Estepilha: Exército com poucos “ovos” para fazer omeletes

Rui Marote
O Estepilha foi surpreendido pela curiosa e recente notícia de um “levantamento de rancho” pelos praças do Exército no RG3, insatisfeitos com as condições de labuta.
Estou à vontade para falar deste assunto, pois cumpri o meu serviço militar em Moçambique, em Lourenço Marques, na Escola de Aplicação Militar Boane.
Durante o período de recruta houve duas ou três vezes  levantamentos de rancho. Recordo um oficial de dia, um alferes, que quando presenciou  um levantamento de rancho, ameaçou um dos cabecilhas com uma pistola apontada à cabeça.
“Meu alferes, porque não começa por perguntar quais as razões do levantamento de rancho?” Questionaram-no. O jantar de hoje é bacalhau: veja se tem bacalhau? Não tem!… Onde está o bacalhau que devia estar aqui? Resposta: Na mala do carro dos responsáveis do rancho.
O alferes foi ver e verificou que o fiel amigo estava na mala do carro. Pediu desculpas e obrigou a cozinha a efectuar nova refeição. Isto era muito grave, no meu tempo…
Hoje o prato de alumínio, a que chamávamos um disco de 90 rotações, foi substituído por um prato de loiça  “Vista Alegre”. O copo era um “caneco” de alumínio. Hoje é de vidro talvez “pirex”.
Lembro-me que antes da refeição ser servida, o oficial de dia provava, para saber se a mesma estava em condições de ser servida. Hoje tudo isto passou à história. Até máquina de lavar pratos existe e as condições de higiene são outras.
Compreendo as razões do descontentamento dos praças. O que não entendo é este inédito levantamento de rancho que não tem nada a ver com o rancho. Antigamente os levantamentos de rancho tinham a ver com a má qualidade ou ausência da comida!
Se fosse oficial de dia, tomava a seguinte decisão: Não querem comer, não comem, e está encerrado o refeitório. Podem protestar de outra maneira.
No quartel de São Martinho cinco dezenas de soldados recusaram almoçar na messe. Foi a resposta dos praças a situações de abusos de poder e imposição de serviços de 24 horas. Hoje o serviço militar é voluntário, vai quem quer… Mas rancho é rancho, Estepilha!, não o misturem com outras coisas…
Hoje os recrutas juram bandeira com 1 mês de serviço, especialidade 1 mês… No tempo dos “fenícios” era um ano. a recruta e a especialidade. Missões no estrangeiro são meses, no máximo. Ainda se queixam. Fiz 4 anos e seis meses de serviço militar…
Reivindicar por abusos de poder e 24 horas de serviço, com um levantamento de rancho… Antigamente iam todos para a ilha da “Xefina” (prisão militar em Moçambique)…
Porém, até se percebe o descontentamento. Os serviços militares têm hoje poucos “ovos” para fazer omeletes. Porém, mantêm estruturas idênticas às de tempos áureos… É a mania das grandezas.