A religião e os sacerdotes

Na Religião tal como a Política cada um é livre da escolha, e eu respeito o credo de cada um, assim como com a Política. A nossa amizade nunca deve estar subordinada a este ou aquele.

 Na minha vida, toda a família quer materna, quer paterna era devota católica, especialmente as minhas duas avós. Recordo-me que ia com os meus pais à missa e de assistirmos às grandes procissões da Semana Santa em Lisboa, e outras vezes aqui na Madeira, na Ponta Delgada. Mais tarde, na minha infância, fiz em Ponta Delgada a 1ª comunhão com o Padre Cardoso, e os meus pais levaram-me ao Bispo do Funchal, cuja residência de férias era a Quinta do Sr. Bispo D. António Manuel Pereira Ribeiro, em frente da nossa Casa do Ladrilho. Dele recebi uma peanha com a imagem de Nossa Sra. de Fátima, que guardo com zelo.

O sacramento do Crisma, já adulta, recebi na igreja de Santa Luzia no Funchal. Nesses tempos não existiam os livros da Catequese, apenas as senhoras catequistas ou as nossas mães nos ensinavam a rezar.

Na adolescência, semanalmente, frequentava à igreja do Socorro ou Santa Maria Maior, onde conheci o Padre Laurindo, já bastante idoso, mas cujas homilias eram como conselhos. Então, acompanhava quase sempre com meu pai as visitas de sacerdotes seus amigos, tais como o Padre Fernando Augusto da Silva, esse erudito já em idade avançada, que pouco falava e ouvia, mas que tinha sempre um caderno para o visitante escrever as perguntas e ele poder responder. Eram umas tardes muito agradáveis e em que se aprendia sempre.

Outro sacerdote amigo, em Campanário, era o Padre Antero de Faria e Sousa, onde passávamos grandes tardes, e em cuja biblioteca meu pai se encantava.

Outras vezes era um encontro com o Padre Eduardo Pereira, na rua do Bom Jesus, ele que era um cientista com obra feita, mas não tão grande como a do Padre Fernando, com o Elucidário Madeirense.

Na família tivemos o padre Silvano Jardim que foi pároco na Ponta Delgada, um homem viajado também porque tinha o irmão mais velho, Vasco de Sousa Jardim, fundador do semanário “O LUSO-AMERICANO” em Newark, New Jersey, um jornal de grande tiragem nos Estados Unidos da América, do Atlântico ao Pacífico. Este nosso parente também esteve em Porto Santo e a ele se deve a construção da Capela da Graça.

No liceu, tive vários sacerdotes, na disciplina de Moral: o Cónego Camacho, um encanto de pessoa, aulas de que todos gostávamos; depois tivemos como Prof.de Moral o Cónego Fulgêncio, um senhor que carregava uma pasta também grande e pesada, e que continuava a usar a batina até aos pés.  Tinha um andar cambaleante e as suas aulas não nos despertavam grande interesse. Um dia, o António Maia lembrou-se de pintar a cadeira de braços, em cima do estrado, de giz. Quando o Cónego entrou, ao sentar-se levantou-se uma nuvem de pó e ele começou a vociferar, e mandou toda a turma para a rua com uma falta de castigo!

Felizmente no ano seguinte tivemos um novo professor, o Padre Maurício de Freitas, um sacerdote com quem podíamos conversar, um espírito aberto e que descia até nós. Todos chorámos ao recebermos a triste notícia do seu trágico falecimento. Ele tinha estudado também em Roma e possuía uma enorme biblioteca que os familiares e colegas quiseram mudar para outro local, porém, por estranho que pareça, de cada vez que tentavam levá-la para outro sítio nunca o conseguiam, pelo que ela permanece onde ele a deixou.

Um outro sacerdote, poeta, o Padre Alfredo Vieira de Freitas, nascido na freguesia de Gaula e que no Seminário diocesano tirou os Cursos de Humanidades Filosofia e Teologia. Foi professor de Português e de Literatura Portuguesa durante quase meio século. Era um sacerdote muito simpático e bom trato (conhecido pelo Padre dos “olhos bonitos ” e que já em estudante fora   colaborador da “Mocidade”, órgão mensal da antiga Escola de “Artes e Ofícios” do Funchal. Colaborou no “Jornal da Madeira ” e na “Revista Portuguesa”, nesta sob o anagrama de Viriato. Tem várias obras publicadas, como: “Era uma vez na Madeira -Lendas , Contos e Tradições da nossa Terra “, e “Amadis de Gaula”.   Em 2016, o Arquivo Regional recebeu o acervo histórico, literário e cultural do Padre Alfredo Vieira de Freitas, constituído por livros, jornais e vários documentos.


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