A perspetiva aeronáutica do 911

Este sábado ocorre exatamente duas décadas após o ignóbil ato de terrorismo que mudou o negócio da aviação. Toda a gente é capaz de dizer onde estava no momento em que soube do ataque 911, com quem estava, e quantas torres viu desabar na TV.

Os voos dos terroristas foram escolhidos cirurgicamente. Abateu-se o par de edifícios icónicos em hora de ponta no trânsito, quando uma meia hora mais tarde o “death toll” poderia ser sido o dobro ou mais, com os escritórios repletos. A hora propiciou a que o mundo ocidental visse em direto o segundo embate e a derrocada, mas na “land of the free” terá custado audiências.  A razão do madruga foi maximizar a “força da bala” e facilitar o “acesso à arma”. Os dois aviões descolaram do Aeroporto de Boston Logan, numa terça-feira de manhã, o voo American Airlines AA11 às 7h59m, o United Airlines UA175 exatamente 15 minutos depois. O AA11 embateu na Torre Norte às 8h46m, e o UA175 às 9h03m na Torre Sul, quase tendo colidido com Delta Air Lines DL2315 pelo caminho.

Estes voos foram escolhidos com muito arguto. Eram operados com aeronaves de grande porte, Boeing 767-200, em voos longos, mas rotas domésticas insuspeitas como de potencial terrorista. Ambos eram voos transcontinentais para Los Angeles, com duração típica de cinco horas. Numa terça-feira de manhã, eram historicamente pouco frequentados, o que facilitaria a tomada pela força dos terroristas, com menor risco de oposição da parte de passageiros adormecidos. Boston era uma boa origem, a 45 minutos de voo de Nova Iorque. Dava tempo para descolar, dominar a tripulação e tomar posse do avião e rumar a Nova Iorque sem “desperdiçar” combustível útil para o holocausto urbano. E mais importante, sem dar tempo para resposta ativa das autoridades após o controle de tráfego aéreo se aperceber que não está em comunicação com os pilotos, e que a rota para sul significa perigo iminente.

Ambos 767 embateram a mais de 400 nós nas torres (acima dos 700 km/h) com ainda quase 40 000 litros de combustível Jet A1 nos tanques. Estima-se que a fuselagem de 48 metros de comprimento ficou comprimida – como uma lata de Coca Cola – num disco com menos de 2 metros de espessura, em menos de 1 segundo após o impacto.

Ainda explodiram mais duas aeronaves, no Pentágono e num descampado da Pensilvânia, e caos foi tal que encerraram o espaço aéreo americano, havendo gente nas altas instâncias de decisão a querer abater tudo o que voasse. Voos a meio do Atlântico fizeram meia-volta, os que estavam perto dos EUA divergiram para o Canadá ficando os passageiros alojados em tendas e escolas durante semanas até regressarem a casa.

Aviões divergidos no dia 11 de setembro em Halifax, Canadá (David N. Hayes, National Post)

Da investigação resultou a conclusão de que bastavam meia dúzia de x-actos para 19 terroristas tomarem conta de 4 aviões dentro dos EUA e que os meios aéreos de defesa nacional nem sequer tiveram tempo de intervir. E se tivessem tido tempo de destacar um F-15 para intercetar os aviões dos terroristas, teriam feito o quê? Abatido um avião de passageiros sobre a cidade de NY à frente de milhões de espectadores? Sem certeza do que seria o alvo?

Seth McFarlane, criador do Family Guy, American Dad e filmes TED perdeu nesse dia o voo AA11 por 15 minutos apenas, porque acordou tarde da festa – rija – na noite anterior e porque a agência de viagens deu-lhe a informação da hora de partida com erro de 30 minutos.

O transporte aéreo entrou numa recessão mundial, apressando a falência da Swissair e da Sabena, por exemplo. Apertaram-se os controles de segurança nos aeroportos, reforçou-se a segurança de acesso ao cockpit, com a instalação de portas blindadas com necessidade de código de abertura (sem isso não teria “nevado” criminosamente o A320 da Germanwings nos Alpes), e passou a haver Sky Marshalls a bordo, seguranças à paisana com armas.

A todos aqueles que acreditam numa conspiração orquestrada pelo próprio governo americano para justificar as invasões de carater económico&petrolífero do Afeganistão e Iraque, e liberdade para legislar o Patriot Act, inebriados pelas falácias do Zeitgueist, e recusando como evidência os vários vídeos transmitidos em direto e as milhentas explicações de como 40 000 litros de combustível são suficientes para alimentar um incêndio capaz de destruir um edifício sem ser necessário explosivos da CIA, só há a dizer: tenham respeito pelos mais de 3000 mortos do dia, inclusive os 340 bombeiros que sucumbiram soterrados.

Quem acha que a função pública é inepta demais para emitir uma certidão de pagamento do IUC, que faça a seguinte reflexão: qualquer governo seria incompetente demais para organizar uma coisa destas, mesmo lançando um concurso público para que alguém prestasse serviços de terrorismo.

Aos negacionistas que repudiam as explicações e factos visualmente evidentes, com base de ser impossível o relato de que passageiros trocaram sms com pessoas em terra, refiro: eu já me esqueci de colocar o telemóvel em flight mode e recebi sms de registo de rede móvel em cruzeiro de uma operadora no Azerbaijão e outra na França.