Qual será o destino do antigo espaço dos silos da EPAC no porto do Funchal?

Rui Marote
O FN desenterra hoje mais uma velha história, de um baú cheio de mofo. Alguém se recorda do antigo cais do carvão, à entrada da Pontinha, propriedade da Blandy, e que passados longos anos deu origem a construção dos silos da EPAC? Tudo feito em nome de não onerar demasiadamente os produtos, com grave prejuízo para o consumidor.
A resolução do Governo 2/82/M de 25 de Março de 1982, com aprovação da Assembleia Regional de 21 de Maio de 1982 presidida por Emanuel Rodrigues, ditou a construção dos silos para cereais, através da EPAC (Empresa Pública de Abastecimentos de Cereais) e sua implantação no Porto do Funchal. Nessa época o País passava por dificuldades económicas  e financeiras.
A obra a iniciar em 1984, da responsabilidade da EPAC, passada que  foi a fase de estudo e elaboração do projecto respectivo, seguiu em frente, sendo adquirido o terreno. Foram feitas algumas obras para facilitação do seu futuro funcionamento, que custaram mais de 300.000 contos com uma capacidade de de 16.000 toneladas, destinando-se essencialmente  ao trigo e milho importados (este incluindo também o destinado fabrico de rações) ou seja o correspondente a 3 meses de consumo da Região.
A construção arrastou-se por algum tempo.
Durante mais de vinte anos, funcionaram os silos. Mas com a entrada de Portugal na CEE, a “porta fechou”, e privatizar a EPAC Comercial, que nos primeiros meses de vida perdeu cerca de 100 mil contos, é qualquer coisa de difícil concretização.
Era preciso encontrar um mecenas e um conjunto de razões, que não parecem lógicas para algum empresário privado adquirir uma empresa deste tipo com esta história e na situação em que se encontra. É uma ideia de gosto duvidoso tentar vender a marca EPAC . É como procurar vender um título de nobreza de um velho aristocrata arruinado.
A APRAM acabou por comprar a massa falida ao tesouro nacional, por cerca de 400 mil contos, com o recheio e terreno, às prestações. A administração de portos tinha uma ideia: nessa parcela construir um hotel e instalar a dita administração de Portos no último andar… O investimento acabava-se por pagar, entendia-se, mas não passou de um sonho. Nessa altura não estava previsto que a Administração de Portos se instalasse na nova Gare Marítima, onde estava prevista a criação de um anfiteatro.
Quando faltava uma prestação para concluir o pagamento, o Governo de Alberto João Jardim resolveu chamar o advogado das “causas difíceis”, Guilherme Silva, para efectuar a escritura. Mas disse disse que não iam pagar mais nada, nomeadamente a última prestação ao tesouro nacional: o terreno é da Região e ponto final.
Resumindo: a APRAM, que tinha então créditos, serviu de “testa de ferro”, ficando a ver as “Desertas por um canudo” e tudo o vento levou. O Governo acabou, através das finanças regionais, por devolver aos portos o dinheiro despendido.
Hoje aquele espaço onde estavam os silos tem sido cobiçado para instalar um Museu de Carros Antigos. Mas quem é o louco que quer depositar ali o seu carro, nas proximidades do litoral, sabendo-se que a salinidade, para os clássicos é um autentico “cancro”? Enfim, trata-se de património regional, resta saber o seu destino.
Aqui fica mais uma história daquilo que eu chamo “madrinha dos pobres” durante anos, a APRAM. Já teve crédito, hoje não tem dinheiro para mandar cantar um cego. Esta pandemia foi a machadada final. Só há uma solução e não sou profeta: privatizem-se os portos.