Adolfo Freitas acusa Reid’s de amealhar subsídios do Governo para depois despedir trabalhadores

Fotos Rui Marote

O presidente do Sindicato da Hotelaria na Madeira, Adolfo Freitas, está preocupado com a actual situação do sector na Região. O Reid’s Hotel anunciou a intenção de despedir 63 funcionários; o emblemático café Apolo está numa situação difícil e o resultado é uma incógnita para os trabalhadores; e agora o grupo Savoy prepara-se para colocar 400 trabalhadores em lay-off. Tudo sinais de uma quebra dramática no sector do turismo, que muitos reputam como um “ano perdido”, à conta da pandemia da Covid-19 e das medidas tomadas para a conter. “É evidente que a situação não é nada animadora”, admite este sindicalista. Segundo o próprio, quem contempla o panorama regional, nacional e até internacional dá-se conta de “não se vislumbra uma luz ao fundo do túnel, de que vá haver uma melhoria a curto prazo”.

Consequentemente, o sindicato mostra-se “muito preocupado”, pois, descreve, são os postos de trabalho que estão em risco, são as famílias dos trabalhadores que podem passar por grandes dificuldades, que se vêm juntar a “toda uma situação de salários em atraso, e que já era preocupante, mas que lá se ia gerindo”.

Adolfo Freitas alerta que o Governo Regional terá de ter atenção particular à questão dos subsídios. “É inaceitável que, por exemplo, o Reid’s Hotel tenha beneficiado de subsídios até 31 de Julho, e venha agora com a informação de uma intenção de despedimento de dezenas de trabalhadores. Isto é, abusivamente, amealhar dinheiro para despedir trabalhadores. É o caso do Reid’s, e de outros que poderão surgir a seguir”, refere o sindicalista, acusando o grupo hoteleiro de beneficiar com dinheiros públicos para depois pagar indemnizações aos trabalhadores que mandar embora.

“Há subsídios que exigem uma maior responsabilidade de quem os dá, pois são dinheiros públicos. Tudo o que é dado a mais, e a que depois não é dado o melhor aproveitamento no investimento… Se se dá subsídios, há que haver a garantia da manutenção dos postos de trabalho”, insiste o nosso entrevistado, que até ironiza: “Obter os subsídios governamentais pode ser um processo burocrático, e admitimos que seja, mas depois de [o dinheiro] chegar à mão, é do empresário”. E pode ter sido burocrático para obter o apoio, mas para despedir, a burocracia já não preocupa, critica. “Não pode ser facilitado às empresas receber dinheiro e depois despedir trabalhadores. O Governo Regional, ao dar subsídios à hotelaria, está a fazer uma aposta na defesa dos posto de trabalho. Quem despedir, deve ser responsabilizado”, insurge-se. “Até porque o GR, uma vez mais, acaba a pagar subsídios de desemprego”.

Entretanto, e desde o mês de Agosto, há outros sinais da crise que se tem agravado. Adolfo Freitas cita também o problema do Café Relógio, na Camacha: entre o restaurante o bazar, são 21 trabalhadores a estarem em causa. A insolvência foi requerida e no dia 21 deste mês será a assembleia de credores que irá definir definitivamente se há insolvência ou não. Mas neste momento, o restaurante está fechado, e 21 trabalhadores estão em casa, angustiados, à espera de conhecerem o seu futuro.

Por outro lado, o restaurante Apolo, no coração da cidade do Funchal, tem também 17 trabalhadores ansiosos por saber o que o futuro lhes reserva. “A empresa decidiu no final do mês passado encerrar para férias, quando até já havia trabalhadores que tinham gozado férias, pelo que daqui também se vê com preocupação o que poderá vir a surgir”.

Adolfo Freitas diz que, no que concerne ao Apolo, “há quem diga que é um negócio que está por fechar, que há outro interessado em explorar aquele espaço”. Se for essa a situação, reconhece, “será o menos grave, porque a empresa continua, e os postos de trabalho também irão continuar”. A preocupação com o Apolo é que “neste momento, tudo é um segredo”. O Sindicato já solicitou a intervenção da Inspecção de Trabalho por causa do encerramento sem data de reabertura anunciada, e até pelos termos legais em que se deu o encerramento; “continuamos a aguardar”.

“Evidentemente”, reconhece, “as situações na hotelaria também não vão melhores, apesar de ter entrado em vigor uma nova lei de apoio extraordinário à retoma progressiva”. O nosso interlocutor diz que houve muitos hotéis que aderiram, mas outros optaram pelo lay-off normal, que obriga a um conjunto de critérios, de acordo com o que está no Código do Trabalho.

“Neste momento temos o hotel Four Views Baía com 55 trabalhadores em lay-off até ao final de Dezembro; temos o grupo Estêvão Neves, do Enotel, também com seis meses de lay-off com 175 trabalhadores, temos agora o grupo Savoy que irá incluir trabalhadores quer do Savoy, quer do Royal Savoy, do Savoy Gardens, do Madeira Regency, do Saccharum… Andamos a falar à volta de 400 trabalhadores. E a situação mais preocupante é a situação do Reid’s, hotel em que foi anunciada mesmo a intenção de despedimento colectivo de 63 trabalhadores”, constata.

Para o Sindicato, esta é uma situação que configura uma perfeita surpresa, uma vez que o Reid’s apostava num “staff” grande, dependente também da sua aposta em fazer a diferença pela qualidade de serviços que prestava. “Era uma referência do turismo regional”, declarou, considerando que o Reid’s teria feito melhor em optar também pelo lay-off. Não é o melhor caminho, assume, mas era um caminho possível, que deixaria as portas abertas para a continuação do emprego. “Temos agora de analisar juridicamente os efeitos desta situação”, acrescentou.

“Isto é o princípio, e não o fim”, lamenta Adolfo Freitas, para quem o futuro se apresenta negro e cheio de incógnitas. A situação causada pela Covid-19 é muito preocupante pelo impacto na economia e “não sabemos quando é que isto um dia terá fim”. Enquanto não houver vacinas ou medicamentos que valham, os impactos na economia e no turismo internacional continuarão, lamentavelmente, a ser uma realidade. E a Região está a sofrer. Adolfo Freitas fala mesmo de “pânico”.

“Dificilmente se encontra alguém, de algum sector de actividade na RAM, seja ele qual for, que se sinta sossegado e e satisfeito. Mesmo aqueles que estão em casa, em lay-off, e que não estão a ter até agora qualquer prejuízo em termos de redução do salário estão muito, muito preocupados. O sossego e a paz não reinam, de certeza, no espírito desses trabalhadores”. Muitos temem perder o emprego, e a angústia está sempre presente.

O Sindicato vai manter reuniões agora, nesta semana, a partir de quarta-feira, com a administração e os trabalhadores do grupo Savoy, por causa do anunciado lay-off, que principiará a partir do dia 16.

O Funchal Notícias questionou Adolfo Freitas sobre o número de hotéis abertos na Região, e a percentagem de ocupação dos mesmos, para comparar com os números oficiais anunciados por Albuquerque, que referem uma ocupação dos hotéis abertos na ordem dos 30 por cento, mas o mesmo não nos soube responder.

“Sinceramente não temos dados. Não conseguimos ter uma abrangência total do que se passa. No Porto Santo, sabemos que estão todos abertos, mas já na Madeira, é mais complicado. Por exemplo, o grupo Pestana tem 9 hotéis, mas só um está aberto… E outros mais. A Four Views tem três hotéis e dois é que estão abertos… O grupo Cardoso tem dois hotéis e só um é que está aberto… Digamos que há aqui uma situação de alguma falta de informação relativamente aos hotéis que estão fechados. Temos alguma informação sobre alguns hotéis, mas na globalidade, não temos essa capacidade de informação”, disse ao FN.

Em todo o caso, comparando os dados actuais disponíveis com os proporcionados pela Direcção Regional de Estatística relativamente a anos anteriores, como 2019, 2018, até 2016, a situação de 2020 só pode ser considerada “grave e preocupante”.

Este ano em Janeiro e Fevereiro, “tivemos dois meses de excelente ocupação”, que até ultrapassaram os meses do ano passado e de há dois anos; a partir de Março a situação caiu a pique. No ano passado, e em circunstâncias normais, “teríamos à volta de 600 mil dormidas no mês de Julho”. Ora, basta comparar isso “com 70 mil, segundo informações que foram noticiadas”, é evidente que a situação é muito desconfortável. Os trabalhadores, insiste, estão muito preocupados.

Relativamente à promoção da Região no exterior, e à forma como a mesma está a acontecer, Adolfo Freitas diz que, apesar de não terem existido as habituais feiras e bolsas turísticas, é da responsabilidade das instâncias governamentais regionais mostrar, lá fora, “um clima de confiança” na nossa contenção da pandemia, criando a imagem de um destino “seguro e de qualidade” em meio à pandemia do novo coronavírus.


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