Do Humanismo como exegese: registos de emoção, no centenário de Edgar Morin

“O vírus vem acrescentar uma nova crise planetária

à crise planetária da humanidade na era da mundialização”

  1. Morin in Tracts de crise, Gallimard 2020

 

[Não me atreveria a qualquer análise filosófica à sua obra e ao seu legado que a ultrapassa. A complexidade da mesma, que acompanha o seu mais estudado e debatido conceito, recomenda um recato intelectual que acolho com reverência]

“Todas as futurologias do século XX que previram o futuro, ao transportar para o futuro as correntes que atravessam o presente, entraram em colapso. No entanto, continuamos a prever 2025 e 2050, enquanto somos incapazes de compreender 2020. A experiência das irrupções do imprevisto na História ainda não penetrou nas consciências. Ora, a chegada de um imprevisível era previsível, mas não sua natureza. Daí a minha máxima permanente: espere o inesperado” – afirmou Morin, aquando de uma entrevista concedida ao jornal francês Le Monde, em 2020. A sua inalterável capacidade de, então com 99 anos, perscrutar o mundo, descodificá-lo e, sobretudo, procurar entendê-lo é, de facto, inusitada, mas acrescenta uma dimensão de convocatória à sabedoria com que pauta as suas palavras.

Edgar Morin, celebrou o 100º aniversário, no passado dia 08 de julho. A UNESCO, de cujo Acto Constitutivo é autor, organizou um evento, transmitido online que culminou com uma Aula Magistral proferida pelo pensador, evidenciando uma jovialidade física e intelectual invejável. É nesse quadro que situo, hoje, as minhas palavras de gratidão pela sua vida, pelo Humanismo, pelo saber e pelos muitos desafios intelectuais, sociais e culturais que continua a legar-nos.

Ao longo da cerimónia, os intervenientes foram unânimes ao reconhecer, em Morin, uma extraordinária capacidade para interpretar o mundo com várias “lentes” e, consequentemente, de vários pontos de vista. Essa vontade, de que nunca abdicou, de congregar elementos, de entender a realidade como uma fonte múltipla de informação, de análise e de possibilidades de construção do conhecimento contribuiu para a estrutura dos (cada vez mais válidos) Sete saberes para o séc. XXI. A sua colaboração activa e interventiva, na UNESCO, consubstanciou o que podemos designar como “corrente” educativa que a pressão de uma globalização feroz parecia afastar dos curricula mas que a contra-corrente pandémica, de alguma forma, tem ajudado a recuperar.

Na alocução de abertura desse evento a que aludi, Véronique Roger-Lacan afirmou, a propósito do filósofo, que “celebrar a Educação é celebrar a Humanidade, celebrar a Ciência é preservar a Humanidade”. Celebrar Edgar Morin é também render-se a essa imensa capacidade de deixar-se deslumbrar pela vida. Isabelle Oliveira, uma investigadora portuguesa referiu o fascínio de Morin pela América Latina, pelo Sul e pelos países que constituem o núcleo fundador da “latinidade” enquanto desafio maior da globalização. Para Edgar Morin, e nas palavras desta investigadora, as línguas latinas permanecem um fiel depositário cultural e axiológico que se estendeu pelos cinco continentes sobretudo na América e em África. Isabelle Oliveira relembrou, ainda, um episódio muito importante da vida de Morin no que respeita à sua influência sobre Portugal. Amigo de Mário Soares, exerceu sobre este um magistério de influência que pode ter determinado o seu papel na rejeição do comunismo, em Portugal. Morin, que tinha pertencido ao Partido Comunista francês durante e após a sua participação na Resistência francesa, aquando da Segunda Guerra Mundial, foi expulso desse mesmo partido justamente por recusar o pensamento único e a ditadura de opinião.

“Estamos na aventura humana e incerta” – afirmou, na concórdia e discórdia (relembrando Heráclito), nas suas contradições. “O homem aumentado, deveria ser o homem melhorado” e não um homem castrado pelos estados neo-autoritários, pela vigilância exacerbada e pela perda gradual de autonomia, de liberdade e de criatividade para a mudança.

Morin quis colocar a homenagem que lhe foi prestada sob duas égides: a primeira, a canção de Frank Sinatra “My Way”; a segunda, o célebre pensamento do poeta espanhol Antonio Machado “caminhante não há caminho, o caminho faz-se ao andar”. Referiu, então, que o seu percurso foi aquele que escolheu, em liberdade e no permanente exercício desta e que a sua vida não resultou de um qualquer plano pré-determinado, mas sempre resultado das escolhas que fez consoante os diferentes desafios e as etapas que o futuro “sempre incerto” continua a apresentar. O quadro pandémico parece ter reforçado a ideia de um transhumanismo tecnocrático, quantitativo, que agrava a angústia e a falta de esperança, que ignora a complexidade do mundo e das vidas, entre as quais a humana que o habitam. Morin suscita, então, o Humanismo como exegese

É uma honra para a Humanidade que um pensador desta dimensão possa ter celebrado os seus cem anos, em pleno uso das suas faculdades e com uma lucidez que, sem pretender ser paternalista, nos lega matéria para reflectir.

 

https://www.youtube.com/watch?v=3NpyWuh3iSI (link para a cerimónia que referi)