Praça do Município sob ameaça

O cabeça de lista à Câmara Municipal do Funchal, pela coligação PSD/CDS, afirmou no passado dia 26, que pretendia fazer um estacionamento subterrâneo no Largo do Colégio para 1500 viaturas.

Não se trata de uma ideia nova. Nas eleições autárquicas de 2005, por exemplo, o PS incluiu, no seu programa, a construção de um parque de estacionamento público na Praça do Município, então contestado pelo PSD, que candidatava Miguel Albuquerque à Camara do Funchal. Dezasseis anos depois, vem Pedro Calado apresentar, como grande novidade, uma proposta infeliz do “Funchal para todos: um projecto do PS para a cidade do Funchal”. Todavia, enquanto a lista socialista, liderada por Carlos Pereira, sugeria, em 2005, a construção de 600 lugares de estacionamento, o candidato social-democrata aponta agora 1500. Esclareça-se que já outros haviam defendido a criação desse estacionamento, antes de 2005, e a imprensa deu conta disso.

Esta ideia peregrina faz-me lembrar uma outra, muito falada nos anos 70 e, incrivelmente, por vezes ainda defendida por uns incautos com má memória. Refiro-me à cobertura das ribeiras, já preconizada em 1915, pelo arquitecto Ventura Terra. Em 1973, a Câmara do Funchal pretendia fazer a cobertura do troço da Ribeira de Santa Luzia, entre as pontes do Bettencourt e do Bom Jesus, para criação de um parque de estacionamento. Apesar dos protestos do historiador António Aragão, a edilidade teimava em levar por diante tão desastrado intento. Felizmente, ocorreu o 25 de Abril e a vereação foi afastada.

Tanto em 2005 como agora, os candidatos à Câmara do Funchal invocaram a defesa do comércio local para a construção deste parque de estacionamento. É verdade que o comércio local necessita de clientes, mas não é certo que estes queiram as lojas tradicionais da cidade para muitas das suas aquisições. As grandes superfícies impuseram novas dinâmicas e oferecem promoções e comodidades que os potenciais clientes valorizam. Não se pode afirmar, com certeza, que existe uma relação, do tipo causa-efeito, entre a disponibilização de estacionamento e a frequência do comércio local. A realidade é mais complexa. Mas não nos afastemos do assunto principal.

A Praça do Município, tradicional e popularmente denominada como Largo do Colégio, é um espaço nobre da cidade do Funchal.

Três edifícios sobressaem neste Largo: o antigo Colégio da Companhia de Jesus com a invocação de São João Evangelista, os Paços do Concelho e o antigo Paço Episcopal, atualmente Museu de Arte Sacra, com fachada voltada para a Rua do Bispo. O primeiro está classificado como monumento nacional e o antigo Paço Episcopal como imóvel de interesse público.

A construção de um parque de estacionamento no Largo do Colégio implica a impermeabilização de uma área de grandes dimensões, que originará problemas graves na baixa funchalense, tornando-a numa zona ainda mais vulnerável em dias de grande pluviosidade. Os cursos de águas subterrâneas, residuais e pluviais serão alterados, com prejuízo da estabilidade das edificações antigas a uma cota inferior. Algumas cisternas da cidade ficarão secas.

A escavação da praça, até uns 35 metros de profundidade, para os vários pisos do parque de estacionamento, com trabalhos de desmonte e movimentação de materiais geológicos (solos e rochas), e as drenagens constituem um risco para os edifícios históricos da vizinhança, nomeadamente para a Igreja do Colégio, o Museu de Arte Sacra e outras edificações antigas da Rua do Bispo. Acrescem efeitos negativos sobre os acervos da Igreja do Colégio e do Museu de Arte Sacra.

Imagine-se a circulação constante de camiões carregados de terra e rocha, atravessando a cidade, rumo aos vazadouros, a execução da contenção periférica e a estrutura em betão armado! Um enorme estaleiro no coração da cidade! Poluição atmosférica e sonora. Insegurança. Trânsito interrompido ou demasiado lento. Um pandemónio. Será muito pior que a ciclovia da Estrada Monumental, que tantas queixas tem despertado.

Se Pedro Calado persistir neste erro gravíssimo e, por acaso, vier a ganhar a Câmara, o futuro do Funchal estará fatalmente comprometido. O engodo eleitoral, quando não é rejeitado, pode arruinar a comunidade.

Pelo mundo civilizado, a tendência é reduzir o trânsito automóvel nos centros urbanos. Por aqui, a coligação PSD/CDS quer trazer mais viaturas privadas para a baixa da cidade. Parecem desconhecer o projecto CIVITAS, ao qual o Funchal aderiu, e que preconiza a mobilidade sustentável.

O megaparque terá custos elevadíssimos. Qual será o custo-benefício? À primeira vista, e como incentivo ao comércio local, é medida excessivamente cara e incerta, que os contribuintes esclarecidos não compreendem, face às reais necessidades do município do Funchal.

Seria bom que os eleitores estivessem atentos às propostas das diferentes candidaturas às autarquias, a fim de, conscientemente, exercerem o seu direito de voto.


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