Empurrar o coronavírus com a barriga

Está difícil de perceber, a quem governa, a necessidade de caminharmos para um novo confinamento geral. Mas penso que a maior parte das pessoas, mesmo os empresários que serão fatalmente afectados pelo mesmo, já se terão compenetrado de que sem um novo confinamento, não vamos lá.

Todos os dias se repete uma contabilidade triste que aponta para o sacrifício da nossa população idosa à liberdade de circulação até às 19 h nos dias úteis, e às 18 h nos fins-de-semana. São um, dois, três mortos por dia.

Acresce que o recolher obrigatório, medida atentatória das liberdades individuais mas que se tem de compreender e aceitar nestes tempos de excepção, não está a resolver verdadeiramente nada, e está a tolher e a prejudicar à mesma a actividade de uma série de empresários, principalmente aqueles que vivem da restauração e similares – e não são poucos na Região. Compreende-se. O Governo Regional já tem pouco dinheiro para distribuir pelas empresas em apoios, seja a crédito, seja a fundo perdido. Tais verbas são reservadas principalmente para erigir pavilhões desportivos, como por exemplo em Câmara de Lobos, ou para asfaltar a estrada das Ginjas. E procura limitar um desrespeito (que existe) da população pelas regras profilácticas, mandando-a para casa cedo.

Prosseguem as aulas online para a maioria dos alunos, embora os mais novos ou os dos cursos profissionais sejam considerados “cobaias” aceitáveis à transmissão pelo novo coronavírus, com as aulas presenciais que lhes são impostas. Mas, curiosamente, como o recolher obrigatório é só a partir das 19 horas, não há absolutamente nada que obste a que os jovens que não vão à escola se encontrem, passeiem em grupos, vão ao café ou visitar-se uns aos outros. Com toda a gente na rua nas horas diurnas, não admira que os números não aparentem baixar. Quase todos os dias se anuncia, grosso modo, uma média de 80 a 100 novos casos activos de Covid-19, mais ou menos igual ou ligeiramente superior número de recuperados, e uns 200 e tal novos suspeitos. E não saímos daqui, da cepa torta. Entretanto o número de mortos acumula-se e já vamos a caminho dos 60. Quem tem familiares idosos, em lares, por exemplo, dificilmente estará tranquilo, embora a vacinação vá paulatinamente avançando.

A questão é que muitos países (e o relutante governo central de Lisboa) já perceberam que precisavam de confinar novamente nesta terceira vaga, por duas ou três semanas, para estancar o crescimento dos casos e o aumento do número de mortos. Felizmente na RAM não estamos tão mal como no continente, que está muito pior, com o sistema de saúde verdadeiramente sob grande pressão. Mas não estamos, a bem dizer, a resolver nada. Mantemo-nos com a mais alta taxa de transmissibilidade do país, o recolher obrigatório prolonga-se sem fim à vista e não saímos disto. Ficaremos sempre na mesma ad aeternum a ver os nossos velhinhos morrerem de Covid-19?

Todos querem proteger as empresas, os postos de trabalho. Mas a maneira mais eficaz de retomar a normalidade possível, muitos já o concluíram, é efectuar novo confinamento. Precisamente para abrandar (não digo parar…) a transmissibilidade, e evitar que, ao maldito confinamento a que estamos destinados, mais cedo ou mais tarde, tenhamos de juntar um longo, demasiado longo período de um recolher obrigatório que nada resolve, e que, por natureza, é autoritário e gera desconforto, stress e também ele, consequências económicas.

Quanto tempo levará o Governo Regional a chegar a esta conclusão?

Parece que os nossos governantes se estão a habituar demasiado facilmente a conviver por longo tempo com medidas paternalistas mas improdutivas, e por natureza excepcionais e autoritárias. A população porta-se mal, sim, em muitos casos. Mas quem não dá o exemplo (vide encontros da carne de vinho-e-alhos no Mercado ou a festa do Savoy, na qual até estiveram médicos) não tem muita moral para assacar culpas.

Arranjem, isso sim, medidas que resultem. Ou seja: confinamento geral o mais depressa possível, e durante o período de tempo necessário para obter resultados eficazes. Chega de empurrar o coronavírus com a barriga, só para dizer que estamos melhor do que o continente. Não iremos por bom caminho…