“Rússia Branca” transformada num campo de batalha…

A juventude bielorrussa certamente terá um papel muito activo na contestação ao regime.
Rui Marote
A 2 de Setembro de 2020 fará três anos que visitei Minsk, capital da Bielorrússia, dando conta do percurso nas minhas “Crónicas de Viagem”. Nessa data escrevi que pouco ou nada a Bielorrúsia dizia aos leitores madeirenses. Hoje é montra das “caixinhas mágicas” que todos temos em casa, que dão pelo nome de TVs  e imagens daquele país invadem as nossas casas na abertura de telejornais pelos piores motivos, dando-nos a conhecer a revolta de um povo que diz “Acabou!!! Chega de comunismo totalitário “branqueado”.

Na minha crónica de viagem que intitulei “Bielorrússia ou “Rússia Branca”, explicava que, traduzido à letra, o nome do país quer dizer “Rússia Branca” e, apesar politicamente a Bielorrússia  já não estar dependente da vizinha Rússia, a verdade é que economicamente, ainda o é.

Três dias foram suficientes para conhecer Minsk, uma cidade limpa e arrumada – hoje transformada no cenário de uma batalha campal – caracterizada pela limpeza. Quase não se vê um papel ou uma beata de cigarro na rua. Os dias que permaneci foram suficientes para ver e visitar lugares inerentes à história comunista. Na altura relatava que, para visitantes interessados na estatuária soviética e na história da Segunda Guerra Mundial, este país tem muito para oferecer.
As avenidas de Minsk
Em 1959 foi casa de Lee Harvey Oswald (alegado assassino do presidente dos EUA John F. Kennedy. Oswald chegou à União Soviética em Dezembro de 1959. Foi enviado para Minsk ,mudou o seu nome para Alek, casou-se com uma bielorrusa, Marina Prusakova, com a qual teve uma filha. A família foi para os Estados Unidos a 1 de Junho de 1962. Mata a tiro o presidente em Novembro do ano seguinte, embora subsistam dúvidas sobre se agiu sozinho ou foi apenas ele o autor de um assassinato montado por forças obscuras.
O mercado central de Minsk
O quartel general da KGB estava localizado numa das ruas comerciais de Minsk. Aparenta-se apropriado que num país como a Bielorrússia a KGB ficasse localizada num prédio icónico no centro da cidade.
A fraude dos resultados eleitorais foi a “ponta do icebergue”que fez despertar um povo sofrido, que é governado com mão de ferro desde 1994, perante a recusa de repetir eleições presidenciais apesar das enormes suspeitas de fraude. Aleksandr Lukashenko não está disposto a deixar o poder . “Se destruírem Lukashenko, será o começo do fim” afirmou ele neste domingo em Minsk diante de milhares de seguidores .
Estatuária soviética: terá os dias contados?
Mas a realidade é teimosa, e nas ruas da capital e de outras cidades uma grande quantidade de pessoas exige a sua renúncia, nas maiores mobilizações já ocorridas na história da Bielorrússia. Enfraquecido, o líder bielorrusso recorreu ao presidente russo, Vladimir Putin, para apoio. Neste domingo, o Kremlin confirmou que está disposto a apoiá-lo, mesmo tendo-se transformado num aliado problemático, aumentando a tensão e os temores de uma possível intervenção militar.

“Não os convoquei aqui para que me defendam, mas para que defendamos o nosso país, as nossas famílias, as nossas irmãs, esposas e filhos”, salientou Lukashenko aos seus partidários na Praça da Independência de Minsk. “Não deixarei que ninguém entregue o nosso país, não permitirei isso nem depois de morto”, discursou, desafiador, o líder bielorrusso diante de milhares de pessoas. Mas a Revolução está na rua  e pôe  Lukashenko contra as cordas.

A população de Minsk nos transportes públicos: hoje ergueu-se contra o totalitarismo

Há três anos eu manifestava na minha crónica de viagem que o país estava preparado e tinha tudo para ser um destino de visitas, o único entrave era a língua… mas que com a universal linguagem gestual tudo era possível. Fazer férias na Bielorrússia? Afirmava eu então que sim e que o visitante não seria defraudado. Hoje é diferente. As coisas mudam rapidamente. Já não bastava o coronavírus, e agora o país está mergulhado numa revolução e muito sangue será provavelmente derramado.