O professor Virgílio Pereira

Com a partida deste mundo do professor Virgílio Pereira, vosso estimado familiar e nosso amigo, foi destapada a unanimidade de que ele era um homem bom.

Dizer bom é a melhor expressão que se pode pronunciar a alguém que passou neste mundo, porque deixou marca de bondade. São Pedro nos Actos dos Apóstolos utilizou essa expressão para dizer de Jesus: «Ele passou pelo mundo fazendo o bem» (Actos 10, 38).

Também remonta a São Tomás de Aquino e à Escolástica esse qualificativo da bondade como particularidade de Deus. Ensinou com veemência esse tempo, que Deus é Bonum, Belum e Verum (Bondade, Beleza, Verdade). O professor Virgílio Pereira na sua multifacetada acção neste mundo praticou estas qualidades de forma exemplar.

Lembro-me de uma conversa que tivemos os dois em São Roque enquanto esperávamos pelo início de uma brilhante conferência que ele proferiu sobre valores democráticos no Salão Paroquial de São Roque. Enquanto esperávamos pela chegada das pessoas, contemplávamos o manto verde que abraça o nosso querido Funchal de uma ponta a outra e ele dizia-me apontando com a sua mão direita estendida e percorrendo em círculo numa meia volta o Concelho do Funchal, voltado para as nossas serras, – ali estão os nossos pulmões, Deus nos livre que algum dia aquilo desapareça.

Infelizmente, após essa conversa ecologicamente edificante várias vezes, tenho-me lembrado dele, porque depois disso, várias vezes os nossos pulmões têm sido martirizados com incêndios.

Outro dado relevante da vida do professor Virgílio Pereira foi a sua entrega ao ensino. Basta relevar que é conhecido na Madeira inteira por «professor Virgílio Pereira» ou simplesmente como «Professor Virgílio. Não são todas as profissões que associam a função ao nome da pessoa. Virgílio Pereira tinha o que há de melhor para definir uma pessoa, dizer-se o seu nome pegado ao trabalho ou missão que exerceu com paixão, amor e dedicação.

Todos o vimos como político. Um democrata de corpo e alma, que se destacou na vida autárquica, onde deixa um legado impressionante. Saliento dois aspectos dessa actividade:

– o primeiro prende-se com a coragem e dignidade. O professor Virgílio Pereira revelou-se um líder de trabalho, cumprindo escrupulosamente as suas promessas, coisa que hoje escasseia na vida política, visto que elas não assentam na percepção da realidade, mas em soluções rápidas e milagrosas para satisfazer os apetites eleitoralistas primários;

– o segundo é o da compaixão e ternura pelos mais necessitados, os pobres que viviam nas margens e encostas que ladeiam as ribeiras do Funchal. A libertação da opressão de famílias inteiras que foram tiradas de grutas e de pardieiros por essas encostas fora, reveste-se de um valor que só pode vir de uma pessoa sensível e visceralmente solidária com o infortúnio dos outros. Do professor Virgílio Pereira retemos essa feliz memória e não fossem as multifacetadas vertentes da sua vida onde está a bondade, a beleza e a verdade, só por esta obra de libertação, merece que nos curvemos em eterno agradecimento.

Segue a lei mais certa da existência, morre o homem, deve ficar o seu legado, o exemplo e testemunho para os que ficam. Por isso, não nos detenhamos apenas em discursos laudatórios sobre o homem que o momento da morte proporciona, mas que se levantem os motores da história para recontarem a autenticidade do que é ser político ao serviço do bem comum, em detrimento dos interesses pessoais, de grupos e partidários. Esta clarividência estava no professor Virgílio Pereira na sua vida política, por isso, deve ser agora de crucial importância relevar ainda mais estes princípios neste nosso tempo que nos ameaça com líderes populistas que utilizam o fertilizante do medo e do desânimo para fazer valer as suas investidas ao poder pelo poder. O poder que não é serviço não serve para nada, porque não liberta e não deixa legado positivo que beneficie a generalidade das sociedades.

«O homem bom», foi o professor Virgílio Pereira, que deve, lá onde está junto de Deus, regozijar-se com o prolongamento da bondade, da verdade e da beleza que compete a cada ser humano fazer valer no cumprimento escrupuloso das suas funções, seguindo os valores elementares das sociedades democráticas como ele seriamente seguiu. A sua acção na política faz-nos acreditar que pode o Bem Comum ser gerido de forma decente, civilizada e competente.