Arrivederci Alitalia. Será mesmo?

O drama de mais uma airline legacy fechar, após 74 anos, varreu as notícias na semana passada. Efetivamente a Alitialia era uma referência do pós-Guerra, e a “flag carrier” italiana durante o século XX. Cronicamente endividada e ineficiente, flutuando com o apoio do governo italiano, afastava qualquer investidor que se preze pela sanidade de implementar qualquer mudança no status quo interno. A AirFrance e a KLM perderam uma pequena fortuna na primeira refundação da Alitalia como “Compagnia Aerea Italiana”. Foram 322 milhões de euros atirados ao ar em 2009, na mais que duvidosa privatização-fénix, que ainda serviram para tapar o buraco da financeiramente glutona AirOne que a única coisa apelativa era a (ou poder deixar de operar em) parceria com a Lufthansa. Alegadamente a Alitalia ia focar-se mais em Milão-Malpensa, mais relevante que Roma-Fiumicino. Dizia-se que a receita de um voo nem cobria os custos operacionais, e era mais racional financeiramente reembolsar os passageiros e ficar no chão. Dado que os vícios internos só engordaram com mais capital, poucos anos depois a falência estava à vista. Outro cambalacho que só lá se vê fez com que os correios italianos injetassem 75 dos 500 milhões de euros de ajuda, em vez do estado. Mas nem assim, e toca a criar uma nova Alitalia.

Em 2014 cria-se a Alitalia – Società Aerea Italiana, com a companhia Etihad Airways do Abu Dhabi a ficar com 49% do capital. No meio disto tudo a Alitalia continua a voar com o mesmo nome, mesmas cores e números de voo. E continua com a frota registada na Irlanda, tal como a (irlandesa) Ryanair que é alvo das suas críticas. O contribuinte italiano paga a diferença. A Etihad Airways muito dinheiro esbanjou na Europa cobrindo uma série de falências posteriores, como a da helvética Etihad Regional e a da Air Berlin. Descobriu-se que o governo italiano tinha alugado aos emirados um A340 para ser o avião presidencial. Este era da versão 500, totalmente inútil e sem valor de mercado. Gastaram 150 milhões de euros durante os 8 anos em que esteve em limitado serviço para o governo italiano, aos que se somam 20 milhões de reconfiguração VIP da cabine. Valia praticamente zero quando os italianos pegaram nele.

Em 2017 já estavam na bancarrota outra vez. E volta o estado italiano à carga, e durante anos a tentar reprivatizar a Alitalia, sem sucesso. Mais uma nacionalização, com os Caminhos de Ferro italianos a absorver 35% das ações, além da participação estatal. Em 2020 entra o COVID-19 e os subsídios de estado, tal como noutros países.

Chegando a 2021, já com alguma recuperação do tráfego, é altura de se ver quem é sustentável no ar e quem é que não tem asas para voar. Então acontece aquilo que qualquer jornalista investigando um pouco, depressa se aperceberia, de que não passa de mais uma manobra de sugo de fundos públicos.

A Alitalia vai à falência, inédito, um apocalipse aéreo do COVID. O governo italiano havia constituído em 2020 a Italia Trasporto Aereo S.p.A. (ITA Airways), e decide no passado Verão fechar a Alitalia. Tal é a quebra que a ITA fica com grande parte da frota da Alitalia (49 aeronaves), slots e no dia a seguir ao fecho da Alitalia opera rotas desta, com o mesmo código IATA e número de voo. Até fica na Aliança Skyteam, em vez da Alitalia.

O estado italiano pagou a si próprio 220 milhões de euros. Só não ficaram com o programa de passageiro frequente Alitalia MilleMiglia porque a União Europeia proibiu. E não deve ser motivo para infelicidade porque significa um crédito a clientes de voos grátis, ou seja, uma dívida. A base de dados, levaram-na certamente. E para apaziguar Bruxelas, anunciam uma encomenda de Airbus A330neo, que está débil em vendas.

Os aviões voarão com uma nova imagem e nome, “ITA Airways”, com fuselagem azul em honra à Squadra Azzura.

Nova Imagem da Alitalia (Fonte: ITA AIrways)

Contudo, a ITA fica em posse da imagem de marca da Alitalia, com o propósito de evitar que um terceiro a pudesse aproveitar para reincarnar a popular defunta.  Tal como as decadentes reincarnações da Pan Am e Eastern.  Só que a ITA pagou 90 milhões de euros pela marca, que afirma querer “matar”.