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O funeral do Padre Tavares decorreu num clima de serenidade e de esperança. Mesmo que estivessem representados todos, os amigos, os curiosos, mas também os que movidos pelos interesses mundanos o rejeitaram, desprezaram e não permitiram que nem sequer concelebrasse a Eucaristia logo após o momento em que terminou a sua missão e militância política. Enfim, não deve haver maior gozo que é até depois de morto conseguir reunir à sua volta os amigos sinceros e as hipócritas carpideiras que não escolhem corpo, qualquer um serve para carpidar o seu pesar de fachada. Fora tudo isso, esta celebração exequial do Padre Tavares foi a celebração da vida e da memória marcante como tantas celebrações exequiais que ele deve ter feito nos imensos funerais que acompanhou ao longo do seu exercício pastoral.
A vida tem este momento de finitude para «aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando» (Luís de Camões) e de despedida para os que ainda ficam por cá mais algum tempo.
Não deixou de ser interessante constatar dois elementos físicos muito curiosos e interessantes porque carregam uma magnífica mensagem, que importa aqui relevar para que conste para a história.
O primeiro elemento é que as vestes que o Padre Tavares levou sobre o seu corpo defunto correspondeu à sua vontade, fato e gravata, e uma estola de sacerdote à volta dos ombros com as duas pontas caídas cobre o seu corpo para frente. Eis o homem e eis o sacerdote.
Mais uma vez aquele que não lhe davam nada quanto à sua inteletualidade, até com o féretro inútil engendrou uma mensagem, um sinal, uma provocação… Só posso considerar de mestre esta última do Padre Tavares. Este homem não era um acéfalo como tantos outros, tinha vontade própria, tinha pensamento próprio, tinha ousadia e coragem, era mestre de sabedoria o homem e padre acampados no corpo franzino de Mário Tavares Figueira.
O outro elemento curioso é o seguinte. A sepultura por acaso, suponho eu, foi talhada à sombra de um belíssimo cedro, que penso ser centenário, que jaz majestático no corredor central do cemitério do Estreito de Câmara de Lobos. Até parecia que os braços firmes da vetusta árvore como que se moviam para acolher o corpo caído ao chão sobre a terra fria. Senti regozijo por este sinal do antigo cedro ali plantado há tantos anos para fazer sombra ao corpo onde morou a inquietude, a bondade, a solidariedade, a esperança, a amizade e a compaixão por todos os que eram seus. Cantou o poeta Francês Lamartine (séc. XIX): «Os Cedros do Líbano são os monumentos naturais mais célebres do universo. A religião, a poesia e a história igualmente os consagrou. São seres divinos sob forma de árvores».
Este género de árvore é mencionada 75 vezes na Bíblia e foi utilizada também pelos Romanos, Gregos, Assírios e Babilónios. Por isso, «O homem justo deverá se desenvolver como a palmeira, e como o Cedro ele deverá crescer» (Sl 92, 12). O texto da proclamação do Líbano como Estado Independente em 1920 diz o seguinte: «Um cedro sempre verde é um povo sempre jovem, apesar de um passado cruel. Embora tenha sido oprimido, jamais conquistado. O cedro é o seu sinal de união. E pela união, pode enfrentar todos os ataques». Este cedro providencial representa tanto e como ele ali estava à espera de ser abrigo daquele que «Na voragem das noites e dos dias / Davídico pastor serrano / Venceste sempre a caterva de todos os Golias» (Poema do P. Martins Júnior).
Dado que morrendo a pessoa, no entanto, fica a obra. Gostaria de partilhar convosco algumas referências da bonita homilia que D. Nuno Brás proferiu na missa exequial, fazendo jus ao verso de Camões: «Cantando espalharei por toda a parte, / Se a tanto me ajudar o engenho e arte», falou da diferença entre a riqueza de um pobre e de um rico, dado que ali jazia um amigo dos pobres, um libertador da pobreza de tantos que encontrou ao longo do caminho sinuoso da existência como homem, como padre, como professor…
Relevo aqui com um forte bem haja estas abençoadas palavras de D. Nuno que devem ter alegrado o Padre Tavares, «não são as riquezas deste mundo a ter a última palavra» e que «Deus é Aquele que dá ao pobre a possibilidade de viver com dignidade, de viver olhando para o longe, de viver percebendo a vida». Porque, o sr. Bispo inspirado e guiado pelas Bem Aventuranças, rematou: «o pobre é bem-aventurado» e «não precisa andar de cabeça baixa e nem cheio de vergonha», porque tem no seu horizonte Deus. «Deus que lhe dá força, Deus que o ajuda a lutar, Deus que lhe diz que sim, que é possível viver de cabeça erguida, porque não são os homens, não são os poderes deste mundo, não são as riquezas deste mundo, a terem a última palavra». Palavras certeiras para o contexto e a pessoa em causa.
Assim se deve ter deixado iluminar pela luz do Espírito Santo, que D. Nuno Brás, nesta feliz lança o mote para falar concretamente do Padre Tavares: «Porque Ele [Deus] nos ajuda a ser mais, porque Ele nos ajuda a viver melhor, porque ele nos ajuda, a nós pobres, a olhar mais longe e a perceber que as dificuldades que agora sofremos e passamos, não são a última palavra». Por isso, frisou o seguinte: «foi esta missão que o Pe. Tavares tomou para si: ser esta presença de Deus junto dos pobres, ser esta presença de Deus que junto dos pobres diz: não é a última palavra, Deus tem a última palavra. Ser esta presença de Deus que aos pobres faz andar de cabeça erguida, porque há um outro horizonte. Porque há alguém, que não os poderes deste mundo, que pode ter a última palavra».
E concluiu: «Demos graças a Deus porque nos deu o Pe. Mário Tavares, assim como ele é, com todas as suas qualidades e com todos os seus defeitos, com todas as suas virtudes e também com todos os seus pecados. Assim como ele é, é presença de Deus. Deste Deus que ao nosso lado nos diz: bem-aventurados os pobres, porque deles é o reino dos céus».
Por isso, esta é a hora de agradecer o dom que uma pessoa, qualquer pessoa, sempre representa para o mundo inteiro, e a gratidão é uma forma de dizer Deus. Assim, o sentido da gratidão veio como uma flecha do céu para baixo pela boca do nosso bispo: «Agradecemos ao Senhor o seu ministério, agradecemos ao Senhor a sua ação, agradecemos ao Senhor o amigo que nos deu e pedimos-lhe que agora, já do outro lado, o acolha nos seus braços, esquecendo e perdoando os seus pecados e dando-lhe toda a recompensa pelas lutas e pelos trabalhos que ao longo da sua vida, e da sua vida como padre, ele desenvolveu».
Só posso reconhecer que finalmente, ao fim da já longa lista de defuntos sacerdotes que conto, veio uma homilia que me agradou bastante, profunda, esclarecedora e aplicada àquela que foi a missa e obra daquele por quem se reza. D. Nuno Brás, cada vez mais mostra que ouve tudo o que lhe chega, mas pensa e faz como acha que deve ser, agindo pela sua própria cabeça. Parabéns pela marca pessoal que começa a deixar entre nós e por este texto/homilia o meu obrigado, a surpresa do conteúdo e a feliz adatação da mensagem à vida e obra da pessoa em causa encheu-me a medidas.
Por fim, destaco a leitura do texto do grupo de cidadãos do Jardim da Serra feita pelo professor Manuel Neto, que considerando insistentemente o Padre Tavares amigo e mestre, confirma e regista para o futuro o que foi e representou a ação do Padre Tavares na Freguesia do Jardim da Serra. E completou-se a cerimónia com a jovial voz timbrada e amiga do Padre Martins Júnior com um belíssimo poema da sua autoria que homenageia a amizade, a luta e as convições que o companheirismo de ambos contam e brilham para a história da Madeira. Tudo bem conjugado, com simplicidade, mas rico de esperança. Bem hajam todos. E os que se azedam com tudo isto, convençam-se que não contam e a poeira do esquecimento encarregar-se-á de dissipar todo o mal, porque o bem é sempre muito mais poderoso.
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