Testemunho de um ucraniano casado com uma russa: invasão é “fascista e genocida”

Luís Rocha (texto e fotos)

O FN foi à procura de uma perspectiva pessoal, menos institucional, sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. E conversou com Volodymyr Markevych, ucraniano, casado com uma russa, com dois filhos nascidos na Madeira. A família está há anos perfeitamente integrada na nossa sociedade. Volodymyr tem actualmente um laboratório de próteses dentárias no Funchal, mas, antes de se estabelecer nesta área de apoio à odontologia, não hesitou em trabalhar na construção civil e em outros trabalhos quando emigrou da Ucrânia para Portugal e depois para a RAM, em busca de melhores condições de vida. Desse tempo ficou-lhe uma séria força física que pode não ser imediatamente aparente. Vivendo uma vida sob o signo do esforço e da simplicidade, construiu um lar no Ocidente, num lugar onde encontrou trabalho e paz. Hoje olha com mágoa para o que está a acontecer à sua terra natal. As raízes dos seus filhos dividem-se entre a Madeira, a Rússia e a Ucrânia. Para ele, a invasão russa trata-se de um conflito sem justificação, marcado pela arbitrariedade e pelo totalitarismo. Dá-nos conta de ecos também da comunidade russa, no país e no estrangeiro: a reacção de muitos russos é de vergonha e de angústia com o que se está a passar, mas também há quem, lá longe, embarque nas justificações de Putin. Para esta família hoje madeirense, o que se vê à distância é angustiante. Mas Volodymyr diz que tem também recebido muitas manifestações de solidariedade. Aqui fica a nossa entrevista, o retrato do que pensa um cidadão comum.

Funchal Notícias: Volodymyr Markevych, você é ucraniano, vive na Madeira há muito tempo, tem uma família multifacetada, é casado com uma russa, tem dois filhos madeirenses… Está perfeitamente integrado no Ocidente… Como vê esta situação que se está a passar no seu país, esta invasão por parte da Rússia?

– A invasão da Rússia não tem a mínima desculpa. É uma invasão fascista e genocida, porque estão a massacrar a população civil. A Ucrânia está a defender-se, não só a ela, mas também a defender as fronteiras de toda a Europa. Agora, entre a Europa e a Rússia, é a Ucrânia que faz barreira. Se a Ucrânia não se conseguir defender, será a Polónia a seguir, e os outros países…

FN- Acredita que é intenção de Vladimir Putin recuperar território perdido da antiga União Soviética?

– Não só recuperar. Ele quer mandar em tudo. Quer apoderar-se do mercado internacional. O mercado energético, ele já controla. Quando ele atacou em 2014, os países europeus poderiam ter-se manifestado de uma forma mais séria. A Europa só reagiu nos primeiros meses, mas depois, com a dependência da Rússia para os seus recursos energéticos, a Europa (ocidental) afastou-se. Putin sentiu-se à vontade, sem castigo por roubar a Crimeia e ocupar territórios do Leste da Ucrânia, e durante oito anos planeou outro ataque. Os rapazes que hoje em dia ele mandou atacarem a Ucrânia, há oito anos atrás eles tinham 10, 11, 12 anos. E já começaram a ser influenciados, enquanto crianças, no sentido de que os ucranianos são nacionalistas, são fascistas, etc. O que acontece é que essa doutrinação meteu-lhes na cabeça que a Ucrânia é uma ameaça para a Rússia.

FN- Na sua opinião, não existe nenhuma razão da parte de Putin, quando acusa o governo ucraniano de ter neonazis, extremistas de direita?

– Claro que não. O que eles transmitem é mentira. A minha esposa é da Rússia, visitou a Ucrânia várias vezes, fala em língua russa, e isso nunca fez qualquer diferença, ela nunca foi perseguida na Ucrânia por ser russa… Metade da Ucrânia fala russo…

FN- Mas no Leste da Ucrânia há russófonos que desejam separatismo…

– Eles foram influenciados. Não se tratava bem de separatismo. Aquelas pessoas que estão lá no Leste ficaram praticamente prisioneiras da situação. O povo quer simplesmente sobreviver. Infelizmente há lá dez mil ou mais pessoas que foram corrompidas pelos russos… mas de certeza que foram pagos para isso. Quando a Rússia meteu lá armamento e tropas, aquelas pessoas que ficaram lá sob ocupação russa, queriam simplesmente sobreviver. Aceitaram viver assim. As populações que foram libertadas pelas tropas ucranianas não quiseram voltar para a Rússia. Ficaram sob a tutela do nosso governo. Hoje em dia, a Ucrânia depende muito do apoio da comunidade mundial. A Ucrânia está a defender-se, o patriotismo não falta, há pessoas que esperam para ser chamados e foram aos quartéis militares inscrever-se, mas falta armamento.

FN- O Ocidente, neste momento, está a fornecer armamento à Ucrânia. Acha que isso é um passo no sentido certo?

– É um grande apoio. Se não fosse isso, a Ucrânia já não conseguiria defender-se. Entretanto, os russos gastaram quanto? Um mínimo das suas reservas militares… Os ucranianos destruíram cerca de 300 tanques, e a Rússia tem disponibilidade de mandar para lá dez mil… Neste caso, a Ucrânia precisa de muito mais armamento para defender-se.

FN- E o envolvimento da NATO nesta matéria? Como o vê? Vladimir Putin apresenta como justificação para as suas acções o facto de, progressivamente, a NATO ter-se aproximado cada vez mais das fronteiras da Rússia, absorvendo países que faziam parte do antigo bloco soviético. Ele encara isso como uma ameaça à Rússia. Acha que existe alguma razão nesta argumentação?

– A NATO procura caminhos legais para não se envolver numa situação de confrontação directa. Mesmo fornecendo armamento, eles procuram vias para depois não serem incriminados, através de ligação directa de influência física no terreno. Sempre foi assim. As sanções internacionais que foram tomadas contra a Rússia estão a funcionar, mas a Rússia tem de ser isolada completamente. Se bem que os europeus procurem proteger o bem-estar de cada país, dado dependerem energeticamente da Rússia. Ninguém quer que esses países entrem em caos, por falta de recursos energéticos.

FN – O problema aqui está no receio, por parte dos líderes ocidentais, de que uma confrontação directa com a Rússia pudesse sofrer uma escalada para uma guerra mundial. O que é um perigo real, pois Putin tem armas nucleares na mão.

– Exactamente. Há dois adversários com armamento nuclear. NATO tem as suas bases espalhadas por todo o mundo, expostas aos primeiros ataques da Rússia. Se se chegar a uma situação de lançar mísseis nucleares, ninguém ganha. Todo o mundo perderia.

FN – …portanto, o Ocidente está a refrear-se, está a tentar isolar a Rússia com sanções económica e financeiras. De facto, neste momento a Rússia está cada vez mais isolada. Acha que essas sanções vão resultar?

– Vamos ver. As sanções ainda não estão a fazer efeito total. Já o começam a fazer. Mas, enquanto as pessoas pensam nas sanções, o povo da Ucrânia está a morrer. Putin mandou imensas tropas para a Ucrânia. Segundo as contagens, os russos já perderam mais de 15 mil soldados. Os russos negam, dizem que morreram apenas por volta de 500 soldados, contratados. É uma mentira para o país inteiro. Mas isso é normal, por parte da Rússia, mentir sempre.

FN- O que acha então que vai acontecer à Ucrânia? Há patriotismo, há vontade de lutar, mas há uma grande desproporção de forças. O que se tem apontado é que Putin provavelmente quererá colocar na Ucrânia um governo fantoche, que lhe obedeça, mas o que se adivinha é que, dada a extensão do território da Ucrânia, o seu nacionalismo, a experiência prévia em resistência, que já vem da Segunda Guerra Mundial, seria difícil e dispendioso para os russos dominar permanentemente a Ucrânia sem enfrentar uma constante insurgência, a longo prazo…

– Isso é muito relativo. Na minha opinião, a Ucrânia só poderá resistir enquanto tiver as suas tropas, enquanto tiver soldados para lutar. Por outro lado, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, não decide sozinho nesta situação. Está guiado também pela opinião dos países ocidentais que o apoiam. Se lhe disserem que já não há meio de o ajudarem mais, então o que ele vai fazer? Claro que vai chegar a um acordo com os russos. Mas se os russos percorrerem metade da Ucrânia, não voltarão para trás. Acontecerá com toda a Ucrânia a mesma coisa que com as duas regiões de Donetsk e Lugansk, e com a Crimeia.

FN – Mas pode acontecer que os russos fiquem sempre sujeitos a uma resistência armada clandestina. O que pode ser desgastante para os russos.

– Pode acontecer. Mas e se estancar o fornecimento de armamento? As pessoas que poderiam fazer ataques clandestinos, como os poderiam realizar, se a Rússia isolar as fronteiras da Ucrânia do exterior? Isso torna-se muito difícil.

FN – Como toda a gente, você, Volodymyr, deve temer a escalada do conflito a uma guerra mundial, um conflito nuclear. O presidente da Ucrânia pediu o controlo pela NATO do espaço aéreo ucraniano, uma “no fly zone”. O presidente russo disse que se isso fosse implementado, seria o equivalente a uma declaração de guerra. Porque na prática, isso equivale a abater aviões russos.

– Exacto. Seria a mesma coisa que mandar tropas da NATO para o território da Ucrânia.

FN – Acha, então, que este pedido do presidente ucraniano faz sentido?

– Infelizmente a NATO tem medo de enfrentar a Rússia. Senão, já o teria feito há oito anos. E se o tivessem feito nessa altura de outra maneira, teriam talvez conseguido resolver melhor a situação. Hoje em dia, é mais difícil. A Rússia teve tempo para pensar, preparar armamento, estratégia… Se ninguém ajudou a Ucrânia a recuperar a Crimeia, os territórios ocupados no Leste, então é muito duvidoso que agora vão fazer frente à Rússia. Putin disse que poderia usar armas nucleares, e toda a gente ficou com medo. Ninguém quer enfrentar um louco e apanhar com dois ou três mísseis nucleares, que destroem um país inteiro…

FN – Mas acredita que com o isolamento internacional e as sanções económicas, e o facto de até os oligarcas russos estarem a ver os seus bens no Ocidente congelados ou apreendidos, Putin estará a sofrer pressões internas no sentido de resolver a situação? Será que poderá recuar de alguma maneira?

Não. Só se algum general ou alguém poderoso, próximo dele, tiver coragem e simplesmente o eliminar. Só assim é que poderá acabar. Se não for morto, irá sempre actuar. Quanto aos grandes empresários, os oligarcas, se entrarem em desacordo com ele, acho que ele não se importaria de os eliminar e apossar-se dos seus bens. Ele não se importa com as vidas humanas. Mais um oligarca, menos um oligarca… Os bens do oligarca eliminado passariam para o controle de Putin. Ele não tem piedade.

FN – Acredita que Vladimir Putin tem toda essa força, esse poder dentro da Rússia?

– Então não tem! Ele está sempre a mudar os generais, os militares… Ele não só substitui pessoas, ele elimina-as. Hoje pode ser-se um general a comandar as tropas, e amanhã é-se um zé-ninguém, e já se foi abatido. Dá-se o lugar a outro.

FN – Conhece, naturalmente, gente na Ucrânia que está a ser afectada directamente por esta situação… Chegam ecos das pessoas que têm de fugir, de abandonar as suas casas?

– Há pessoas que já perderam a vida. Outros que perderam todos os seus bens, mas conseguiram escapar. Há pessoas que estão reféns, não conseguem passar por zonas bloqueadas pelo impacto militar. Os caminhos, as estradas, são constantemente bombardeadas pelos russos. E as pessoas simplesmente não conseguem sair. É uma tristeza. Mas o povo ucraniano também está bastante agradecido. A Europa reagiu, o mundo uniu-se. Há uma grande ajuda humanitária. A Europa está a acolher refugiados. Dão-lhes a possibilidade de integrar-se na sociedade, com todo o apoio. Isso é uma grande ajuda. Se não fosse isso, seria uma catástrofe. Mesmo assim, já o é, porque estão a sair milhares e milhares de pessoas.

FN- Muitas pessoas terão literalmente que recomeçar do zero…

– Exactamente. Mas quem perdeu a vida já não tem a possibilidade de recomeçar. Quem ainda está vivo e tem vontade de trabalhar, pode conseguir fazê-lo. Embora, para quem perdeu familiares, isso seja muito mais difícil.

FN – Tem conhecimento das reacções dos russos que estão contrários a esta situação?

– Claro. Há muitos que estão contra. Vêm para a rua, fazem manifestações, apelam pela paz e querem que a guerra pare, e que os seus filhos não morram nessa guerra injusta. Mas o governo russo não dá ouvidos a ninguém. Agora até emitiram uma lei que pune quem se mostrar contra a guerra, que poderá apanhar até 15 anos de prisão, porque é considerado um revoltoso. Já há milhares de pessoas presas na Rússia, só por ter uma opinião. Lá funciona um regime fascista, do tipo estalinista, que massacra o próprio povo.

FN – Não acredita numa insurreição dos russos?

– O povo russo só conseguiria salvar-se se a maioria se revoltasse. Se não ficarem parados vendo o filho do vizinho morrer agora na Ucrânia. É que para o ano, o seu próprio filho pode fazer dezoito anos e ir para lá, também. Há pessoas caladas. Mas o povo russo tem de levantar-se agora. Unir-se. Enfrentar esses polícias, aqueles grupos de reacção rápida que acorrem às manifestações. Lutar pela democracia. Porque agora na Rússia, não há democracia, é um país de regime rígido, onde muitos têm medo de abrir a boca e dizer a verdade. Embora muitos percebam o que se passam. Mas temem ser perseguidos pelo governo.

FN – O presidente ucraniano, Zelensky, tem dado nas vistas pela liderança que tem exercido em tempos difíceis. Que ideia tinha dele antes deste conflito?

– Como presidente, ele é muito jovem, e sem experiência política. Claro que nos primeiros tempos foi difícil para ele como líder, e também foi para o povo. Ele não era um político experiente. Mas as pessoas votaram nele porque queriam algumas mudanças para melhor. Tiveram esperança de que uma pessoa mais simples, mais humilde, liderasse o país e o tornasse mais bem sucedido. Foi esse o seu encargo. Acho que estava a lidar bem com o cargo de presidente. Mas agora, é muito difícil ser presidente de um país sob ataque. Como líder, como não está a vender o país, como não está a render-se, ele procura todo o possível para defender a Pátria, para receber a máxima ajuda possível. Tudo isso fica a favor dele, claro, e o povo está agradecido, de certeza. Todo o povo da Ucrânia apoia-o completamente.

FN – Não acredita que pudesse ser uma solução eventual para este conflito, se o governo da Ucrânia entrasse num compromisso com a Rússia do tipo: Nós não aderiremos à União Europeia, não aderiremos à NATO, manteremos um estatuto de, digamos, neutralidade, para funcionar um pouco como um “tampão” entre a NATO e a Rússia. Achas que isso poderia apaziguar Putin, ou não seria suficiente?

– Penso que os grandes e poderosos poderão chegar à conclusão que querem congelar esse conflito e aceitar algumas exigências da Rússia. Mas acho que essa não é uma solução muito boa. Por um lado, pode parar a guerra, a mortandade. Mas é preciso perguntar a esse povo que está na linha da frente, aos soldados que estão a morrer todos os dias, o que é que eles querem. Se querem ser escravos, ou lutar pela liberdade. Porque para muitas pessoas, é disso que se trata, é de uma questão de honra. Eles estão a lutar pela liberdade, pela democracia e pela paz. Os russos atacam por ganância, e por falta de juízo. O povo ucraniano quer paz. Nunca atacou ninguém. Historicamente, esteve sempre a defender-se dos agressores.


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