Não fosse a epidemia e já estaria em vigor o regime de BOB na TAP Air Portugal. Era já apanágio da aviação que esta fronteira moral do serviço a bordo fosse transposta em todos os segmentos. BOB significa Buy-on-Board, relativamente à refeição. A TAP Air Portugal, no médio curso e até 4h de voo, dará uma opção ao passageiro. Pagar o que escolhe comer, ou se preferir, não ingerir e não pagar. Água gratuita mediante solicitação, exceptua-se.
Consiste num sacrilégio para os que consideram a sandes a bordo algo imprescindível. Ao mesmo tempo que desancam a magra quantidade e sabor desinteressante do que é servido quarenta minutos após a descolagem, ficam em frenético stress de saber que podem ter de acrescentar mais seis ou sete euros a um bilhete que custa centenas, comendo algo que não gostam, e que podem nem tocar se adormecerem após descolar. Por mais irracional que pareça o argumento da existência de refeição “grátis”, seja uma bolacha ou tabuleiro com prato quente, é um diferenciador entre o que alguns percepcionam como “companhias de bandeira” ou “low cost que só trazem pés rapados”. Passageiros habituados a fazer contas ao cêntimo, que se certificam que não pagam dez cêntimos por molhos extra nos “fast foods”, desligam a calculadora perante esta heresia. Persiste a crença que a miserável sandes é um direito adquirido de valor incalculável, e que se assiste a uma profanação. Possivelmente há a componente de gostarem de ser servidos como num restaurante, ou reminiscências da finesse dos anos 70/80 (que quase ninguém conheceu). Ou de se sentirem seguros de ver o passageiro do lado comer a mesma coisa, tipo cantina de prato unissexo. Nem mesmo as vantagens óbvias de comprar a bordo servem de contrapeso. A escolha “a la carte“ deixa de ser virtude mal o trem principal deixa o pavimento. Passam pelo Duty Free e pelos Food Courts na aerogare maravilhados com a escolha, possibilidade de comprar de várias marcas, e arfam de portar sacos com aquisições de última hora no momento do embarque. Assim que se cerram as portas do avião, essa lógica esfuma-se.
Qualquer menu BOB que se preze inclui vários tipos de sandes (algumas quentes, hambúrgueres, vegetarianas, wraps, etc.), chocolates e outra doçaria, larga variedade de bebidas, cafés com marca (em vez da água residual castanha) e até sopas. Há por vezes comida multiétnica, que protege o passageiro pagante de algo que a sua vivência não lhe permite consumir (anda me lembro do pobre muçulmano que ia ao meu lado e lhe é servida uma sandes de fiambre, sem alternativa), e oportunidade de experimentar algo diferente.
Mas não, o passageiro tradicional, capaz de fetidamente assar sardinhas na Costa da Caparica, de comprar uma garrafa de meio litro de água no supermercado e entrar com ela dissimulada na sala de cinema dois pisos acima para poupar 20 cêntimos, fica furibundo de lhe ser negado um repasto pelo qual ele próprio não pagava um euro fora da fuselagem. A afamada British Airways e “la suya sister” Iberia já o fazem, para que não se vilipendie a TAP Air Portugal. Portugal está sempre um passo atrás em tudo o que é progresso na aviação.
O BOB tem outras vantagens. Poder repetir: basta chamar a tripulação. Muito útil num voo Lisboa-Funchal que divirja para Porto Santo, porque aí só se reabastece a aeronave sedenta de Jet A-1. Nem se verá o camião de Catering por perto. Ou se deixar cair a sandes no chão e tiver a decência de apanhar – só para deitar fora. Outra vantagem é ser servido mais depressa, dado que muita gente não irá querer consumir nesta modalidade. Poupa-se a tortura de ver o “trolley” sair da “galley” e lentamente ser esvaziado com uma embalagem entregue a todos os passageiros que franzem o nariz quando se lhes é revelado o banquete. O infeliz passageiro sentado numa coxia nas vizinhanças da cauda ainda vê o “trolley” a passar novamente pelos seus olhos para ser reabastecido antes de lhe chegar a si. E a bebida, dado que costuma ser vertida de pacotes para copos, e não entregue em lata/garrafa individual, poderá chegar depois de a pessoa não ter resistido a comer a sandes a seco e ficar a desesperada com sede. Uma grande experiência gastronómica, sem dúvida, a defender com unhas e dentes.
Na – admitamos – pouco verosímil eventualidade de parte da comida agradar aparece outro dilema. O passageiro gosta do iogurte mas não da sandes. Com conhecidos ao lado fazem-se as trocas, certo. Os homens comem a sandes com fiambre, as mulheres a saladinha (dieta “mile high”), e as crianças sorvem os bolinhos e chocolatinhos. Mas é gritante ver o passageiro do lado que adormeceu antes de ser servido, ressonou e nem tocou na comida, que acaba por ir para o lixo quando tanto desejo provocava ao faminto vizinho. É impossível não olhar. No BOB uma pessoa pode comer três chocolates. Só. E batatas fritas de vários sabores. Ou várias cervejas (certamente que alguns opositores ficaram com dúvidas ainda a ler esta frase).
Cerveja a bordo de um Boeing 747-8i da Lufthansa (Crédito: José Freitas)
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