio degrada-se a cada dia que passa e continua à espera de um verdadeiro mecenas.