A luz a rasgar os céus. Espera, espera. Espera. O estrondo!
A espera foi diminuindo e o estrondo sucedia-se quase imediatamente. Um atrás do outro. E outro. E outro. E outro quase a seguir. Ensurdecedores. Assustadores.
E a chuva a cair incessantemente. Sem dar tréguas. A trazer à memória outra intempérie, a desgraça e o desespero trazidos por outras chuvas.
A Natureza, crua e dura. Não há como não se maravilhar com o poder da Natureza. Encantamento sempre de braço dado com o receio.
E como nos faz sentir pequenos. Impotentes.
Enquanto estava a tentar voltar a dormir, já pela madrugada, apesar do espetáculo de luz e som que teimava em penetrar pelos tapa-sóis inutilmente fechados e com a minha filha mais velha alapada a mim, deitada entre nós, dei por mim a pensar nos que vieram antes de nós.
Nós conhecemos a explicação para estes fenómenos. Mas quando não se sabia? Quando se imaginava que os céus iriam mesmo desabar sobre as cabeças? Porque é isso que parece. Quando se imaginava que eram os deuses zangados que assim faziam sentir a sua ira? Porque é isso que parece. Sem tetos robustos, sem paredes protetoras. Como seria?
E será de estranhar que hoje se reze a Santa Bárbara?
E pensava nisso, na cama, quente e segura. Outros não. Estavam em desespero, a tirar água das suas casas, das suas garagens, numa luta desigual e em vão, a tentar proteger o que prezam. Outros tentavam deter a água que galgava, sem pejo, pelos restaurantes já suficientemente fustigados pela pandemia. Outros viram muros desabar, tetos a cair e deixaram, de coração nas mãos, as suas casas, sem saber o que encontrariam quando regressassem.
E ainda os outros. Aqueles que vão sempre, incansavelmente. No matter what. Vão ajudar, vão resolver, vão fazer. Os do costume, Proteção Civil, bombeiros e PSP. Mas desta vez também os heróis da Empresa de Eletricidade. Heróis, sim. Porque tudo ainda é mais assustador às escuras. Olhar à volta e não ver nada. Só raios. Como é bom ter luz, ligar um interruptor, carregar um telemóvel, ligar o forno e ter água quente. É bom.
Pensava. E lá fora tudo parecia desabar.
– Mamã, acho que tenho um bocadinho de medo.
Canto-lhe um bocadinho da música que a Maria canta aos Von Trapp também numa noite de trovões, com as coisas que os fazem felizes. Adoramos o Música no Coração.
– Raindrops on roses and whiskers on kittens – canto eu.
– No school – diz ela a rir.
Quando ela adormece, sussurro-lhe, a mamã também acha que tem um bocadinho de medo. Mas amanhã será melhor.
E foi.
Quem não acordou desta noite tão mal dormida a temer o pior, que houvesse danos pessoais, vítimas a lamentar? Felizmente não os houve. Mesmo os danos materiais não foram tão avultados como temia. E as nossas ribeiras seguiram obedientemente os novos caminhos que lhes foram traçados, passando com distinção o teste a que foram submetidas.
E o Sol despontou forte e orgulhoso. Como se não fosse nada com ele.
Não há como não se maravilhar com o poder da Natureza.
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