Tributo à Irmã do Bom Pastor

“A minha única certeza/segurança: a fidelidade de Deus”

Irmã do Bom Pastor

(Anne Victoria Wainright)

 

Conhecemo-nos à volta do livro O regresso do Filho pródigo, de Henri Nouwen. Levei o livro para casa com imenso entusiasmo pois, pela primeira vez, tinha tido a oportunidade de conversar, de forma serena e construtiva, sobre os assuntos da Igreja, recolhendo, simultaneamente, preciosos ensinamentos. Estaria muito distante das minhas notas de leitura desse livro (que se completou nesse dia), prever que a minha vida mudaria, para sempre, num sentido tão rico quanto imprevisível, tão humanamente avassalador quanto a gratidão que sinto.

Paula e Silva sintetiza, assim, a obra referida: “O escritor mostra três histórias verdadeiras (…). Na primeira, o autor revive a Parábola de Jesus aos fariseus e aos escribas, sobre o regresso do filho à casa de seu pai. A segunda é sobre Rembrandt que, inspirado nessa Parábola (…) pintou o célebre quadro “O regresso do Filho Pródigo”, hoje exposto no Museu “Hermitage”, em São Petersburgo. A terceira, é a história do próprio autor Henri Nouwen, médico e padre.

No prefácio, o autor refere que a parábola do filho pródigo exprime a infinitude do amor compassivo de Deus (…): “o pai tocando o filho é uma eterna bênção; o filho descansando, encostado ao pai, uma paz eterna”. Sobre esta parábola/pintura, Christian Tümpel escreve que: “o momento de acolher e perdoar, no silêncio da sua composição, dura sem ter fim. O movimento do pai e do filho fala de algo que não passa, mas dura para sempre”. Para Jakob Rosenberg: “O conjunto pai-filho é exteriormente imóvel, mas por isso mais movido interiormente. A história não trata do amor humano de um pai terreno… o que aqui está significado e representado é o amor divino e a misericórdia com o seu poder de transformar a morte em vida”.

Anne Waineright, mais tarde Irmã do Bom Pastor, sempre foi uma “leitora compulsiva” característica que decorria de uma postura de extrema curiosidade diante de Deus, do mundo e de todos os seres que o povoam. Foi uma teóloga brilhante, as suas exegeses eram sólidas e fundamentadas, sobretudo muito documentadas. Preferiu, no entanto, transformar a eloquência das suas reflexões na simplicidade das pequenas coisas e tornar compreensível, especialmente aos mais desprotegidos, a mensagem clemente de Deus. Para além do seu douto conhecimento da Língua e da Literatura portuguesas, era fluente em inglês (a sua língua materna), francês e espanhol, o que lhe proporcionava uma riquíssima cosmovisão. Fiel a Deus, acima de todas as coisas, à sua Profissão de Fé e ao carisma de Marie de Rivier, pugnou a sua vida pela dádiva das suas capacidades aos outros, tendo colaborado com incontáveis instituições, organizações e iniciativas. Com ela percorri a ilha toda, em sessões de reflexão, de oração e, a maior parte das vezes, para trazer conforto e alimento aos mais desprotegidos dos desprotegidos, aos que vivem nas margens da margem, aos que – com dificuldade – aceitavam pertencer à Humanidade. A sua incansável esperança num Mundo melhor, a certeza e a segurança da Fidelidade de Deus, sempre foram maiores que as dores, que o sacrifício e que as muitas “marés” adversas. Trocou as possibilidades mundanas de elevar-se para poder deixar legado nas vidas e nos corações de quem tocou.

No mesmo dia, podia louvar a Deus com a sua voz (magnífica) e visitar os toxicodependentes, as mães solteiras e abandonadas com os seus filhos, os doentes (sobretudo pessoas portadoras de deficiência) rejeitados por familiares e pela sociedade. A todos tentava levar alimento físico (congregando esforços nesse sentido) e conforto espiritual. Conheci as “entranhas” geográficas desta ilha e – coincidentemente – as entranhas do abandono, da solidão e da mais profunda miséria Humana.  Na sua missão junto dos que não têm voz ou direito a presença, confiava a sua certeza de serem filhos de um Deus maior, o único capaz de os amar sem reservas ou constrangimentos. “Acolher e perdoar” – sempre.

Era uma atenta espectadora do devir do mundo, tendo do mesmo uma visão lucidamente crítica, mas empreendedora. Não lhe conheci queixas ou amarguras. Aceitou, com denodado estoicismo, o sofrimento dos últimos anos, tendo sido obrigada a abdicar de ler, uma das suas mais acarinhadas ocupações, por razão da doença que a afligiu. Gostava de escrever cartas, postais e pequenos “recados”. Tinha um recanto de Amor reservado aos seus pais e irmãs e nunca deixou de emocionar-se diante da memória da belíssima história de amor dos seus Pais e da conversão do seu Pai ao Catolicismo.

Nunca se acomodou às novas tecnologias e considerava que o telemóvel era um objecto dispensável. Poderia ter cedido à tentação de servir a sua brilhante inteligência dedicando-se à escrita, quer teológica, quer poética. Mas o entendimento que tinha da sua Missão de Pastor era bem diferente. Estes vinte e seis anos de cumplicidade na Missão, de orientação espiritual e de amizade leal e sincera, registam a marca indelével do modo como sempre entendeu o seu papel de religiosa.

Sei que não gostaria que escrevesse um texto lamechas, pois não escondia a sua alegria em, finalmente, “entrar na casa do Senhor”. Saberá do meu desgosto e da saudade, saberá – agora mais do que nunca – o exemplo que foi e o quanto, desde esse primeiro dia, agradeço a Deus o dom da sua vida.

Que Deus a tenha na Sua infinita Misericórdia e que os Anjos rejubilem com a sua incomparável voz! Ecoem, nos Céus, cânticos de felicidade eterna pela sua presença. Todas as palavras são escassas, penosamente escassas, diante da grandeza do legado de serviço que nos deixa.

“O Senhor é meu Pastor, nada me faltará” – foi esse o seu carisma. Missão cumprida.