Lideranças políticas e a defesa da saúde pública em tempos de COVID-19

Costuma dizer-se que é nos momentos difíceis, de elevada exigência que se testemunham os autênticos líderes. E é verdade! A Pandemia que nos afecta e de que vamos tendo conhecimento sobre o seu curso e modo como tem atingido as populações à escala mundial, tem sido de extraordinária e inimaginável dificuldade para os líderes políticos e governamentais de todo mundo.

Num célere exercício de memória recente devidamente acompanhado por uma incursão nos registos noticiosos até agora disponíveis, digitais e não digitais, percebe-se e identifica-se, sem qualquer tipo de complexidade acrescida, algumas “figuras de liderança” política e ou/governamental que, em tempo de COVID – 19, podem ser manifestamente favoráveis ou, pelo contrário, desfavoráveis à defesa da Saúde Pública. Sobre esta matéria e para a sua análise não será necessário nem oportuno apelar e/ou chamar à colação abordagens mais teóricas relativas a diferentes estilos de liderança organizacional, muitas vezes reflectidos no domínio da gestão e da administração social.

Desprendido de quaisquer referenciais teóricos sobre o fenómeno (precisamente de Liderança) seja ela política, governamental ou de qualquer outra ordem, correndo o risco de a análise aqui produzida poder ser profundamente carregada de subjectividade, a verdade é que a realidade de saúde/doença atuais tem-me permitido identificar, a nível mundial, três estilos de liderança estadística substancialmente diferentes, com sérias repercussões na prevenção da infecção/doença por COVID-19 (obviamente com os únicos e escassos mecanismos que o Homem tem hoje ao seu alcance), e sua respectiva mitigação, numa conjuntura histórico-social e sanitária em que vacina e terapêutica específica de combate à patologia inexistem.

Então de que de lideranças se fala, caso nos centremos única e exclusivamente sobre aspectos profilácticos? Diria que existem as lideranças populistas, as autocráticas, podendo estas duas ser cumulativas, e as democráticas de cariz humanista, proactiva e de responsabilidade social. As duas primeiras, que reputo naturalmente de risco, contra-indicadas, profunda e irremediavelmente lesivas da Saúde Comunitária, são as lideranças que se consubstanciam na obstrução da verdade, na omissão de factos relevantes, na afronta às instituições sociais, no desrespeito dos direitos e valores humanos, na disseminação da desesperança e do medo, na intimidação e manipulação públicas, na desvalorização do conhecimento e da evidência científica, no egocentrismo, na ausência de sentimento universal, na inversão de prioridades, onde muitas vezes os interesses económicos se sobrepõem aos essenciais à da vida humana com dignidade, da qual a Saúde é uma das suas dimensões fundamentais, para não dizer a mais relevante.

Pelo contrário, as democráticas remetem-nos para as lideranças pautadas pela verdade, pelo comprometimento, pelo espírito colectivo de missão, pela humildade no reconhecimento do erro e de colaboração institucionais, pela gratidão em relação saber académico como algo inalienável na tomada de decisões políticas e/ou governamentais vitais à civilizada convivência em comunidade, pela solidariedade, pelo empoderamento dos cidadãos, pelo trabalho multi e intersectorial, pelo equilíbrio entre o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável, pelo respeito pela condição natural e socialmente adquirida de todos os seres humanos, pela responsabilidade bilateral, premissa de qualquer Estado de Direito Democrático, onde direitos e deveres devem ser equitativamente honrados. É só somente neste registo e quadro societário que a Saúde Pública é verdadeiramente promovida e salvaguardada, não há outros, e que urge nos situar, importando para o efeito (re) definir e adoptar comportamentos, alguns dos quais infelizmente há muito arrendados do nosso dia-a-dia, para que a assim estejamos à altura para fazer face a uma “tormenta sanitária”, relativamente à qual não há memória recente!


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